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domingo, 7 de fevereiro de 2021

SESSÃO NOSTALGIA - Sete Mulatas e uma Loura

 Daslan Melo Lima

 


A revista Manchete de 8 de maio de 1965, Ano 13, número 681, trazia na capa as imagens de Solange Dutra Novelli, Rainha do IV Centenário do Rio de Janeiro, e de Vera Lúcia Couto dos Santos, Miss Renascença, Miss Guanabara, Vice-Miss Brasil e terceira colocada no Miss Beleza Internacional 1964. A chamada de capa sobre a guerra no Vietnam, em letras grandes, era preocupante, mas em letras miúdas à direita do título da revista estava escrito “As mais lindas mulatas do Rio de Janeiro em harmonioso espetáculo com a rainha loura do IV Centenário”. Sete páginas coloridas foram dadas à sangrenta guerra, mas dez páginas foram dedicadas à matéria Sete Mulatas e Uma Loura.  Reportagem de Clóvis Scarpino. Fotos de Gervásio Batista e Juvenil de Sousa.  

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Sete Mulatas e uma Loura

Faz 140 anos que Rugendas descobriu os encantos das jovens mulatas brasileiras, fazendo o elogio de seus dotes plásticos e de sua inteligência. Os poetas românticos também celebraram as esculturais mestiças e um romancista fez correr lágrimas de damas e sinhazinhas do Segundo Reinado, apresentando como heroína uma dessas mulatas. Era a Isaura, de Bernardo Guimarães, flor de sensibilidade, recatada e formosa. Mas uma coisa era a literatura e outra a realidade, com as suas barreiras e tabus. Nos últimos anos, porém, o panorama social se transformou. Oportunidades foram oferecidas às moças cor de canela por diversas atividades artísticas: cinema, teatro, televisão, boates. Além de possibilidades de melhor educação, surgiram também as de convívio social em clubes recreativos e culturais e o acesso aos concursos de beleza. A espetacular vitória de Vera Lúcia como Miss Guanabara e o terceiro lugar que ela conquistou em Long Beach, Estados Unidos, são um incentivo para muitas. Aqui estão algumas que com ela rivalizam tanto em graça como em elegância. 

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Aizita Nascimento




Aizita Nascimento bateu, no ano passado, todos os recordes possíveis e imagináveis de propostas de casamento: nada menos de mil e noventa e cinco, ou seja, três por dia. Ela passou de Miss Renascença a atriz de televisão e, em poucos meses, marcou sua personalidade, fazendo dupla com Grande Otelo. Agora, vai interpretar um papel, num filme, ao lado do conhecido ator italiano Alberto Sordi.

------- Aizita Nascimento, Miss Renascença 1963, foi finalista (sexto lugar, Top 8) no Miss Guanabara 1963.

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Vilma Lindamar




Vilma Lindamar vai viajar, ainda este mês, para a Itália, onde fará um curso de arte dramática. Ela foi descoberta há pouco pelo produtor e diretor italiano Giorgio Moser e acaba de rodar, na Bahia, uma série de filmes a serem apresentados na televisão daquele país. Vilma Lindamar é filha de Maria Ribeiro, a estrela do célebre filme Vidas Secas.

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Marlene Marques

O broto Marlene Marques foi eleito, há pouco, charme-girl do Renascença Clube, associação que reúne as mais belas mulatas do Brasil e do mundo. Ela estuda piano e teoria musical e, se quisesse, poderia ser excepcional manequim.

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Dininha Passos

Dininha Passos é mineira de Ponte Nova mas mora em Bangu e é, portanto, autêntica “mulatinha rosada”. Ela concluiu o curso clássico e prepara-se, agora, para fazer o vestibular de Filosofia. Enquanto lê Aristóteles e Kierkegard, trabalha numa óptica.

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Nara Monteiro

Nara Monteiro é a organizadora do conjunto musical Só Mulatas que em breve, vai fazer furor. Ela tocará piano e bateria, ao lado de Marlene, Marly e Dininha, responsáveis pelos demais instrumentos. Pratica vôlei e esgrima no Clube Universitário, enquanto se prepara para estudar Arquitetura. É alegre e desembaraçada e há quem afirme que ela será boa compositora. 

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Alice Simões


Alice Simões é a mais provável candidata ao título de Miss Guanabara, representando o Renascença Clube que, esse ano, espera repetir o feito de Vera Lúcia, arrebentando o bicampeonato no Maracanãzinho. Alice, que é uma beleza, também é estrela: estuda pintura e está organizando uma exposição a ser brevemente inaugurada nos salões do Renascença. 

