Daslan Melo Lima
“Zayra Pimentel para os íntimos”, esse seria o título da Sessão Nostalgia desta
semana, simplesmente “Zayra Pimentel para os íntimos”. Todavia, um título de Miss é para sempre. Eu não poderia omitir o nome Miss do título. Miss para sempre Miss. Não existe ex-Miss, a não ser que ela tenha renunciado
ou sido destronada por descumprimento do
regulamento do certame. Eu tinha de construir
o título desta forma, “Zayra Pimentel, Miss Pernambuco 1957, para os
íntimos”. Antes de revelar algumas confissões e imagens de Zayra, pouco conhecidas do público, vale a pena situá-la num breve contexto de um tempo que se foi. Todas as imagens desta matéria são reproduções que fiz do vasto acervo da Miss PE 1957.
Primeira página do Diario de Pernambuco, 11/05/1957. Já era madrugada do domingo, 12 de
maio, no Clube Português do Recife, quando foi anunciado o resultado do
concurso Miss Pernambuco 1957: Zayra Moreira Pimentel, Miss Clube Náutico Capibaribe, primeiro lugar.
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| Zayra Pimentel, Miss Clube Náutico Capibaribe. |
TOP 3 - Miss PE 1957. ***** Sônia Maria Campos, Miss Circulo Militar do Recife, segundo lugar; Zayra Pimentel, Miss Clube Náutico Capibaribe, primeira colocada; e Violeta Botelho, Miss Clube Português do Recife, terceiro lugar. ***** Detalhe: Sônia Maria Campos voltou a concorrer no ano seguinte representando o Santa Cruz Futebol Clube. Conquistou o primeiro lugar, foi eleita vice-Miss Brasil 1958 e primeira representante brasileira no Miss Mundo.
Sônia, Zayra, Nelbe Souza (Miss Pernambuco 1956) e Violeta Botelho.
A filha de Jair Pimentel, clarinetista e
sargento da Polícia Militar, representou Pernambuco no Miss Brasil 1957, ano em que a
vencedora foi Teresinha Morango, Miss Amazonas.
Em 1961, ostentou a faixa de Rainha do Carnaval do Recife e fixou residência no Rio de Janeiro, e aceitou convite para representar a
AABB-Associação Atlética Banco do Brasil no Miss Guanabara.
A Miss PE 57 conquistou o coração de um rei,
o da canção romântica, Francisco José (1924-1988), o maior cantor português de
todos os tempos, pai de Adília, sua única filha. Compositor e intérprete da famosa canção "Teus Olhos Castanhos", Francisco José também foi o galã do filme homônimo. Zayra fez teatro, televisão e trabalhou nos filmes
“O Último Cangaceiro”, de 1971, dirigido por Carlos Mergulhão; e “Café na
Cama”, de 1973, de Alberto Pieralisi. Poderia ter prosseguido na carreira
artística, mas ingressou no Serviço Público Federal e formou-se em Direito.
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Por onde anda a diva? Aposentada, mora no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, na mesma rua onde residem sua filha Adília e
a neta Dominic Carvalho. Tive a
satisfação de ser seu hóspede durante minha última estadia no Rio de Janeiro, e de ouvi-la falar demoradamente sobre sua vida.
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ZAYRA POR ZAYRA
1 - Morei num apartamento aqui no Rio, com doze pessoas. Os
tempos eram muito difíceis. Televisão era um luxo e todas as noites, para
distrair as crianças da casa, eu lia os capítulos do romance “As chaves do Reino”, de Cronin. Tenho todos os livros de Cronin e a obra completa de Dostoiévski.
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2 - Terezinha
Morango foi recepcionada por mim e pelo prefeito do Recife quando desembarcou
no Aeroporto Internacional dos Guararapes, após ter sido a segunda colocada no
Miss Universo 1957, realizado em Long Beach. Desfilamos em carro aberto até à
rua da Aurora, no centro da cidade. Depois viajamos para João Pessoa, PB, onde
desfilamos novamente e fomos alvo de muito carinho. Terezinha era linda, mas
entre as minhas concorrentes ao Miss Brasil, eu gostava mais do tipo de Karin
Japp, Miss Paraná, quinta colocada.
