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sábado, 17 de março de 2018

SESSÃO NOSTALGIA - Gina Macpherson, Miss Brasil 1960, nem tudo foi em vão

Daslan Melo Lima



          Buscando inspiração para a Sessão Nostalgia desta semana, encontrei num caderno de recortes uma matéria da revista Veja, de 28/02/1973, sob o título Sem poupar esforços. O assunto é curioso. O nome de Gina Macpherson, Miss Guanabara, Miss Brasil e semifinalista do Miss Universo 1960, é citado. Vamos conferir? 

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          Em 1961, o Itamaraty suspeitou que estivesse ocorrendo um vazamento de verbas no seu consulado em Miami, chefiado pelo diplomata Ruy de Mello Teixeira. Instalada uma comissão de inquérito, confirmou-se a malversação de 13.600 dólares e também outros equívocos, tais como estelionato, falsificação de documentos, peculato, corrupção e contrabando de peças de automóveis.
      Durante os últimos doze anos, o caso Mello Teixeira, em que ficaram envolvidos também o vice-cônsul Dalton Portella e o funcionário Dernier Augusto Ribeiro Maciel, peregrinou pela Justiça com poucos resultados. Apesar de terem sido desligados do Itamaraty, Teixeira e Maciel foram absolvidos. Portella, menos feliz, foi condenado a três anos e quatro meses de prisão. Na semana passada, com um argumento lógico, o advogado Alfredo Tranjan conseguiu absolver Maciel no tribunal Federal de Recursos. Disse Tranjan: "Se o cônsul, gerador do processo, foi absolvido porque alegou ter recebido ordens superiores, Dalton, seu substituto, não podia ser condenado."
       Que ordens teria recebido o cônsul, que hoje circula alegremente pela noite carioca? Segundo ele e os autos do processo, promover, "sem poupar esforços", a Miss Brasil 1960, Gina Macpherson (1m72cm, 57 Kg e 93 cm de busto e quadris). Mesmo sem se levar em conta a inutilidade dos esforços, pois Gina perdeu, caso esse argumento tenha sido um dos fatores da absolvição, é o caso de se pesquisar melhor o período em que o Itamaraty realizou uma ofensiva no foro multilateral dos concursos de beleza internacionais. 
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         Sob a foto da Miss Brasil 1960, a legenda diz "Gina Macpherson : tudo foi em vão". Eu teria escrito: "Gina Macpherson: nem tudo foi em vão". Sem entrar na questão do imbróglio, minha frase seria um carinho para a nossa bela Miss Brasil 1960. Gina foi a Miss Brasil do início de uma década mágica que mudou a face do planeta Terra. 
          Concluindo, posto abaixo imagens de Gina Macpherson reproduzidas de revistas da época (O Cruzeiro, Manchete e Mundo Ilustrado) e que passaram por um tratamento especial. São presentes de um admirador de Passarela Cultural que faz questão de ficar no anonimato.  A ele, o meu muito obrigado.

Maracanãzinho, noite do Miss Guanabara, Gina desfilando como Miss Botafogo
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Maracanãzinho, noite do Miss Brasil, Gina desfilando como Miss Guanabara
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Gina visitando a redação da revista Mundo Ilustrado
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Gina em traje típico
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Gina sob o sol do Central Park, New York
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Gina em Miami Beach
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Em New York, beleza em dose tripla. Adalgisa Colombo (Miss Distrito Federal, Miss Brasil e Vice-Miss Universo 1958); Gina Macpherson (Miss Guanabara, Miss Brasil e semifinalista no Miss Universo 1960); e Teresinha Morango (Miss Amazonas, Miss Brasil e Vice-Miss Universo 1957). 

sábado, 29 de julho de 2017

SESSÃO NOSTALGIA – Miami, 1960. O show era Gina Macpherson, Miss Brasil

Daslan Melo Lima 


“Aquela, sim, foi uma noite completa! No famoso Hotel Fontainebleau, um dos melhores do mundo, um show em homenagem ao nosso país contou com Gina no último quadro. O auditório aplaudiu a bonita Miss Brasil, que num improviso em inglês arrancou assobios de entusiasmo. Os jornais de Miami encheram suas primeiras páginas com fotos de Gina, que é a favorita.”