-------- Alice Simões teria sido uma bela Miss Renascença, mas em 1965 o clube não apresentou candidata ao Miss Guanabara, preferindo focar sua atenção na reforma da sede do clube.

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Vera Lúcia Couto dos Santos


Vera Lúcia Couto dos Santos é rainha de porte e de tradição, mesmo porque nasceu em São Cristóvão, antigo bairro imperial carioca. Coroada Miss Guanabara e segunda colocada no concurso de Miss Brasil, ela brindou a passarela do Maracanãzinho com um movimento harmonioso, à feição de um gentil corropio, a quem deram o nome de pivot. Em seus já decorridos trezentos dias de reinado, Verinha tem vivido grandes emoções, tanto nas capitais do Brasil como em Long Beach (ali fez bonito, com um terceiro lugar) e na Argentina, onde obteve verdadeira consagração. Poucos sabem que Verinha já gravou um disco e, tão logo termine o seu mandato de soberana da beleza, vai começar uma nova e promissora carreira: a de cantora. De resto, a glória não lhe subiu à cabeça. Continua morando no Grajaú, comparece às festa do Renascença Clube e ainda pretende permanecer solteira por algum tempo.


Há um ano e meio, quando ainda não cogitava de concorrer ao título de Miss Guanabara, Vera Lúcia posou para uma reportagem fotográfica, como manequim. Na semana passada, ela tornou a desfilar, exclusivamente para MANCHETE, exibindo alguns modelos de Hugo Rocha, seu costureiro. Acrescentando um certo tom místico à sua beleza, Verinha vestiu um sari indiano, todo confeccionado em organza dourada e completou a rica indumentária com um costume milenar das mulheres da Índia: um rubi na testa.

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Síntese da beleza no cenário tropical

Síntese da beleza no cenário tropical, elas se harmonizam, apesar do contraste

A loura é Solange, Rainha do IV Centenário. A mulata é Vera, Miss Guanabara. Lado a lado, elas formam a mais perfeita e acabada síntese de beleza da mulher carioca. Juntas, seus encantos se completam e suas graças se multiplicam. Isto porque, conforme já acentuou o poeta Drummond, “...mas as coisas findas, muito mais do que as lindas, essas ficarão.”   

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Fico imaginando que aquelas mulheres empoderadas, numa época onde ninguém ouvia falar essa   palavra, continuam lindas e elegantes,  enquanto  recito  Carlos Drummond de Andrade,

"...mas as coisas findas, muito mais do que as lindas, essas ficarão." 


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sábado, 6 de agosto de 2016

SESSÃO NOSTALGIA - Sou louco por ti, Aizita

         
Daslan Melo Lima



     
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Faz dois meses que encontrei no Youtube uma pérola rara  postada pelo senhor José Claudio Menezes de Souza. Trata-se de um áudio,  um compacto duplo da RCA Victor gravado por Aizita Nascimento. 



No lado 1, Soy loco por ti, América, de Gilberto Gil, Capinam e Torquato Neto (1944-1972); no lado 2, Bamotsweri, do norte-americano  Harry Belafonte.

Aizita - Capa da revista O Cruzeiro   

          O que dizer da voz de Aizita Nascimento? Linda, suave, aveludada, um prazer para os ouvidos e para a alma.  Nascida em 14 de julho de 1939, a carioca Aizita Nascimento da Costa, Miss Renascença Clube,  semifinalista do concurso Miss Guanabara 1963, saiu das passarelas para uma carreira de sucesso como atriz de cinema, teatro e televisão. Aizita também gravou outro  disco pela RCA Victor, com as músicas Faz de Conta, de Orlandivo e Roberto Jorge, e  Ciuminho, de João Roberto Kelly.
      Tenho um carinho enorme por minha amiga Vera Lúcia Ferreira Maia, Miss Fluminense, primeira colocada no Miss Guanabara 1963, mas sou louco por Aizita Nascimento. Quando o resultado foi anunciado com o sexto lugar dado à Miss Renascença, vinte e cinco mil pessoas começaram a gritar: “Queremos a mulata! Queremos a mulata!”

