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sábado, 12 de setembro de 2020

SESSÃO NOSTALGIA - UMA "PONTE VIRTUAL" PARA AS MISSES

Daslan Melo Lima

Recebi recentemente um comentário sobre uma matéria postada há doze anos, focalizando Vera Lucia Ferreira Maia (
Vera Maia
), Miss Guanabara, terceira colocada no Miss Brasil e semifinalista (Top 15) no Miss Mundo 1963.
Dizia o texto enviado:
"Gostaria de reencontrar a linda Vera Lúcia Maia. Meu nome é
Violeta Mafalda
. Fui modelo e Miss América Futebol Clube do Rio de Janeiro, candidata ao título de Miss Guanabara 1964. Nós morávamos na Avenida Rui Barbosa, no Rio. Saudade dela."

Vera Lúcia Ferreira Maia
Miss Guanabara, terceiro lugar no Miss Brasil, semifinalista (Top 15) no Miss Mundo 1963. Foto: Manchete
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Violeta Mafalda
Miss América Futebol Clube do Rio de Janeiro 1964
Foto: O Cruzeiro
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Como marquei os nomes de ambas nessa postagem, Vera Lúcia poderá telefonar para Violeta, já que deixei o número de sua amiga no Messenger.
Enquanto isso, Violeta poderá ir no perfil da Vera e fazer sua solicitação de amizade.
É fantástico o mundo da Internet, com o Google e as redes sociais.
Descobri que eu e a Miss América F.C. temos um amigo em comum, o seu primo
Roberto Andrade
, que nasceu no Rio de Janeiro e reside no Recife.
Essa história será contada um dia na secção Sessão Nostalgia, no meu blog, quando a "ponte virtual" entre as misses for consolidada.

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domingo, 28 de abril de 2019

SESSÃO NOSTALGIA - Teresinha Morango, Miss Brasil 1957, a boa mestra ensina a ser Miss

Daslan Melo Lima
        

       A revista Fatos & Fotos, Ano IV, número 176, de 13 de junho de 1964, circulou em todo país com uma linda jovem senhora na capa. Ela era Teresinha Morango Pittigliani, Miss Amazonas, Miss Brasil e Vice-Miss Universo 1957. Uma das chamadas dizia Teresinha ensina a ser Miss.  Três candidatas ao título de Miss Guanabara 1964 tinham procurado Teresinha em sua residência para ouvir suas orientações.

A Boa Mestra - Texto de José Rodolpho Câmara e fotos de Gervásio Batista.
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"Três candidatas a Miss Guanabara visitam Teresinha Morango e saem municiadas para a batalha da beleza. Não há ninguém como a Morango para ensinar quais são os caminhos da beleza."  ***** Da esquerda para a direita, diante de Teresinha Morango: Valéria Pons, Miss Vasco da Gama; Delmira Lemos, Miss Satélite; e Violeta Mafalda Gomes, Miss América Futebol Clube. 
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"Foi em 1957 que ela conquistou a cátedra da beleza. O lugar é vitalício."
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     Desembaraço, simpatia, fotogenia, elegância e beleza. Estes, os cinco predicados indispensáveis a uma candidata a miss. Quem o diz é uma autoridade: a Senhora Teresinha Morango Pittigliani, Miss Brasil e segunda mais bela do mundo em 1957. Mãe de dois filhos, Alberto Pittigliani Jr. e Andréia (de apenas 5 meses), uns acham que ela continua tão bonita quanto naquele tempo, outros que está muito mais bonita. 
    Os conselhos foram dados a algumas das candidatas a Miss Guanabara: Violeta Mafalda Gomes, apresentada pelo América; Valéria Pons, pelo Vasco e Delmira Lemos, pelo Satélite. Local do encontro: a residência de Teresinha.
    Mesmo sem conhecer as outras candidatas, acha Teresinha que selecionar a vencedora vai ser difícil, este ano. Se fizer parte do júri, irá com essa convicção para o Maracanãzinho.   
    As três candidatas ficaram satisfeitas com o que ouviram de Teresinha, convencendo-se de que ela lhes forneceu boas armas para a vitória. Recebendo dela votos de felicidades, retribuíram com outros: os de que Teresinha não deixe de comparecer ao concurso, que com sua presença cresceria em prestígio. 

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     O título de Miss Guanabara 1964 foi conquistado pela Miss Renascença Vera Lúcia Couto Santos, que se tornaria Vice-Miss Brasil e terceira colocada no Miss Beleza Internacional.  Quanto a  Valéria PonsDelmira Lemos e Violeta Mafalda Gomes, elas jamais esqueceram aquele 1964, disso tenho certeza, nem das orientações recebidas de um ícone da beleza brasileira de nome Teresinha Morango.      

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sábado, 3 de março de 2018

SESSÃO NOSTALGIA – Pérolas Negras. Mulheres de 400 talheres. Por onde andam as Misses do Clube Renascença, no Rio?


