Era abril de 1966 e o Brasil vivia o segundo ano da ditadura militar, quando a Editora Abril lançou a revista Realidade, uma publicação que marcou época na história da imprensa brasileira. A capa trazia Pelé com um busby , acessório que a guarda inglesa utiliza na cabeça, fazendo alusão à Copa de 1966, realizada na Inglaterra. Ousada, instigante, diferente, Realidade abordava temas poucas vezes discutidos por outros jornais e revistas, chegando, por isso, a sofrer repressões do regime militar.
No mês de agosto de 1966, a revista Realidade circulou nas bancas de todo o país com uma capa estranha e uma chamada ainda mais: “Porque Choram as Misses”. O concurso Miss Brasil estava no auge e causava tanto interesse quanto a Copa do Mundo. Ao contrário das revistas O Cruzeiro, Manchete e Fatos & Fotos que colocava a Miss Brasil na capa, sorridente, de coroa, faixa, manto e cetro, a Realidade colocou o busto de um manequim, nu, apenas com a faixa de Miss Brasil.
Na Sessão Nostalgia desta semana, trago os trechos mais importantes da reportagem que o José Carlos Marão fez para a Realidade. Um verdadeiro documento de uma época.
Beleza anda de braço com ridículo nos concursos em que moças bonitas, ingênuas e decentes emprestam sua graça a essa coisa sem graça que é correr atrás de sonhos numa passarela onde, diante da multidão, um júri escolhe a pobre menina miss.
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| O rosto é bonito, a faixa de miss cobre um manequim, símbolo do que fazem das moças que disputam concursos de beleza. Foto de Lew Parrella |
Na hora em que descem do avião, acompanhadas de suas orgulhosas mamães, encontram logo os donos do concurso: organizadores, guardiãs, instrutoras, cicerones e, entre esses, um senhor de proeminente barriga, paletó jaquetão e bigodinho à antiga, que, desde a segunda-feira , quando elas chegam, até o sábado do concurso, comanda militarmente e aos gritos todas as moças, com exceção das suas preferidas. Com toda a pose e o ar de dono das misses, consegue deixar com medo as mais bobinhas. Mas outras, que conseguem entender melhor o homem, não têm muito problema em rir dele, aos primeiros gritos.
Esse senhor de jaquetão e bigodinho, dito por si mesmo temível colunista social, é eficientemente auxiliado na sua tarefa de comando por outro membro da comissão organizadora, por nome Arnaldo. O primeiro trabalho dos dois é conhecer o melhor possível, entre o aeroporto e o hotel, no dia da chegada, as misses e acompanhantes: – “Pois, afinal, precisamos saber com quem vamos tratar.”
Chegam as misses ao hotel e, na porta, já está uma multidão curiosíssima para vê-las. Lá dentro, os organizadores já estão dando ordens ao pessoal de serviço no hotel, acompanhando o preenchimento das fichas das candidatas (as fichas que podem ler, ele lêem), e acompanhando as candidatas aos seus apartamentos. Quando as mocinhas e mamães sonhadoras estão instaladas, recebem alguns impressos da comissão organizadora: programa, regulamento do concurso, instruções para o comportamento dentro do hotel e informações – estas só para as acompanhantes – de como bem acompanhar as candidatas a Miss Brasil.
O programa, cheio de festas, coquetéis, passeios e coisas que as mocinhas na maioria nunca viram, entusiasma a todas, mas só antes de começar a ser cumprido. Lá pelo segundo ou terceiro dia, além do cansaço – que este ano deixou algumas de cama – já começam a perceber que nas festas estão apenas sendo mostradas para pessoas em que os organizadores têm interesse, e acaba o entusiasmo pelo programa. Enquanto isso, no hotel onde elas se hospedam, com paredes rachadas e enormes salões vazios, o pessoal de serviço não está absolutamente contente: – “ Essa turma do concurso dá serviço e não dá gorjeta. A gente não pode servir direito os que dão gorjetas e passamos uma semana ruim. "
Em duas salinhas sujas e cinzentas, funciona, o ano inteiro, a Comissão Central do Concurso de Miss Brasil. O emprego é até bom, pois concurso só há uma vez por ano. Lá, os senhores organizadores preparam os regulamentos, onde exigem das candidatas, entre outras coisas, “reputação moral ilibada”. O item 8, sozinho, exige cinco compromissos da privilegiada. O primeiro é cumprir rigorosamente o programa. O segundo é mais sério: não pode fazer propaganda de nenhum produto comercial, a não ser o dos patrocinadores do concurso. Compromete-se também a, caso eleita Miss Brasil, assinar um contrato de “prestação de serviços”, por seis meses, sem dizer nem com quem, nem que serviços devem ser prestados. Mais um compromisso: se não for eleita Miss Brasil, não pode participar de nenhum anúncio de produto comercial concorrente do patrocinador do concurso no seu Estado. E esclarece bem o regulamento: a miss, ao embarcar para o Rio, deve levar na mala um vestido de gala e um traje típico. Antes de viajar, elas recebem 200 mil cruzeiros dos organizadores, como “ajuda de custas”.