Revista Fatos & Fotos,  09/01/1965

         Na crônica que Henrique Pongetti (1898 - 1979) publicou na revista Manchete, de 06/07/1963, o famoso jornalista e dramaturgo confessou: 
          ...Acresce que a beleza, para a maioria do povo, não obedece a cânones: é uma opinião, ou melhor dizendo, uma sensação. Se tiver quadris bem roliços, se estiver mais para a tanajura do que para a Miss Universo, ganhará aplausos frenéticos ao longo de toda a passarela. O público não quer Donas Estátuas: quer Donas Boas.(...)
    Havia uma mulata do Renascença Clube na passarela do Maracanãzinho. Uma cara bonita, com um sorriso desses que dão vontade de pegar a mulher no colo e sair com ela sorrindo entre filas de angustiados e de vencidos. Um sorriso para cartazes de campanhas contra a depressão, pró planos trienais, ou muito mais. Contagioso, sedativo, euforizante. Eu votei nela para uma das oito finalistas. Pelo seu sorriso, pela sua maneira de olhar deixando mel na menina dos olhos da gente, pela sua humanidade em não se sentir diferente das outras vinte e três por ter a pele mais escura. (...) 
         Que pensava o povo a respeito? Ora, o povo! O povo acabou, como sempre, que num caso desses, antes tanajura do que tábua de passar a ferro, e esquecendo seus clubes e suas candidatas passou a pedir em coro o primeiro lugar para ela: - Queremos a mulata ! Queremos a mulata! Queremos a mulata!

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Aizita - Revista Manchete

Para ouvir Aizita cantando Soy Loco por ti, América e Bamotsweri, 
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Para ouvir Aizita  cantando Faz de Conta e Ciuminho, 
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          Por onde anda você, ícone dos mágicos anos 60? Soube que mora em São Paulo, gozando de sua aposentadoria como enfermeira, missão à qual se dedicou ao abandonar a carreira artística. Sou louco por ti, Aizita.
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        Para recordar a Sessão Nostalgia dedicada a Aizita Nascimento em 13/04/2008,

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sábado, 22 de junho de 2013

SESSÃO NOSTALGIA – MISSES, AS MEMÓRIAS DE ARTUR XEXÉO

Daslan Melo Lima
 
   

Artur Xexéo
       










          No dia 18 de setembro de 2011, o jornalista Artur Xexéo publicou um texto excelente, impregnado de nostalgia, em sua coluna da Revista O Globo, evocando suas lembranças em torno do concurso Miss Brasil. Artur Xexéo  nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. É jornalista formado em Comunicação Social pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha/SP). Trabalhou nas revistas Veja (SP),  IstoÉ (SP) e Jornal do Brasil.  Mantém uma coluna no jornal O Globo (RJ), onde escreve duas vezes por semana, às quartas-feiras e aos domingos, e exerce a função de editor do Segundo Caderno. Escreve, também, um blog no site do jornal – o Blog do XeXéo. É, ainda, comentarista da rádio CBN (RJ) e do programa Estúdio i, da Globo News (RJ).  Escreveu os livros Janete Clair – A Usineira dos Sonhos (Relume Dumará, 1996), uma minibiografia da novelista, e O torcedor Acidental (Rocco, 2010), uma coleção de crônicas sobre os bastidores das coberturas que fez das Copas do Mundo de Futebol.

 
      A crônica de Artur Xexéo causou repercussão e fez com que ele voltasse ao assunto na semana seguinte. Nesta secção Sessão Nostalgia, ao transcrever ambas as crônicas do jornalista, tomei a providência de ilustrá-las com imagens de algumas misses mencionadas nos textos. Também teço comentários especiais sobre o que ele escreveu, esclarecendo algumas observações do autor.
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     MISSES, crônica de Artur Xexéo, coluna da Revista O Globo, 18/09/2011
Geórgia Quental











Eu me lembro de Maria Augusta batendo com uma bengala na passarela para indicar o que as misses deveriam fazer. Eu me lembro do Maracanãzinho lotado. Eu me lembro que os apresentadores eram Paulo Max e Marly Bueno.  Eu me lembro de Georgia Quental, a Miss Flamengo que foi desclassificada porque já tinha desfilado profissionalmente. Eu me lembro que a Miss Renascença Aizita Nascimento foi a primeira negra a participar do concurso. Só não me lembro se ela ganhou. Acho que não. Eu me lembro que, na semana seguinte ao concurso de Miss Universo, “O Cruzeiro” sempre trazia uma reportagem com a eleita tomando café da manhã na praia. De maiô, cetro e coroa, é claro. Eu me lembro dos maiôs Catalina. Eu me lembro de Gina MacPherson — Miss Botafogo, Miss Guanabara, Miss Brasil —, que provocou escândalo ao namorar o motorista que estava à sua disposição em Miami. Eu me lembro que o Miss Universo era em Miami, o Miss Beleza Internacional em Long Beach e o Miss Mundo em Londres.   Eu me lembro que a coroa sempre caía da cabeça da Miss Brasil.  Eu me lembro que lá em casa a torcida era sempre para a Miss Rio Grande do Sul, mas eu, que já era do contra, preferia a Miss Guanabara.
Julieta Strausz