Daslan Melo Lima    
                                                                      
          Meu celular tocou às 16h do dia 13 de dezembro do ano passado. Era o jornalista Renato Fernandes, paulista residente no Rio de Janeiro, repórter especial da revista Joyce Pascowitch. Ele ia escrever uma matéria sobre as misses do Clube Renascença que mais se destacaram e   queria ouvir o que eu sabia sobre o assunto. Foram quase duas horas ao telefone.  Na última edição da revista, a de fevereiro, com a atriz Taís Araújo na capa, a publicação circulou nas bancas de todo o País com seis páginas dedicadas às deusas do Renascença. Chamada de capa: “Perólas Negras - Por onde andam as misses do Clube Renascença, no Rio? “ Título da reportagem: “Mulheres de 400 talheres. ” Abaixo, reprodução integral da matéria. Boa leitura!
                                                            
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Mulheres de 400 talheres


Nos anos 1960, 0 Clube Renascença quebrou tabus, preconceitos e paradigmas na sociedade com seu concurso de miss. Alçadas ao estrelato, essas belas mulheres marcaram época e são lembradas até hoje.

Por Renato Fernandes
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Inaugurado em 1951, durante os anos dourados no Brasil, o Renascença surgiu para os negros da classe média do Rio de Janeiro como uma opção de esporte e lazer, já que eles eram proibidos de frequentar os tradicionais clubes da cidade. “Entre os fundadores estavam um grupo de médicos e de comerciantes negros, que não queriam sofrer discriminação em outros espaços”, conta o missólogo e historiador Daslan Melo Lima, um dos maiores estudiosos do tema hoje.
      O clube ficava no bairro de Andaraí, na zona norte, e as mulheres tiveram papel fundamental em seu desenvolvimento. Eram 19, dos 29 sócios que fundaram o lugar. Foi por essa breve presença feminina que surgiu o concurso de miss do Rena, nome usado na época, e a competição colocou suas participantes em total evidência. A olheira, que selecionava e que preparava as misses, era a cabeleireira Dinah Duarte, dona de um conceituado salão de beleza no Méier.
      Ao desfilarem suas curvas no maiô Catalina, no Maracanãzinho, para o Miss Guanabara, como se chamava o estado do Rio de Janeiro, as misses Renascença eram ovacionadas e consagradas. Só dava elas. Relembre aqui, três de suas maiores beldades.
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Vera Lúcia Couto - Mulata Bossa Nova


Vera Lúcia Couto dos Santos, Miss Renascença, na capa do disco Carnaval Rio (à esq.) e em ensaio para a revista Manchete.

     “Mulata Nossa Nova... Caiu no hully gully... E só dá ela. ” Ela quem? Vera Lúcia Couto dos Santos, musa da marchinha carnavalesca composta por João Roberto Kelly e que venceu o Miss Guanabara em 1964. Detalhe, até então, nunca uma negra tinha alcançado esse título. Vera Lúcia venceu e venceu bonito, mas nada por vontade própria, mas sim por insistência do Clube Rena que queria porque queria que ela concorresse. Ela recusou por dois anos os convites e o medo de sofrer preconceito era uma das razões. Só depois que teve o apoio do pai, aceitou. Não bastasse, Vera Lúcia foi a primeira negra a concorrer ao Miss Brasil. Não ganhou o concurso, mas ficou em segundo lugar e ainda representou o país no Miss Beleza Internacional, em Long Beach, nos Estados Unidos, ficando na terceira colocação.
      No dia do concurso do Miss Brasil 1964, enquanto desfilava, ouviu de uma senhora numa mesa: “Sai daí crioula, seu lugar é na cozinha! ”. Mas não perdeu a altivez e nem o olhar de ternura. No ano seguinte, durante as comemorações do quarto centenário do Rio, desfilou deslumbrante no carro aberto dando tchauzinho para qualquer tipo de preconceito.
      Não seguiu a carreira artística e não foi por falta de convite. Preferiu casar e ser mãe de três filhos. Tornou-se funcionária da Riotur e hoje mora em Niterói, mas continua virando o pescoço dos transeuntes quando passa.
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Esmeralda Barros – Estrela Internacional


Esmeralda Barros na revista Amiga.
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Esmeralda Barros posando para a revista O Cruzeiro, que a descrevia como:"Na tevê os seus rebolados dão coqueluche em gente grande". No detalhe, na revista Amiga, já como uma estrela internacional. 
Esmeralda Barros foi capa da revista O Cruzeiro, em fevereiro de 1966.