Para as excelentíssimas senhoras acompanhantes, a comissão esclarece que deverão pagar todos os serviços extraordinários (lavanderia por exemplo) pois os organizadores garantem apenas cama e comida. O horário do programa deve ser cumprido e qualquer dúvida pode ser apresentada às guardiãs que, se não souberem resolver, a levarão ao Bigodinho-Jaquetão, que resolve tudo.
Na terça-feira depois da chegada, há o primeiro contato entre as mocinhas e Maria Augusta, para as medidas. Ela mesma, ou uma sua auxiliar, tira as medidas – busto, cintura, quadris, coxa, tornozelo, altura e peso – só na presença de senhoras, em lugar onde ninguém mais pode entrar. Nesse dia, as candidatas fazem seu desfilezinho inicial, para Maria Augusta ver qualidades e defeitos.
Na quinta-feira, misturados com os coquetéis e visitas, as misses têm um ensaio de manhã, outro à noite. Começam a aprender a andar ao som de bengalas, já no próprio Maracanãzinho. Às vezes não deixam a imprensa assistir aos treinos, porque “as moças estão inibidas”.
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Nem todas as moças aprendem a desfilar, como Maria Augusta quer. Na sexta-feira, ensaio geral, quem não aprende desfila errado.
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Na sexta-feira, o ensaio é geral. As mocinhas já aparecem de maiô, como vão desfilar na contenda do dia seguinte. Já há público, imprensa e também as misses internacionais, chamadas pelos senhores organizadores para desfilar no dia do concurso e entreter assim o ávido público, enquanto as senhoritas brasileiras trocam de roupa.
DUAS FORA DO PÁREO
Na sexta-feira do ensaio geral, já é feito o primeiro concurso. De repente, aparece um cidadão, distribuindo papeizinhos em branco para os fotógrafos:
- “Olha, é para escolher a Miss Fotogenia.”
- “Já ou depois do ensaio?”
- “Já.”
- “Mas como, se eu não sei como elas vão sair nas fotos?”
- “Ah, que é isso? Coloca qualquer nome aí, rapaz.”
Aí, um deles diz que fulana é fotogênica, os outros acreditam e ela acaba ganhando. Alguns fotógrafos atrapalham um pouquinho a democrática votação:
- “Olha companheiro, eu não si bem em quem votar. Você põe aí o nome que achar melhor. Eu concordo.”
A Miss Simpatia é eleita na mesma base, com votação um pouco mais ampla. E as duas recebem a faixa durante o ensaio e vão embora, levando a certeza de que não estão ente as favoritas. Maria Augusta, de muita experiência, diz que é assim. Quando as moças recebem um título antes, já estão fora do páreo.
- “Minha filha não recebeu ajuda de ninguém, nem do Governo, nem dos organizadores. Além disso, está muito maltratada. O senhor acha que nós estamos aqui para agüentar mau trato?”
Na quarta-feira da semana do concurso, a mãe de Miss Guanabara, depois eleita Miss Brasil, estava falando assim. É que o Bigodinho-Jaquetão e o senhor Arnaldo estavam gritando muito. E Miss Guanabara ameaçou abandonar o concurso, se o tratamento não melhorasse.
A queixa aconteceu no dia em que as moças têm de posar para as “revistas especializadas em miss”. Aí são levadas em ônibus para uma praia, convidadas a trocar de roupa atrás de umas pedras, para, depois, tirar as fotos nas mesmas poses em que se vê fotografias de miss nas revistas, há dez anos mais ou menos. E ai da moça que se atrasa um pouco. Ouve o que não quer. Com Miss Guanabara, alem dos gritos, houve mais um problema: foi a que ficou mais perto das ondas, veio uma das fortes e lá se foi o seu penteado. Na volta, abandonou a “caravana da beleza” (dois ônibus comuns) para fazer penteado novo.