        Assim começava a reportagem de dez páginas da revista Manchete, nº 430, ano 8, de 16/07/1960, falando do sucesso que Gina Macpherson, Miss Guanabara e Miss Brasil 1960, tinha feito em Miami Beach, apontada como  favorita para conquistar o título de Miss Universo 1960. O concurso tinha sido realizado no dia 09 de julho, no Miami Beach Auditorium.  
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Miami, que emoção! Suas praias com palmeiras que vergam ao vento. “Mas o Rio é muito mais bonito, sem comparação!” Nesta época, a cidade é quente. E Gina repete a toda hora com seu bonito sorriso: “Puxa, o calor aqui é dez vezes pior que o nosso!” Ela passa os dias fazendo visitas oficiais e não perde ocasião de ver as partes históricas da cidade.
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Na escadaria do avião, de cima para baixo, Maria Stella Márquez Zawadzky, Miss Colômbia; Nancy Aguirre, Miss Bolívia; Mercedes Teresa Ruggia, Miss Paraguai; Maria Teresa Mota Cardoso, Miss Portugal; Íris Teresa Ubal Cabrera, Miss Uruguai, e María Teresa del Río, Miss Espanha.
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As bonitas representantes da Inglaterra (Joan Ellinor Boardman) Israel (Aliza Gur), França (Florence Anne Marie Normand Eyrie) e Bélgica (Huberte Box) a caminho do hotel num carro oficial. ***** Detalhe: As misses Israel e Inglaterra ficaram entre as semifinalistas (Top 15).

A cidade é só alegria e festas. Misses Espanha, Uruguai, Paraguai, Portugal e outras desceram no aeroporto em meio aos acordes de várias bandas. O povo de Miami não sabe o que fazer para mimosear as visitantes com a mais amável das hospitalidades. Mas o assunto é Gina.
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Oriente e Ocidente medem suas forças na passarela. Portugal (María Teresa Mota Cardoso) entra pela primeira vez no concurso com uma bonita candidata. A Espanha (María Teresa del Río) também está presente pela primeira vez na parada da beleza mundial. ***** Detalhe: Miss Espanha foi a quinta colocada. 
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E Miss Colômbia? Repetirá a vitória retumbante de Luz Marina Zuluaga? A Coréia esqueceu por instantes seus problemas internos e veio para ganhar. Para ser completo este concurso só falta mesmo a URSS. Pela primeira vez, Salazar e Franco concordaram com a participação de seus países. A Coréia (Sohn Mi-hee-ja) veio com uma candidata decidida a manter o título na área asiática. É difícil, mas Gina tem muita chance. ***** Detalhe:  Maria Stella Márquez Zawadzky, Miss Colômbia, ficou entre as semifinalistas (Top 15). No dia 12/08/1960, no Long Beach Municipal Auditorium, em Long Beach, ela venceu o primeiro concurso Miss Beleza Internacional.  Miss Coréia foi semifinalista (Top 15) no Miss Universo.
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As rivais de Gina são uns amores – Misses Hong Kong (Vivien Cheung Wai-Wan) e Peru (Medadit Gallino) dois tipos exóticos na lista das mais bonitas. A Escandinávia mandou este ano duas belezas de virar a cabeça dos juízes. Miss França (Florence Anne Marie Normand Eyrie) fez ruído no dia da sua chegada com um cãozinho a tiracolo.
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Enquanto espera o dia do grande desfile, Gina descansa sob as frondosas palmeiras de Miami. Vai ganhar? Ela sorri quando alguém diz que sim. Está no Hotel Shelbourne, conta com a assistência do cônsul Ruy Melo Teixeira e tem bom apoio na imprensa americana. Só há motivos para confiar no seu sucesso.