No fim da década de 1960, uma “mulata para quatrocentos talheres”, como era conhecida, invade os estúdios da Cinecittà, em Roma. Seu nome? Esmeralda Barros, a moça que perdeu o título de Miss Renascença 1964 para Vera Lúcia Couto. Na época, houve grande burburinho: todos queriam saber o motivo pelo qual Esmeralda não tinha levado a coroa. E ele era um só: ela já era conhecida no showbiz brasileiro, porque havia atuado em shows de Carlos Machado, o que não era bem-vindo no concurso. “Isso é fato, garotas que sonhavam em ingressar no mundo artístico fugiam do perfil das que concorriam ao concurso de miss”, conta o missólogo Daslan Melo Lima. Esmeralda tinha tudo e mais um pouco, mas aura de virgem e donzela, isso ela não tinha.
      Não levou a faixa de Miss Renascença, mas ganhou um convite para atuar na Itália, depois de aparecer em Operação Paraíso, uma produção italiana rodada no Rio de Janeiro, em 1965, com o ator Raf Vallone. No filme, a estonteante Esmeralda aparecia em um comportado biquíni em plena avenida Atlântica. Fato que rendeu a ela uma capa estreladíssima na revista O Cruzeiro.
      Suas curvas atravessaram o mundo e, em 1968, ela já era o primeiro nome do elenco do longa King of Kong Island, dirigido por Robert Mauri. Anos depois, no início da década de 1979, era disputada para produções de western spaghetti e filmes de terror, também na Itália.
      Nos bastidores teve um tempestuoso romance com o robusto ator Maurízio Arena, a tal ponto de ganharem juntos a capa da revista de fofoca Oggi. Uma suposta tentativa de suicídio por excesso de barbitúricos, pelo gostosão, foi divulgada na época.
      Estrelou os filmes Um Homem Chamado Django, ao lado de Anthony Steffen, e La Colt Era Il Suo Dio, com Jeff Cameron. Atuou com Mark Damon e Rosalba Neri em O Castelo de Drácula e,  depois de consagrada, dividiu os créditos com as superstarlets Barbara Bouchet e Femi Benusse em Finalmente Le Mille e Uma Notte, de 1972. Alcançou assim o seleto rol das divas eróticas do cinema italiano. “Esmeralda é o oposto de suas personagens e foi uma grande estrela no cinema. Era cultuada em um tempo diferente de hoje, nos quais as estrelas são medidas por curtidas em mídias sociais”, diz o cineasta Daniel Camargo, expert em bangue-bangue do país europeu. Sua opinião relembra um pouco o que dizia o jornalista brasileiro Ubiratan de Lemos: “Seu corpo é um best-seller para um bom gosto internacional”.
     No dia a dia, Esmeralda era puro charme. Amava marcas como Gucci e Pucci e só usava bota de cano longo verniz. Gastava a sola na famosa...

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... Via Veneto, em Roma. Meio Barbarella, meio sambista, arrasava ao chegar no Brasil. Participava de coletivas, logo no aeroporto. E em seus contratos na Itália, tinha licença para passar o Carnaval por aqui. Única e absoluta.
      Em meados dos anos 1970, depois de outro tumultuado romance, agora com um mafioso, volta de vez a morar no Brasil. Linda e madura, é tragada pelas pornochanchadas como O Bem Dotado -  0 Homem de Itu, com o ator Nuno Leal Maia. Em 1976, é capa da revista Homem, futura Playboy. Participa de shows com Abelardo Figueiredo na boate O Beco.                                                     
      A carreira começa a desandar no início dos anos 1980, quando atua no filme de baixíssimo orçamento O Castelo das Taras produzido na Boca do Lixo em São Paulo, sob direção de Arlindo Barreto, o Bozo. No longa, no qual vem de diva, enxertaram cenas de sexo explícito. Ela aparece em nu frontal e careca. Outro exemplo é que, em 1985, atua na novela do SBT Uma Esperança no Ar, aparecendo apenas no final dos créditos do elenco, não sendo mais a grande estrela. Passa muitos anos de sua vida residindo numa mansão em Itaipava e outros no prédio dos artistas, no Morro do Vidigal. Muitos pensam que já faleceu, mas não: vive sob cuidados de um ex-namorado dos tempos do Renascença, o produtor Eugenio Fernandes. “Ela requer cuidados e já não tem mais as regalias da fama, muito menos os amigos de então, que sumiram”, entrega Camargo em conversa com a J.P.
        Hoje, de cabelos brancos, sentada, com movimentos limitados, Esmeralda se divide entre Ipanema ou Sepetiba, onde fica contemplando o mar. Um mar de glórias.

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Aizita Nascimento – Atriz e Apresentadora


Acima, Aizita Nascimento estrelando a capa de O Pasquim como a mulher mais sexy do Brasil; abaixo, desfilando pela escola de samba Mangueira, em foto da revista Manchete.
Aizita na revista Manchete (à esq.) e em um especial da revista Fatos & Fotos sobre os filmes que participaram do Festival de Cannes.