O fato é que, no dia seguinte, os jornais concorrentes do jornal que promove o concurso saíram com manchetes aproveitando a ameaça da candidata carioca de se retirar do concurso. E, num deles, um dos títulos de primeira página era assim: “Homem que beijou miss quase leva Ana Cristina a renunciar”. Era só o título, a notícia não fazia nenhuma referência a beijos.
Quando chega o sábado, dia do concurso, misses e acompanhantes já não se agüentam em pé, de tanto que tiveram de andar, passear e mostrar-se. Só não estão muito cansados os organizadores, que podem revezar-se na tarefa de fiscalizar as moças.
Na sexta-feira à noite, no ensaio geral, as candidatas desfilaram como se já fosse o dia do grande concurso. E desfilaram também, sob vaiais, as misses internacionais, que a organização trouxe, para “dar brilho à grande festa”.
As moças estrangeiras ficaram por conta do Arnaldo, auxiliar do Bigodinho-Jaquetão. Andou com elas de automóvel para baixo e para cima, pela cidade toda e a imprensa só conseguia se aproximar quando ele não estava por perto. Arnaldo chegou a tirar a caneta da mão de Miss Argentina, que estava dando autógrafo a uns estudantes, para colocá-la dentro do automóvel, e deixá-la lá, esperando um motorista que demorou bastante a aparecer.
Mas o Bigodinho-Jaquetão também teve a sua oportunidade de mostrar autoridade às misses internacionais. Na sexta-feira do ensaio, Miss Argentina e Miss Bahia, por força de cumprirem à risca o “muito humano” programa criado pelos organizadores, chegaram para jantar alguns minutos depois das outras. O Bigodinho, muito bravo, começou a correr pelo restaurante do hotel, chamando garçons e mandando as duas comerem depressa. Miss Argentina, coitada, acreditou no homem e nem comeu direito. Foi logo para o ônibus que levaria as misses para o ensaio. Mas Miss Bahia, um pouco mais esperta, tratou de comer o suficiente pelo menos para ter forças de ensaiar. Quando terminou, o Bigodinho quis fazê-la levantar-se, mas não adiantou. A coisa já tinha virado briga e ela decidiu comer sobremesa. E o Bigodinho resolveu então gritar com o garçom, que pagou o pato: - “Oh, seu moleza, quer trazer logo uma torta!”
O programa do sábado diz: “manhã e tarde livre para preparação de vestidos, cabeleireiros, manicura etc.” Mas de manhã, miss nenhuma consegue levantar-se, tentando recuperar o sono perdido nos dias anteriores. As acompanhantes, menos cansadas, vão tratando dos vestidos, dos sapatos e outros pormenores. À tarde, elas vão aos cabeleireiros, instalados no quarto andar do próprio hotel. Ficam guardadas por duas guardiãs, que não deixam homem nenhum entrar, a não ser o Bigodinho-Jaquetão, o Arnaldo, ou algum outro “organizador”.
Lá pelas seis e quinze, contrariando todas as disposições desses dois senhores, as misses saíram do hotel em um ônibus, as acompanhantes em outro. Chegando ao Maracanãzinho, o porteiro deixou as misses entrar, mas implicou bastante com as acompanhantes. E a acompanhante de Miss Brasília, que tinha perdido sua identificação, teve de esperar muito tempo, segurando na mão a mala com os vestidos, até aparecer alguém, da comissão que amansasse o porteiro.
Maria Helena, Miss Brasília, não consegue falar. A resposta é uma choradeira. A moça foi acusada de ser menor de idade, pela segunda colocada do concurso, lá em Brasília. Conseguiram até uma sentença judicial, afirmando que a certidão de Maria Helena estava rasurada e que ela tinha 15 e não 18 anos. No sábado, desceu no Rio de Janeiro a segunda colocada no concurso Miss Brasília, disposta a desfilar, esperando a desclassificação da outra, mas o presidente da comissão, chamador doutor Adilson, e seu secretário, chamaram major Amado, decidiram que seria uma desumanidade impedir a moça de desfilar.