Eu me lembro do tempo em que o concurso de miss era só um quadro do “Programa Silvio Santos”, e que a gente $com a impressão de que, a qualquer momento, ele iria gritar: “Quem quer dinheiro?” Eu me lembro da Rainha do Café Julieta Strauss, que não era miss, mas era como se fosse. Eu me lembro que o traje típico de Miss São Paulo era sempre colhedora de café.  Eu me lembro da mineira Maria Stael Abelha, que renunciou ao título de Miss Brasil para se casar. Eu me lembro das irmãs gêmeas Elizabeth e Ana Cristina Ridzi disputando o Miss Guanabara. Como decidir qual era a mais bonita?
Eu me lembro da gaúcha Ieda Maria Vargas ganhando, finalmente, o Miss Universo. Alguns anos depois, a baiana Martha Vasconcellos levou o título. E, quando a gente já pensava que era uma espécie de Venezuela, nunca mais chegamos lá. Ieda virou uma apresentadora de TV famosa no Rio Grande do Sul. Martha Vasconcellos... que fim levou Martha Vasconcellos? Eu me lembro de Vera Fischer quando ela ainda era Miss Santa Catarina. Eu me lembro que a primeira Miss Brasília era uma empregada doméstica. Eu me lembro que todas liam “O Pequeno Príncipe”. Eu me lembro da Miss Grécia Corinna Tsopei, que foi Miss Universo e, depois, interpretou uma índia sioux no filme “Um homem chamado Cavalo”.
E por que eu estou me lembrando disso tudo? Porque eu acho que vou sempre me lembrar de Miss Angola ganhando o Miss Universo no Brasil.
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Observação: Geórgia Quental era uma modelo famosa e sua inscrição não foi aceita para participar do Miss Guanabara 1960. Dois anos depois, representou o Rio Grande do Norte no Miss Brasil 1962   e obteve o sétimo lugar. ***** Aizita Nascimento ficou em sexto lugar no Miss Gunanabara 1963. Antes dela, Dirce Machado, mulata do Clube Renascença, participou do Miss Guanabara 1960 e ficou na quarta colocação. Na crônica a seguir, o Artur Xexéo toca nesse assunto. ***** A primeira jovem a ser eleita Miss Brasília, com direito a representar o Distrito Federal no Miss Brasil,  foi Martha Garcia, em 1959. A empregada doméstica citada na matéria é  Anísia Gasparina da Fonseca, eleita Miss Brasília em 1967, quarta colocada no Miss Brasil.  ***** Julieta Strausz, Miss São Paulo 1962, foi vice-Miss Brasil e representou o país no Miss Beleza Internacional.
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Marisol Malaret Contreras, Miss Porto Rico, Miss Universo 1970.
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Lorraine Downes, Miss Nova Zelândia, Miss Universo 1983. 
A revista O Cruzeiro e outras publicações postavam fotos das jovens eleitas Miss Universo tomando seu primeiro café da manhã como rainhas, em seus apartamentos no hotel onde estavam hospedadas, ainda na cama, de faixa e coroa. Depois, elas iam para a praia e posavam para os fotógrafos de faixa, coroa, cetro e troféu. 
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PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE ALGUMAS MISSES, crônica de Artur Xexéo, coluna da Revista O Globo, 21/09/2011
     
Marta Rocha
      

















          Dizem que o Brasil tem 190 milhões de técnicos de futebol. Este número varia de acordo com a atualização da população do país. Houve um tempo em que tínhamos também 60 milhões de especialistas em misses. A população brasileira era bem menor. O que eu descobri esta semana foi que todos esses 60 milhões de especialistas continuam em atividade. E muitos deles me escreveram depois que dediquei a coluna do último domingo às minhas lembranças dos certames — era assim que a gente dizia naquela época — que escolhiam as misses Guanabara, Brasil, Universo...
 
      A maioria reclamava de o texto não citar Marta Rocha. Foi o que fez, por exemplo, Wilméa Silva Ramos: “Fiquei surpresa ao notar que você escreveu sobre as misses do Brasil e não citou a mais famosa de todas: Marta Rocha. Marta Rocha foi sucesso internacional pela beleza, pela simpatia, pelos lindos olhos e pelo lindo sorriso. O sucesso alcançado por Marta Rocha é que justifica o concurso de misses ainda existir no Brasil. Gostaria de saber por que você a esqueceu!!!”
 