      “Queremos a mulata! Queremos a mulata! Queremos a mulata! ” Era o que se ouvia no concurso Miss Rio de Janeiro 1963, num Maracanãzinho lotado, com mais de 25 mil pessoas. A torcida era para ela, mas a bela Aizita Nascimento, inacreditavelmente, ficou em sexto lugar. Para os jornalistas presentes aquele foi o concurso mais emocionante até então, como consta no site Passarela Cultural, de Daslan Melo Lima.
      O sorriso de Aizita era tão contagiante que o mesmo ganhou até crônica do jornalista e escritor Henrique Pongetti. Ela não venceu, mas ganhou muito mais fama do que Vera Lúcia Maia, filha da cantora Nora Ney, escolhida a miss da vez. No ano seguinte, em 1964, Aizita se lança como cantora e grava um disco compacto pela RCA. Em pouco tempo era requisitada para participar do concurso de beleza As Certinhas do Lalau, organizado pelo jornalista Stanislaw Ponte Preta, e fazer filmes e novelas na rede Globo. Pouco? Nada. Em maio de 1970, depois de um tour pelo Leste Europeu com o conjunto A Brasiliana, Aizita já declarava à revista Fatos & Fotos na qual era capa: “Eu sou gente, não quero ser estrela, longe de tudo e todos. ”
      No entanto, brilhou no mesmo ano ao lado de Sandra Bréa na peça de teatro de revista Aqui Ó, no Teatro Poeira, em Ipanema. Dizem até que houve ciumeira entre elas enquanto estavam rodeadas de plumas e paetês.
      Ao lado de Jardel Filho, ganhou capa de revistas quando atuaram na novela Assim na Terra como no Céu, mas nada marcou tanto sua carreira como quando participou da pornochanchada Como É Boa Nossa Empregada, de 1973, ao lado de Jorge Dória e Carlos Mossy. “Ela era supertalentosa e a primeira a chegar. Jamais deu trabalho à produção. Generosa e sempre alegre, item importante em uma atriz, fazia todos rirem nos bastidores”, relembra para a J.P. o galã Carlos Mossy.
      Em maio de 1974, Aizita é capa de O Pasquim, como sendo a primeira a ganhar o título da mulher mais sexy do Brasil. Anos depois, em 1979, participa, em São Paulo, da novela O Todo Poderoso, da Rede Bandeirantes, e, com ares intelectuais, apresenta o programa Olhar  Eletrônico, na TV Cultura. Seu cabelo black power, estilo da ativista Angela Davis, sempre foi uma das suas marcas.
      Formada em enfermagem pela escola Anna Nery – desde os tempos do Miss Renascença -, um dia Aizita sumiu, não quis mais saber de holofotes e se dedicou à profissão de enfermeira. Evita até hoje entrevistas e, como uma verdadeira musa, deixa o mistério “que fim levou a musa Aizita” no ar.

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     Vou guardar a revista Joyce Pascowitch de fevereiro/2018, com muito carinho, ao lado de outras publicações que falam sobre misses. Dentro do que for possível, estarei sempre ao dispor de missólogos, jornalistas, historiadores e pesquisadores para resgatarmos as histórias das nossas misses eternas.

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sábado, 15 de outubro de 2011

SESSÃO NOSTALGIA - UMA TARDE COM VERA LÚCIA COUTO, MISS GUANABARA 1964

Daslan Melo Lima

     Na última quinta-feira, 13ª tarde de outubro de 2011, eu estava no escritório da empresa DJ-Publicidade, do meu amigo Daniel Oliveira, revisando a minha coluna sociocultural mensal da revista Timbaúba em Foco, antes dela ser enviada para impressão em uma gráfica de Carpina, quando o meu celular tocou. Era a  voz do meu amigo jornalista Muciolo Ferreira, do Recife, pedindo que eu ligasse a televisão na TV Brasil, no programa Sem Censura, de Leda Nagle. Rapidamente, sem me preocupar se o meu gesto iria atrapalhar a concentração do Daniel, que negociava com a secretária e um cliente a inserção de uma matéria na revista, pedi  a ele que ligasse a televisão. “Por favor, ligue no Sem Censura, uma das minhas deusas está sendo entrevistada.”  Daniel indagou:  “Quem é essa deusa tão especial? Gisele Bundchen? Camila Pitanga? Angelina Jolie?” Respondi: “Não! Nenhuma delas ! Trata-se de Vera Lúcia Couto, uma das minhas deusas dos anos 60”. 
        
     Daniel ligou a TV no momento em que Vera Lúcia Couto estava falando. Voz suave, rosto belo e sereno. Pedi a ele que tirasse uma foto minha perto da imagem de Vera que aparecia na TV e depois passei a clicar várias imagens como se ali, na minha frente, estivesse Vera, ao vivo. O programa estava repleto de assuntos relevantes: a psicóloga Eda Fagundes falava da polêmica diferença entre traição e deslealdade;  o mastologista Maurício Magalhães conversava sobre câncer de mama; a diretora de cinema Cecília Amado apresentava  o filme “Capitães da Areia”, inspirado em uma das mais conhecidas obras de seu avô, Jorge Amado, e a consultora e especialista em empreendedorismo e marketing feminino Fádua Sleiman abordava seu livro “Marketing de Batom”, sobre  relações empresarias. Para mim, no entanto, nada daquilo tinha tanto interesse como a presença da Assessora da Diretoria de Operações e Eventos da Riotur, Vera Lúcia Couto, que em 1964 foi eleita Miss Renascença, Miss Guanabara, segunda colocada no Miss Brasil e terceira no Miss Beleza Internacional.
 