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       Gina Macpherson ficou entre as quinze semifinalistas do Miss Universo 1960, ano em que a vencedora foi Linda Jeanne Bement, Miss Estados Unidos. Abaixo, os links das matérias que a focalizaram em SESSÃO NOSTALGIA, desde sua eleição como Miss Guanabara até seu desabafo sobre a única mágoa que guarda do tempo de Miss. 
          Para você, Gina Macpherson, primeira Miss Brasil da década mágica de 1960, o meu abraço, esperando que o clima de Niterói, onde mora, esteja tão agradável como este de Timbaúba, Pernambuco, onde resido. O clima aqui está frio, deliciosamente frio, combinando com as recordações de um tempo que se foi, para sempre se foi.
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Miss Guanabara 1960
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Miss Brasil 1960
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O único rancor de Gina Macpherson

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domingo, 20 de novembro de 2011

SESSÃO NOSTALGIA - DIRCE MACHADO, MISS RENASCENÇA 1960

Daslan Melo Lima
PRÓLOGO

          “Uma negra foi eleita Miss Universo 2011”. A imprensa do mundo inteiro divulgou essa notícia em setembro último, referindo-se à vitória da bela Leila Lopes, Miss Angola.  Caso a vencedora tivesse sido uma candidata de cor branca, ninguém diria: “Uma branca foi eleita Miss Universo 2011.”
         Domingo, 20/11/2011, Dia de Zumbi, Dia Nacional da Consciência Negra e Dia Nacional de Combate ao Racismo. O assunto mexe com minh’alma de forma extraordinária, pois sou um dos milhares de brasileiros que traz no tom da pele histórias de luta e sofrimento de uma raça que tanto contribuiu para a construção da nação brasileira. Meu pai era mulato, filho de uma negra que foi abandonada pela família quando um branco a engravidou. Minha mãe era branca, filha de uma morena com um louro de olhos azuis. Cresci às margens do Rio Canhoto, em São José da Laje, Alagoas, roteiro dos negros escravos que na época da escravidão buscavam refúgio na Serra da Barriga, na vizinha cidade de União dos Palmares, berço de Zumbi. 

  Dirce Machado, Miss Renascença 1960

          Nesta Sessão Nostalgia rendo um tributo a Dirce Machado, Miss Renascença, quarta colocada no Miss Guanabara 1960, a primeira brasileira negra a alcançar extraordinário sucesso em um concurso oficial de beleza onde a maioria das concorrentes era de cor branca.

RENASCENÇA, A FUNDAÇÃO DO CLUBE,  OS FUNDADORES E O PERFIL DE SUAS MISSES 

          O texto abaixo foi transcrito do livro A ALMA DA FESTA, de Sonia Maria Giacomini – Editora UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais- 2006. A autora é doutora em Sociologia, mestre em Antropologia Social e professora do departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio. A Alma da Festa, abordando família, etnicidade e projetos no Renascença Clube, originalmente foi uma tese de doutorado em Sociologia, ganhadora em 2005 do Prêmio IUPER (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, unidade de Pós Graduação, Mestrado e Doutorado em Sociologia e Ciência Política da UCAM-Universidade Candido Mendes.