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3 - Fui
a primeira mulher a andar de lambreta no Recife. Ganhei uma como pagamento de
um comercial que fiz para a televisão.
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4 - Eu
adorava meu pai. Ele tocava clarinete e gravou discos pela Mocambo, o selo da
fábrica de discos Rozemblit. De vez em quando tinha crises de impaciência. Como
sargento da Polícia Militar, ganhava pouco para sustentar a família numerosa.
Fiquei com raiva quando pedi uma boneca que chorasse e ele me deu uma com
cabeça de porcelana e corpo de pano. Neuza, minha mãe, era uma mulher linda e
morreu de câncer três meses antes do concurso Miss Pernambuco.
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5 - Eu
era apontada como forte candidata ao título de Miss Guanabara 1961. Saiu até uma reportagem no Diario de Notícias
com este título “Se Zayra vencer haverá três pernambucanas na disputa do Miss
Brasil". As outras eram Maria Lúcia
Santa Cruz, Miss Pernambuco, e Carmem Aurélia Rodrigues de Lima, Miss Rio Grande
do Norte, que tinha ficado em segundo lugar no Miss Pernambuco. Isso deve ter
me prejudicado. Levei uma bronca de Maria Augusta da Socila quando um membro da
comissão julgadora fez um gesto positivo para mim, no final do meu desfile, e
eu acenei para ele. Maria Augusta gritou : "Isso não pode!".
Chateada, respondi que todo mundo já sabia que aquilo era um jogo de cartas
marcadas.
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6 - Éramos
quatro irmãos, Zanoni, Zoroastro, Zenaide e eu. Lembro-me da casa simples da
Vila dos Remédios, rua Alcedo Marrocos, nº 81, na Estrada dos Remédios, no
bairro de Afogados, Recife. Fomos morar depois em Olinda, na Manoel Borba, nº
458. Eu adorava meu irmão Zanoni, lindo, atlético, que chegou a me acompanhar
em alguns compromissos como Miss Pernambuco. Ele morreu jovem, aos 37 anos de
idade, assassinado com um golpe de facão na frente do filho, ao apaziguar uma
briga em Brasília.
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7 - Quando
cheguei ao Rio para disputar o Miss Brasil, a colônia pernambucana ofereceu um
coquetel em minha homenagem. Entre os convidados estavam Aderbal Jurema,
deputado federal (segundo da esquerda para a direita); Abelardo Jurema, ministro da Justiça (terceiro da esquerda para a direita); e
Barros Carvalho, senador, na extrema direita.
Quem também marcou
presença no coquetel foi Maria do
Socorro Gurgel, Miss Rio Grande do Norte, e Beatriz Souza, na esquerda da foto
acima, mãe de Nelbe Souza, Miss Pernambuco 1956.
No centro da foto, eu e Nelbe Souza, ladeadas pelos convidados.
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8 - Eu
não pensei que ia fazer tanto sucesso no carnaval carioca de 1972. Meu traje
era simples, mas o corpo estava em forma e acabei nas páginas das revistas O
Cruzeiro, Manchete e Fatos & Fotos.
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9 - Eu
não casei de papel passado com Francisco José, mas aquela reportagem da Revista
do Rádio, em 1965, falando sobre nosso casamento, foi bom para ambos. Eu estava
grávida e nossas famílias eram conservadoras.

10 - Já estudei pintura. Minhas
primeiras telas retratam o clarinete do meu pai e um casario de Olinda. Também
fiz alguns autorretratos.


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11 - Meu parto foi complicado, por fórceps, mas minha filha Adília cresceu linda e inteligente. Deu-me uma neta maravilhosa, Dominic Carvalho, estudante de museologia.