      
     Entre suas declarações, Vera Lúcia Couto disse  que a saudosa Maria Augusta Nielsen, a Maria Augusta da Socila, que dava aulas de etiqueta e passarela às misses, passava as mãos nos cabelos das candidatas quando desconfiava que eram perucas, o que não era permitido. As misses que por acaso usassem enchimentos, apelidados de sex-appeal, para aumentar o busto, o que também não era recomendado, recebiam reclamações de Maria Augusta. Vera Lúcia  falou dos preconceitos que enfrentou, das viagens, da família (foi casada com um descendente de italianos, teve dois filhos e já tem um bisneto), etc. Frisou bem que valeu a pena ter sido Miss e confessou: “Eu sempre digo que a imprensa foi a maior responsável pela minha vitória. Eu estava em todas as capas de revistas, em todos os jornais.”

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      O menino que um dia eu fui acabou de rever várias imagens de Vera Lúcia, nos meus antigos álbuns de recortes e em velhas revistas que guardo com carinho.

Vera Lúcia Couto, com maiô Catalina e a faixa de Miss Guanabara 1964. Foto: revista O Cruzeiro.
Vera Lúcia Couto na passarela do Maracanãzinho, Rio de Janeiro, na noite do concurso Miss Brasil 1964, onde foi a segunda colocada. Foto: revista Fatos & Fotos.
Vera Lúcia Couto em Long Beach, Estados Unidos, na passarela do Miss Beleza Internacional, onde conquistou o terceiro lugar e o título de Miss Fotogenia. Foto: revista O Cruzeiro.
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     A Vera Lúcia Couto de ontem não é a mesma de hoje, assim como o Daslan Melo Lima de ontem não é o mesmo de hoje, assim como o  mundo e os valores de ontem não são os mesmos de hoje. Em comum, entre o fã e a deusa, esta nostalgia em torno de um  tempo que se foi, para sempre se foi.
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Timbaúba-PE, na 15ª tarde de outubro de 2011. 
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Detalhes:
1 - Para ver /rever o programa Sem Censura, na íntegra, acesse o Youtubbe, http://www.youtube.com/watch?v=ieltdrJoNms
2 – Para recordar a matéria da Sessão Nostalgia, de 23/08/2008, focalizando Vera Lúcia Couto e os preconceitos que sofreu por ser negra, clique: http://passarelacultural.blogspot.com/2008/08/sesso-nostalgia_23.html
                                                 
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sábado, 23 de agosto de 2008

SESSÃO NOSTALGIA - Vera Lúcia Couto dos Santos, os preconceitos sofridos pela Miss Brasil Beleza Internacional 1964

Daslan Melo Lima

     Dentro da vitoriosa série SESSÃO NOSTALGIA, onde focalizo semanalmente uma grande miss do passado, trago hoje o depoimento integral que VERA LÚCIA COUTO DOS SANTOS, Miss Renascença, Miss Guanabara, segunda colocada no Miss Brasil e terceira no Miss Beleza Internacional 1964, deu a Haroldo Costa, produtor, diretor, compositor, ator e historiador da música popular. Divulgo o texto tal como consta no livro FALA,CRIOULO, páginas 26 a 31 da 2ª €dição, Editora Record - Rio de Janeiro -1982

Muitos são os livros escritos sobre a questão racial brasileira, mas nenhum deles tem como autor um negro. Este é o primeiro: escrito por um jornalista e intelectual preto,que entrevistou pretos.
Melhor do que um ensaio ou uma tese sociológica, o livro apresenta depoimentos de negros das mais diferentes condições sociais.
Não se trata, porém, de um livro racista às avessas. Haroldo Costa e seus entrevistados não radicalizam, nem são revanchistas. Eles são brasileiros que amam seu País e ajudam a torná-lo grande. Fala, Crioulo é, sim, um hino de esperança, uma obra feita com o mais profundo amor e respeito pelo próximo. O importante é que o Autor não escolheu exceções, somente grandes vitoriosos, para falar de seus triunfos.
Ouso, então, afirmar que estamos diante do nosso Negras Raízes, o famoso livro de Alex Haley, já que se tornou quase impossível aos negros brasileiros, hoje, chegar às suas origens africanas: Rui Barbosa mandou queimar todos os assentamentos da escravatura para apagar esta mancha da Historia do Brasil.
Quer dizer, nossos crioulos não podem saber quem são, nem de onde vieram, pelo erro de avaliação histórica – certamente feita com a melhor das intenções por um dos maiores brasileiros. E, coisa do destino, nascido na Bahia, a nossa Roma negra.
 
( Carlos Leonam, nas orelhas de FALA,CRIOULO )

     Mas vamos ao depoimento de Vera Lúcia Couto dos Santos. As imagens que ilustram esta matéria são reproduções das fotos publicadas nas revistas O CRUZEIRO, de 18/07/1964 (Vera ao lado dos pais) e FATOS & FOTOS, de 11/07/1964.
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"Essa crioula é metida a branca..."
VERA LÚCIA COUTO DOS SANTOS
Ex-Miss Brasil,36 anos

- Sai daí, crioula! Teu lugar é na cozinha! Não se manca não?