O Renascença Clube foi fundado em 17 de fevereiro de 1951 na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, como “clube social, recreativo, cultural e esportivo”. Entre os objetivos da associação, o Artigo 2º do Estatuto alinha a intenção de “promover e estimular a união e o espírito de solidariedade entre os sócios e pessoas de suas famílias sem qualquer prevenção de preconceito”.
À época de sua criação, o Renascença Clube contava com um núcleo de 29 sócios fundadores, todos negros segundo os relatos e registro. É marcante a presença feminina neste momento de criação e estruturação do Clube, já que elas eram 18 no grupo fundador – contra 11 homens – e duas na primeira Diretoria – contra quatro homens. A mulher do grupo fundador do Renascença é idealmente a mulher de família, isto é, honrada, culta, bem-vestida, elegante e, sobretudo, refinada. Essa mulher negra ideal, digna, é o produto e, quando casada, simultaneamente o centro de uma família sólida, bem-estruturada, que propicia o acesso ao estudo e a uma educação requintada. Esse ideal feminino permanece encarnado à perfeição na figura da miss ou rainha da primavera de outros concursos de beleza similares, promovidos pelo Clube nessa época. A miss é sempre a filha, sobrinha, afilhada de algum sócio que, durante alguma das muitas ocasiões de convívio e sociabilidade, é, por sua simpatia, beleza, elegância e boa educação, convidada, geralmente pela Diretoria Social, para participar do certame. A miss do concurso deve ser “bela”, à imagem dos certames de beleza tão em voga, no período, na cidade e no Brasil, mas, sobretudo, de uma beleza que não deixe margem a evocações que possam ser contrárias à honra. A miss é de uma beleza digna e honrada: com “brio”, “requinte”, “distinção”...
Os primeiros concursos de rainha – ou de miss – promovidos no Renascença Clube, como a grande maioria das atividades da primeira década, eram eventos internos, organizados pelos e para os associados. Ao final dos anos 50, vieram dar um novo impulso à vida social, somando-se aos saraus, desfiles de moda, bailes, almoços e coquetéis, que reuniam nos finais de semana quase sempre as mesmas pessoas e família. Progressivamente os concursos começam a se impor sobre o conjunto da vida social, e vai se evanescendo a aura doméstica, ou familiar, se se preferir, que haviam herdado dos anos 50. A regularização e prestígio do Concurso Miss Renascença sinalizarão a entrada em uma nova era.
As transformações dos concursos em eventos mais amplos e com maior visibilidade são invariavelmente associadas ao nome de uma sócia, Dinah Duarte, proprietária de um conhecido salão de beleza mo Méier, subúrbio carioca não muito distante do centro da cidade. Dinah é apontada em todas as entrevistas, se não como a criadora do concurso, ao menos como a grande responsável pela incorporação de inovações que tornaram um evento, inicialmente tímido e restrito, em algo considerado realmente importante, impactante e significativo. Com Dinah Duarte, afirmam os entrevistados e as inúmeras matérias colhidas em revistas de grande circulação e em diversas edições do Jornal do Renascença, os concursos realizados no Clube iniciam uma nova fase voltada para a preparação e disputa nos certames estaduais, competindo abertamente com as candidatas de outros clubes.

DIRCE MACHADO, MISS RENASCENÇA 1960

         Vamos entrar no Túnel do Tempo e rever a trajetória de Dirce Machado, a primeira deusa do ébano da história do Miss Guanabara-Miss Brasil.

As 24 candidatas ao título de Miss nº 1 da Guanabara começaram a operação-maquilagem às 17 horas, para o desfile que só teve início às 21.30. O Maracanãzinho, na noite do dia 4, estava quase repleto. O público dividia-se em torcidas contra a mensagem azul das passarelas, onde as moças bonitas deram os 270 passinhos aprendidos na Socila. 52 lâmpadas de mil “watts” iluminaram o canteiro de belas. E assim todo o Maracanãzinho pode ver, em detalhes, as concorrentes, que desfilaram de vestido de baile e, depois, de maiô. Sucesso, sem dúvida, tanto para o público como para os entendidos, foi Dirce Machado, do Renascença. Depois que o “Orfeu do Carnaval” deu curso internacional à mulata, como produto genuinamente brasileiro, as semi-“coloreds” passaram ao domínio da passarela. E eis que Dirce abalou o Maracanãzinho, vindo, ao final, a obter a quarta colocação. E notem que grande parte dos espectadores votou nela para melhor colocação. (O Cruzeiro, 18/06/1960)

Dirce Machado foi a sensação da noite. Mulata elegante e bonita, ela empolgou o público, que a aplaudiu todo o tempo em que estve na passarela. Dirce é recpcionista num cabeleireiro da Tijuca, mora em Catrumbi e foi apresentada pelo Renascença Clube, no Méier. É carioca, mede 1,65m, pesa 508 quilos e veste manequim 44. (Manchete, 18/06/1960)

Dirce Machado entre as 8 finalistas do Miss Guanabara 1960. Da esquerda para a direita: Elvira Bela Grubel (Miss Jacarepaguá, oitava colocada), Martha Vieira Angermann (Miss Fluminense, sexto lugar); Dirce Machado (Miss Renascença, quarta colocada); Maria Helena Thomé (Miss Uruguai Clube, segundo lugar); Gina Macpherson (Miss Botafogo, primeira colocada); Shyrley da Silva Carneiro (Miss Grajaú, terceiro lugar); Elenita Teixeira Lôbo (Miss Marã, quinta colocada); e Sônia Brasil Pinto (Miss Vasco da Gama, sétimo lugar). ***** (O Cruzeiro, 18/06/1960)
EPÍLOGO