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12 - Fui convidada para aparecer nos maiores programas da televisão pernambucana. Acima, no "Você faz o Show", de Fernando Castelão, na TV Jornal do Commercio, Canal 2, com Marluce Laranjeira, Miss Clube Internacional do Recife. Abaixo, no mesmo programa, ladeada por Nelbe Souza, Miss Pernambuco 1956, e sua vice, Lieselotte Cornils, que morreu no último mês de janeiro.
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Aqui estou no programa de José de Souza Alencar, o Alex, falecido no último mês de janeiro, dia 24. Eu; Sônia Maria Campos; a jovem madrinha do Clube Português, cujo nome não recordo; Violeta Botelho e Alex.
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13 - Sou formada em Direito e tenho
carteira da OAB. Meu padrinho de formatura foi
Teotônio Vilela (1917-1983), o Menestrel das Alagoas. Quando comprei um
Alfa Romeo, ele me disse que não entraria no meu carro e acrescentou: "Não
é só no seu carro. Eu não entro em
nenhum Mercedes Benz de nenhum amigo meu. Porque num país onde setenta por
cento da população ganha salário mínimo e passa fome, eu considero uma
agressão.“ Teotônio era uma pessoa muito humana e um exemplo de ética na
política.
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14 - Fui candidata à função de
vereadora de Olinda nos anos 90, apoiada por Germano Coelho. Ele conseguiu se
eleger para prefeito, mas os votos que ganhei foram insuficientes para assumir
uma vaga na Câmara Municipal de Vereadores.
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Orgulhosa de suas raízes, Zayra adorou o chapéu com a bandeira de Pernambuco que lhe dei de presente e não cansou de elogiar a carne de charque que tambem levei para ela, iguaria que rendeu
saborosos pratos feitos por Sebá, um pernambucano da cidade de Escada que zela por sua
casa há muitos anos.
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Zayra mantem afixado numa das portas de entrada do seu apartamento a capa do jornal CORREIO DE NOTÍCIAS, edição de julho de 2013, mostrando uma manifestação popular. "Achei a foto linda, lembra uma pintura épica!"
O jornal é editado pela empresa DJ Publicações, de Timbaúba, PE. Nessa edição consta uma matéria de página inteira que escrevi sobre ela. A referida reportagem foi emoldurada e decora uma das paredes da sala principal.
Levei a página do jornal para ela autografar. Eis o que Zayra escreveu: "Por todo o carinho, apoio e esperança que você me deu. Zayra M. Pimentel, Miss Pernambuco 1957."
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A Zayra Pimentel de hoje não dá muita importância à vaidade. Solteira e afastada de badalações, seu livro de cabeceira é O Evangelho
Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.
No entanto, basta colocar batom e pentear o cabelo para
trás, num singelo rabo de
cavalo, que qualquer um percebe que está diante de uma diva, uma pessoa incomum,
com aquele carisma que fez dela uma das mais famosas misses pernambucanas
de todos os tempos.
Determinada, raciocíno rápido, sensível, anfitriã generosa, Zayra Pimentel há quatro anos insistia para que eu fosse passar o carnaval no Rio de Janeiro. Além de ter me hospedado em seu apartamento, também hospedou o jornalista Muciolo Ferrreira (que me levou a vários pontos turísticos) e o cerimonialista Wilton Condé, de 12 a 21 de fevereiro.
Na hora de retornarmos ao Recife, Zayra ficou muito emocionada. Quería que ficássemos mais tempo. Da calçada, olhei para o primeiro andar e acenei para ela com lágrimas nos olhos, enquanto agradecia em silêncio:
Obrigado, meu DEUS!
Obrigado, Zayra Pimentel!
Obrigado, comissão julgadora do concurso Miss Pernambuco 1957!
Obrigado, Muciolo Ferreira!
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Zayra Pimentel já foi homenageada duas vezes nesta secção:
24/07/2010, SESSÃO NOSTALGIA - Zayra Pimentel, Miss Pernambuco 1957
31/07/2010, SESSÃO NOSTALGIA - Zayra Pimentel, a pernambucana que poderia ter sido Miss Guanabara 1961
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