Enquanto todas as candidatas faziam o desfile de conjunto, aquela mulher na ponta da passarela, possessa, gritava desesperada. A zoeira no Maracanãzinho lotado era infernal. Faixas, serpentinas, charangas, apitos, buzinas, tinha de tudo, mas os meus ouvidos só registravam a voz daquela mulher que ia por entre as mesas, me acompanhando e repetindo que nem uma matraca:

- Sai daí, crioula! Teu lugar é na cozinha!

Não foi fácil convencer meu pai a me deixar participar do concurso de Miss Renascença naquele ano de 1964. Quatro anos antes eu fui ao salão Dinah Cabeleireiros me pentear para aminha festa de 15 anos, a própria Dinah me atendeu e não cansou de fazer elogios:

-Ah! Que mulata mais bonitinha, bem que podia desfilar no Renascença.


Naquela época o Renascença estava com força total, era um dos clubes mais badalados do Rio de Janeiro, tido como celeiro das mulatas mais bonitas do Brasil, e a Dinah era a coordenadora dos concursos. Minha mãe desconversou, disse que eu era muito menina ainda, etc., e ficou por isso mesmo. Anos mais tarde, veio um novo convite para que eu participasse do desfile da Rainha da Primavera como representante do Renascença. Aí então nos tornamos sócios do clube e eu desfilei. Todo ano me convidavam para o concurso de Miss Renascença, eu falava com papai e ele não deixava. Miss Suéter, Rainha da Primavera, desfile de saia, desfile de modas, de tudo eu participava, mas falava em negócio de miss, papai brecava na hora. Devo dizer, a bem da verdade, que meu pai nunca foi de me coibir ou negar coisas, absolutamente. Nem ele nem minha mãe. Pedreiro, que mais tarde tornou-se construtor pela força do seu próprio trabalho e talento, ele foi sempre tolerante e compreensivo, dentro do seu temperamento calmo e reservado, até a sua morte. Minha mãe, por sua vez, sempre foi mais extrovertida e explosiva. Enfermeira por vocação e amor, estava sempre pronta para atender a um amigo ou a um vizinho, apenas pela alegria de exercer a sua profissão. Amava profundamente ao meu pai, tanto que morreu um ano depois dele porque não tinha mais alegria na vida, deixou-se morrer. De amor.

Só quando eu fiz 19 anos, e depois de muita insistência, é que papai permitiu que eu participasse do Miss Renascença, e acho que ele deixou porque não acreditava muito que eu pudesse ganhar. A minha principal competidora era a Esmeralda Barros, que tinha uma enorme presença, um corpo belíssimo e grande traquejo de palco porque já tinha trabalhado em shows, etc. Mas eu terminei ganhando. E acho que foi muito mais na passarela do que em termos de plástica, beleza e tudo mais, sabe? Porque a Esmeralda tinha uma plástica respeitável, acontece que ela entrou na base do já ganhei, eu sou a boa mesmo, e não tem pra mais ninguém, e o público notou isso, o júri também e eu acho que aí é que ela perdeu. Eu fui vestida pelo Hugo Rocha, que inclusive me deu umas dicas de passarela que me ajudaram muito.

Vencedora do Miss Renascença, entrei no concurso de Miss Guanabara naquela de ir para cumprir a obrigação, mas na verdade, sem nenhuma esperança. Pó, eu tinha visto o que aconteceu com a Aizita Nascimento e a Dirce Machado, duas excelentes candidatas do Renascença, mulatas lindíssimas, bem preparadas e que não conseguiram absolutamente nada além de uma notoriedade que muito as ajudou depois. Baseada nisto, não alimentava grandes ilusões. Nem pequenas, tanto que já havia combinado com minha mãe e o pessoal lá de casa para, no dia seguinte, isto é, no domingo, irmos todos para Teresópolis porque eu estava cansada daquele corre-corre de escolhe maiô, discute vestido, prova roupa, desmancha aqui, aperta ali, eu já estava cheia e queria mesmo era me mandar pra longe. E além do mais algum júri teria a ousadia de dar o título de Miss Guanabara, no ano do Quarto Centenário, a uma crioula?

Eu estava tomando um copo com água para me refrescar, depois da última etapa do desfile, quando uma das concorrentes chegou perto de mim e me sussurrou no ouvido:

- Verinha, você é a Miss Guanabara!


Eu encostei numa mesa e comecei a tremer, me deu um medo terrível. Comecei a rezar pedindo a Deus que fosse mentira. Me deu aquela de pavor, gelei. É a primeira vez que eu estou contando isso, só agora estou me sentindo com coragem, mas naquele momento me lembrei da menina que fui na Escola Sagrado Coração de Maria, no Méier, uma escola de freiras, onde no recreio eu ficava sempre posta de lado,sem perceber porque, pensando que o recreio era curto demais para dar tempo de eu brincar com as outras crianças. Lembrei-me da Escola Dois de Dezembro, onde eu era uma das alunas que iam com o uniforme mais bem cuidado, saia bem pregueada e blusa sempre na goma e onde uma vez na fila para comprar livros eu ouvi:

- Essa crioula é metida a branca, compra tudo do bom e do melhor.