         Há um ano, ouvi uma figura influente dizer que não adiantava mandar uma negra para disputar um título de Miss, pois o preconceito existia. Imagine isso em 1960 ! Aplausos, mil aplausos para Dirce Machado, Miss Renascença 1960, que tanto contribuiu para elevar a auto-estima de milhares de jovens negras, num tempo em que racismo não dava cadeia.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

SESSÃO NOSTALGIA - Miss Guanabara 1960

Daslan Melo Lima


Maracanãzinho, Rio de Janeiro, noite de 04 de junho de 1960. Um público estimado em 10 mil pessoas estava ansioso. Vinte e quatro jovens iam disputar o primeiro título de Miss do recém criado estado da Guanabara.


Maracanãzinho, o maior templo da beleza brasileira de todos os tempos. ***** (Foto: Revista Manchete)

A CANDIDATA MAIS APLAUDIDA

         Duas mulatas estavam entre as concorrentes e foram muito aplaudidas: Dirce Machado, Miss Renascença, e Norma Valéria, Miss Vila da Penha.


Sucesso, sem dúvida, tanto para o público como para os ”entendidos”, foi Dirce Machado, do Renascença. Depois que o “Orfeu do carnaval” deu curso internacional à mulata, como produto genuinamente brasileiro, as semi-“coloreds” passaram ao domínio da passarela. E eis que Dirce abalou o Maracanãzinho, vindo, afinal, a obter a quarta colocação.  ***** (Revista O Cruzeiro, 18/06/1960).



Dirce Machado, Miss Renascença. ***** Foto: Manchete

Dirce Machado foi a sensação da noite. Mulata elegante e bonita, ela empolgou o público, que a aplaudiu todo o tempo em que esteve na passarela. Dirce é recepcionista num cabeleireiro da Tijuca, mora em Catumbi e foi apresentada pelo Renascença Clube, no Méier. É carioca, mede 1,65m, pesa 58 quilos e veste manequim 44. ***** Manchete, 18/06/1960.


A MISS PROIBIDA

Um das figuras mais lindas da platéia era Geórgia Quental, um dos mais famosos modelos e manequins da época.


A candidata Geórgia Quental foi proibida de se inscrever, depois de uma reunião dos dirigentes de todos os clubes. Por quês? Geórgia é manequim profissional. E o que pode haver de mal nisso? Um manequim sabe desfilar, já foi selecionado por sua beleza e as outras entrariam quase sem chance. De qualquer maneira Geórgia foi ao Maracanãzinho e muita gente lamentou que não entrasse no concurso. (Manchete)

          Em 1959, Geórgia Quental tinha tentando ser candidata ao título de Miss Distrito Federal, mas Mena Fialha, proprietária da Casa Canadá, para onde Geórgia desfilava, preferiu apoiar Adalgisa Colombo, que também era manequim. Adalgisa foi Miss Distrito Federal, Miss Brasil e vice-Miss Universo 1958. Enquanto isso, Geórgia Quental só consegui realizar o sonho de desfilar no Maracanãzinho em 1962, quando obteve o sétimo lugar no Miss Brasil, representando o Rio Grande do Norte.


AS OITO FINALISTAS


Vestindo maiôs Catalina, as oito finalistas do Miss Estado da Guanabara 1960, em foto de Indalécio Wanderley para a revista O Cruzeiro. No pódio, propaganda da empresa Criações Ciaesa, fabricante dos Tecidos Flamezin. Da esquerda para a direita:
Elvira Bela Grubel, Miss Jacarepaguá;
Martha Vieira Angermann, pernambucana radicada no Rio de Janeiro, Miss Fluminense;
Dirce Machado, Miss Renascença, 4º lugar;
Maria Helena Thomé da Costa , Miss Uruguai Tênis Clube, 2º lugar;
Gina MacPherson, Miss Botafogo, 1º lugar;
Shirley da Silva Carneiro, Miss Grajaú, 3º lugar;
Elenita Teixeira Lobo, Miss Marã;
Sônia Brasil Pinto, Miss Vasco da Gama.