Às oito e meia, o Maracanãzinho lotado, começa uma briga (só de boca não de tapa) bem na entrada da passarela. A briga foi assim: os jornalistas sempre consideraram o curralzinho que lhes reservam no meio da passarela como o pior lugar para assistir aos desfiles. Esse lugar comporta 15 pessoas e recebe normalmente umas 60. Neste ano, os fotógrafos decidiram que os redatores atrapalham muito, na hora de tirar fotos, e conseguiram que um dos organizadores proibisse a entrada de quem não tivesse máquina.
Os redatores sempre detestaram assistir dali ao concurso, mas resolveram que, neste ano, só dali teriam boa visão. E começou a briga. Grita daqui, grita dali, vem a Polícia, vem os organizadores. A Polícia fica esperando a comissão decidir, mas os organizadores também estão divididos, entre fotógrafos e não fotógrafos. Por fim, entrou quem quis entrar no curralzinho, jornalista ou não. Esta briga só deu para divertir o público que estava mais próximo. Os de longe, não conseguiram perceber tudo o que se passava. Nessa altura, pouco mais de nove horas, a turma começou a gritar, com louvável fôlego, que resistiu até 15 para as dez: - Tá na hora. Plá-plá-plá. Tá na hora. Plá-plá-plá. Alguns organizados gritavam junto. Até que, no fim, entre vaias e aplausos, surgem um ator e uma atriz de televisão. O moço começa a falar em nata das beldades verdes-amarelas e coisas assim. Aí chega Maria Augusta, com sua bengalinha, dá uma batida no chão, as meninas obedecem prontamente e começa o desfile.
MISS SÃO PAULO MUDA O PASSO
Miss Brasília, a dos prováveis 15 anos, entrou carregando flores por todo o corpo. Miss Minas Gerais estava fantasiada de “esmeralda e ouro”: uma roupa curtinha, tipo maiô, coberta de placas verdes com uma bolinha amarela no centro. Outras carregavam cestas de flores, generosamente distribuídas, para conseguir um pouco mais de torcida. A Miss São Paulo não conseguiu desfilar no mesmo passo que as outras: estava com macacão estilizado de operário, mas carregando na cabeça uma peneira enorme, com maquetas de prédios em cima. Depois que desfilou, foram necessários dois policiais para carregar a peneira com os prédios.
Os trajes típicos são criados por costureiros, criadores de fantasias de carnaval. Mas como por traje típico entende-se, normalmente, traje que se usa na região onde foi eleita a miss, muita gente pode ter saído do Maracanãzinho pensando que as moças de São Paulo vão trabalhar com prédio na cabeça e que as senhoritas sergipanas, nos seus passeios, carregam uma torre de petróleo embaixo do braço.
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Antes dos jurados chamarem as oito do fim, todas as moças são obrigadas a cantar, em coro, uma música chamada Hino das Misses. Mas todas desafinam e o que salva é o disco, tocado de fundo, prevendo mesmo as desafinações. Só que o artista-apresentador leva o microfone pertinho de cada miss, para que se perceba como desafina cada uma delas.
Maria Augusta não entende os desmaios, depois de anunciadas as finalistas: - “As moças querem chorar depois do concurso. Não sei por quê”. Mas as moças sabem: querem chorar todos os ensaios, todos os desfiles por que passaram, desde que foram candidatas a rainha de beleza do seu Estado, até a exibição final, no Maracanãzinho.
O fim é rápido. Os auto-falantes anunciam o nome da Miss Brasil e os da segunda e terceira colocadas. Depois, Miss Brasil é levada para os estúdios das revistas especializadas, instalados no próprio Maracanãzinho. A festa acabou-se; às derrotadas resta ouvir os estouros do champanha que não vão beber; com as três vencedoras fica a certeza de que tudo vai recomeçar, em outros lugares do mundo, onde locutores dirão em inglês – e em polegadas – quanto mede cada parte dos seus corpos.
Raiolanda Castelo Branco, foto acima, foi vaiada por causa do sobrenome. O Brasil vivia a época da ditadura militar e quem governava o país era o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967). Imagem: Jornal do Commercio-Recife.
O Maracanãzinho deixou de ser o palco da beleza brasileira em 1973, época em que o concurso Miss Brasil foi transferido para Brasília. A revista Realidade deixou de circular em 1976.
As misses de hoje também choram, pelo cansaço dos ensaios dos desfiles, pela emoção da vitória, pela decepção da derrota e talvez pela figura impaciente de algum organizador exigente como aquele enigmático Bigodinho-Jaquetão de 1966.
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