E eu fingi que não ouvi. Mas agora não podia fugir, não. Tinha que ouvir: eu era a primeira negra a representar o Estado da Guanabara no concurso de Miss.
Aí eu vi que não tinha jeito mesmo e comecei a raciocinar: depois de ganhar o Miss Renascença eu estava representando um clube que na época era muito importante no concurso, dentro do contexto geral a participação do Renascença era muito importante. Daí, do fato de representar um clube, de repente eu passe a representar todos os clubes da Guanabara e agora passaria a representar um Estado inteiro. Quer dizer, foi um crescer de coisas, de responsabilidades... Foi quando eu realmente me conscientizei e disse:

- Então, dane-se. Quem gostar, gostou, quem não gostou, gostasse.

Era um encargo muito grande que até então, não tinha sido dado a ninguém da minha cor. Desta vez eu não temeria nenhuma concorrente, nem entraria só por entrar, eu tinha que partir pra briga sem conformismo ou acomodação. Tinha que partir para ganhar. A expectativa era muito grande, durante toda a semana o assunto não saiu dos jornais e não havia quem não falasse sobre isso, em todas as rodas. Nos ensaios eu fazia sempre o pivô, que é uma volta completa que a pessoa que está desfilando dá em torno de si mesma. Aí, a dona Maria Augusta, da Socila, que era a coordenadora do concurso, que ensaiava as misses, chegou pra mim e disse que eu não podia fazer o pivô, sob pena de ser desclassificada. Outras pessoas vieram e me diziam:

-Não entre nessa, Vera. Essa é a tua arma secreta não deixa de fazer o pivô.


Na verdade, quando no desfile para Miss Guanabara eu dei o que o pessoal chamava de voltinha, foi um delírio. O povo nas arquibancadas aplaudia e insistia pedindo mais. Posso dizer tranqüilamente que foi o que me consagrou, era um quê diferente, meu, uma espécie de marca registrada. O nome técnico é pivô, mas o povo pedia mesmo era a voltinha. No dia do concurso eu estava fazendo a última prova do vestido no atelier do Hugo Rocha quando recebi um telefonema de uma pessoa, voz feminina, que me disse:

- Olha, eu estou ligando porque lhe aprecio muito e quero dar um conselho de amiga. Acho que você deve desistir do concurso porque existe um grupo de senhoras da sociedade que compraram mesas especialmente para vaiar você.

A voz não se identificou e mais não disse. Era parte, sem dúvida, de uma guerra de nervos, não sei de alguma admiradora de outra concorrente ou se de alguém inconformada por ser eu, negra, a representante do estado da Guanabara. Correu também o boato de que a Comissão Organizadora teria retirado o nome de Evandro Castro Lima do júri, porque ele tinha se manifestado a meu favor publicamente, assim como disseram que colocaram a jornalista Pomona Politis porque ela declaradamente não gostava de preto. Essas notícias chegavam a mim e era como se um ciclone tivesse me pegado, eu perdia o chão, ficava completamente baratinada, sabendo que tinha que manter a calma, sem saber como.
Quando a orquestra tocou a marcha de abertura e todas as candidatas entraram para a passarela, um frio correu pela minha espinha, eu pisei firme mas não senti o chão. As torcidas todas misturadas gritavam coisas que eu nem distinguia. Vez por outra ouvia:

- Guanabara! Guanabara! Guanabara!

Também ouvi muito:

- Paraná! Paraná! Paraná!

E depois eu soube que um forte grupo gritava:

- Guaraná! Guaraná! Guaraná!

Era o pessoal que queria que os primeiros lugares ficassem com a Guanabara e o Paraná.
O que eu sei mesmo é que, no meio daquele tumulto infernal, onde o sorriso tinha que ser mantido a todo custo, eu ouvi claro e cristalino:

- Sai daí crioula! Teu lugar é na cozinha! Não se manca não?


Era uma mulher na ponta da passarela, que tinha a forma de uma ferradura, gritando histérica, inteiramente possessa. E ia por entre as mesas, repetindo, praticamente sem parar, a mesma coisa. As senhoras nas mesas que o telefonema anunciou não estavam lá, mas aquela mulher valia por quase todo o Maracanãzinho. Pelo menos para mim.
Quando voltei ao camarim, tremia da cabeça aos pés, e notei que não era só eu. O nervosismo era geral. Então pensei comigo mesmo:

- Quer saber de uma coisa, eu não vou olhar para o lado que aquela mulher estiver, vou entrar olhando para o outro lado.