      Não me esqueci de Marta Rocha. Ninguém se esquece de Marta Rocha. Acontece que escrevi sobre minhas lembranças, e, para mim, o concurso (ou certame) só começa quando é realizado no Maracanãzinho. Marta é do tempo de desfiles no Hotel Quitandinha, em Petrópolis. Quando me dei conta de mim, Marta Rocha já era “a eterna Miss Brasil”. Eu me lembro que ela se casou com Ronaldo Xavier de Lima, que era da turma da Miguel Lemos e que, de vez em quando, a levava para comer uma pizza brotinho no Tommy’s, ali na esquina de Miguel com Ayres Saldanha. Eu me lembro que, em seu apartamento na Avenida Atlântica, já separada, Marta transformou um cômodo em boate. Eu me lembro que ela levou um golpe financeiro das Casas Piano, se aposentou da vida social e foi morar em Volta Redonda.
Vera Lúcia Couto Santos
      










          O leitor Oleg Franco também não perdoa: “Penso que você foi injusto com Miss Vera Lúcia Couto dos Santos. Sim, foi ela que em 1964 quebrou todos os tabus, tornando-se a primeira negra a se classificar em um certame (viu como se falava assim?) de beleza internacional. Vera fez o mais arrebatador desfile no Maracanãzinho com os seus famosos pivôs que faziam a platéia gritar ‘olé, olé!’. Seu traje típico era o ‘Samba, sinfonia de três raças’, de Evandro de Castro Lima. Seu vestido de gala tinha 1.400 pérolas. Ela ficou em terceiro lugar no Miss Beleza Internacional, em Long Beach, onde também foi eleita Miss Fotogenia. Foi a primeira ‘colored’, como se dizia na época, a se classificar. Depois dela, quatro negras já foram Miss Universo.”
      Eu apenas quis destacar o pioneirismo de Aizita Nascimento (se bem que ela nem foi pioneira, como se verá daqui a pouco). Mas é claro que eu me lembro de Vera Lucia Couto. Eu me lembro que ela foi a inspiração de João Roberto Kelly para compor a marchinha de carnaval “Mulata bossa nova”. Eu me lembro que ela ganhou o Miss Renascença em 1965, quando a favorita era Esmeralda Barros. Eu me lembro que, até pouco tempo, Vera Lucia trabalhava na Riotur. Eu me lembro que, no Miss Brasil, o Maracanãzinho dividiu-se entre Vera, a Miss Guanabara, e Angela Vasconcellos, a representante do Paraná, e gritava: “Guaraná!”. Eu me lembro que a Paraná ganhou. Eu me lembro que Angela Vasconcelos usava óculos.
E, para encerrar esse papo Catalina, vários leitores me corrigiram, lembrando que a primeira miss negra foi Dirce Machado, que, em 1960, tirou quarto lugar no Miss Guanabara.

Aizita Nascimento


Dirce Machado
      


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 Observação: Vera Lúcia  Couto Santos ganhou o Miss Renascença em 1964 e Esmeralda Barros foi sua vice. Segunda colocada no Miss Brasil, Vera     conseguiu o terceiro lugar no Miss Beleza Internacional.                                                             
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      Timbaúba, Pernambuco, noite fria e chuvosa de 22 de junho de 2013, talvez não tão fria e chuvosa como há 50 anos. Como Artur Xexéo e eu somos de uma geração que conheceu os anos dourados do concurso Miss Brasil, ele deve também estar lembrado que  em  22 de junho de 1963,  no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, foi realizado o concurso Miss Brasil 1963. Na capa da revista Manchete, o Top 3 daquele certame histórico: Ieda Maria Vargas (Miss Rio Grande do Sul, com a coroa, faixa, manto e cetro de Miss Brasil 1963, eleita Miss Universo em Miami Bach, Estados Unidos); a loura Tânia Mara Franco de Souza (Miss Paraná, segundo lugar, semifinalista no Miss Beleza Internacional, em Long Beach, Estados Unidos) e Vera Lúcia Ferreira Maia (Miss Guanabara, terceira colocada, semifinalista no Miss Mundo, em Londres, Inglaterra).
      Os meninos que um dia eu e Artur Xexéo fomos, ao olhar para a imagem acima, soltam risos irônicos para os homens que hoje somos. Enquanto envelhecemos, Ieda, Tania e Vera continuam sorrindo para nós, eternamente jovens, meio século depois.

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