Dito e feito. Quando entrei no desfile em traje de gala, onde cada concorrente se apresentava individualmente,.me enchi de moral e fui em frente. Enquanto desfilava tudo o que eu ouvia era um grande zumbido, e aí me lembrei quando uma vez fui com uma colega minha e o namorado dela a um baile na sede do Botafogo e quando chegamos na porta foi aquele papo pra cá, papo pra lá e eu não consegui entrar. A minha amiga era sócia do clube e o porteiro disse que eu não podia entrar por que não tinha convite, em cima da hora não dava pra quebrar o galho, etc.etc. Engoli aquela de não ter convite e fomos para Copacabana, o rapaz lembrou-se que tinha um baile no Olímpico. Quando chegamos lá não deu nem pro pessoal que estava comigo disfarçar, o cara da porta foi taxativo:

- Essa aí não entra!

A frase zumbiu no meu ouvido, foi aquele choque. Eu era uma adolescente e só estava querendo fazer o programa que outros da minha idade estavam fazendo – dançar.
E dancei... Numa só tarde fui barrada duas vezes. Na hora fiquei chateada, com raiva mesmo, mas só vim a perceber a extensão daquilo algum tempo depois, provavelmente naquele instante em que eu estava desfilando para milhares e milhares de pessoas, tentando não ouvir a mulher que continuava gritando pra mim que o meu lugar era na cozinha. Eu vinha olhando para o outro lado e me desliguei de tal forma que não avancei pela passarela que ia dar exatamente onde estava o júri. Passei direto. De repente eu notei que a torcida do Renascença gritava:

- Volta! Volta!

E eu não entendi o que estava acontecendo. Umas mesas mais perto do ponto onde eu estava bradavam de pé :

- Volta Vera, pelo amor de Deus. Volta, volta!

Eu continuava sem perceber o que é que estava havendo. A estas alturas, um senhor de cabelos grisalhos, de cor clara, adiantou-se e gritou quase em frente a mim:

- Volta, minha filha. Não faça uma desgraça dessa.

E botou a mão na cabeça. Foi como se eu tivesse acordado, dei uma rápida olhada pra trás e vi que tinha passado da banca do júri. Dei mais alguns passos à frente e pensei rapidinho:

- Estou proibida, mas eu vou fazer. Vai ser a minha salvação.


Fiz o pivô e voltei. Ai foi uma loucura. O público aplaudia, gritava, nunca vou me esquecer. Quando voltei de maiô, já estava inteiramente solta, liberta, fiz tudo o que eu sabia e mais um pouco. Cada pivô que eu fazia o pessoal gritava: Olé! Difícil descrever a sensação que sentia. A partir daí já achei normal ficar entre as finalistas e quando fui proclamada em segundo lugar, senti o gosto da vitória. Era a Miss Brasil número 2, aquela que iria representar o país no concurso de Miss Internacional Beautiful que era realizado em Long Beach, na Califórnia. 

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     Os anos passaram. Estamos em 2008, onde discriminação racial é crime, o termo politicamente correto para designar negro é afro descendente e as cotas para estudantes negros nas faculdades geram polêmicas. Os anos passaram. Estamos em 2008 e muita gente não entende o porquê de poucas negras nos grandes concursos de beleza.

     Quero fazer apenas uma correção no depoimento fantástico de Vera Lúcia Couto dos Santos, quando ela diz E além do mais algum júri teria a ousadia de dar o título de Miss Guanabara, no ano do Quarto Centenário, a uma crioula?
     O ano do quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro foi 1965, quando a loura Maria Raquel Helena de Andrade foi eleita Miss Guanabara e Miss Brasil.

     HAROLDO COSTA está com uma página excelente na web, http://www.haroldocosta.com.br, e FALA,CRIOULO merece uma nova edição, revista, atualizada, um FALA,CRIOULO, 26 ANOS DEPOIS. Por quê? Pra quê? Continua atual o que disse Haroldo Costa em janeiro de 1982:

Fomos o último país a ter a escravidão abolida, durante quatro séculos a grande força de trabalho foi o negro, por isso, quando se fala que nós ajudamos a construir esse país com suor e sangue, não está em uso uma figura de retórica nem uma simbologia pouco original, mas sim uma constatação indiscutível. Com a importação da mão-de-obra européia, fomos empurrados para baixo mas, curiosamente, somos os guardiões do que mais puro se atribuí à cultura brasileira. Do negro se cobra uma fidelidade absoluta à preservação e difusão de nossas mais importantes parcelas culturais (...)
Quem é crioulo no Brasil? Etimologicamente todo mundo nascido aqui, exceto os indígenas, não obstante a denominação abranger hoje em dia apenas os descendentes dos africanos, os afro-brasileiros, e ter tido durante muito tempo uma coloração pejorativa.
...o Brasil tem uma contribuição muito importante a dar, resgatando a dívida contraída com os descendentes dos escravos negros e que será materializada através dos mecanismos que nos propiciam a real oportunidade de participar em termos igualitários da busca pela identidade nacional. Sem favores, sem concessões, sem paternalismos, apenas com a disposição de absorver a nossa esperança. 

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