Shyrley da Silva Carneiro, do Grajaú, ganhou o terceiro lugar, com pleno assentimento das arquibancadas. Shirley é professora em Irajá. A vitória surpreendeu-a: " Os meus alunos vão ficar contentes”.
As misses inauguraram estilo novo em homenagem ao Estado (também novo) que queriam representar. E concorreram como amigas. Daí, os abraços e beijinhos gerais que as vitoriosas receberam das que não obtiveram classificação. Miss Mackenzie (Odracy Lucena de Carvalho) ficou tão contente com o resultado que chegou a chorar ao abraçar Gina. E Gina, por sua vez, confessou ter ficado espantada ao se saber “a mais bela”. Pensara que Miss GB seria a candidata mignon do Clube da Aeronáutica, Thelma Elita Cardoso de Sousa, beleza-transistor, que não ficou sequer entre as finalistas. (O Cruzeiro)


AS QUATRO MAIS



As quatro primeiras colocadas, em foto de Indalécio Wanderley, revista O Cruzeiro. Da esquerda para a direita:
Maria Helena Thomé da Costa, Miss Uruguai Tênis Clube, 2º lugar
Gina MacPherson, Miss Botafogo, 1º lugar
Shirley da Silva Carneiro, Miss Grajaú, 3º Lugar
Dirce Machado, Miss Renascença, 4º lugar


ELA TAMBÉM FOI MUITO APLAUDIDA


Elaine Dalla Riva, Miss Faculdade Nacional de Filosofia, em foto da revista Manchete, um rosto que lembrava o da Imperatriz Farah Diba.

(...) este ano as candidatas não usaram vestidos de baile. Todas escolheram cores e modelos que deixaram mais uma vez provada a elegância natural da mulher brasileira. A maioria não tinha a menor prática de desfiles, mas alguma orientação, na véspera, foi o suficiente para que exibissem toda a graça da mocidade. (Manchete)


GINA MACPHERSON, 
PRIMEIRA MISS ESTADO DA GUANABARA



Ao som de “Cidade Maravilhosa” e aplaudida por dez mil pessoas que se encontravam no Maracanãzinho, Gina MacPherson, um lindo broto de olhos verdes e cabelos pretos, representante do Botafogo, recebeu do governador do estado a faixa de primeira Miss Guanabara. Ela foi a última a chegar, mas logo após o vestido de baile já era apontada pela maioria como a vencedora.
“Acho que vou chorar...” E o Governador Sette Câmara sorriu ao ouvir Gina MacPherson, primeira Miss da Guanabara, fazer-lhe aquela confissão, mas a jovem controlou sua emoção e distribuiu beijos para o público. (Manchete)



Gina MacPherson, Miss Guanabara 1960 - Foto: revista Manchete


A primeira Miss Estado da Guanabara recebeu um prêmio de 20 mil cruzeiros. E outro maior: o abraço do pai. Antes recebera um telegrama de estímulo do noivo, que é aviador, e estava na Nova Zelândia. Também terá presentes de Tecidos Flamezin, patrocinadores do concurso: vestidos.

Primeira Miss GB fala português com sotaque (quando quer) da Escócia. Isso quer dizer que Gina MacPherson, que concorreu pelo Botafogo e cujos pais são escoceses, fala inglês na velha base britânica, além de ter olhos verdes, 1.70 de altura, 93de busto e de quadris, 58 de cintura, 53 de coxa e 57 de peso. Tudo isso numa moldura de 20 anos, com linhas exatas e belo palminho de rosto, decorado por um sorriso leve.

A moça de olhos verdes dominou, com seus passos leves, a passarela, com um modelo “cocktail”, em tule vaporoso, estola do mesmo tecido, sapatos de cetim cor de caju e luvas da mesma cor. De maiô, também impressionou pela plástica perfeita. ***** (O Cruzeiro)




Gina MacPherson, Miss Guanabara, beleza, classe e elegância. Ela usou um modelo coquetel em “tuffe” vaporoso azul, sapatos de cetim luvas de cor caju. 
Ela mora em Niterói, é recepcionista da BOAC e foi descoberta por um diretor do Botafogo, casualmente, no próprio local de trabalho. Por isso, suas primeiras palavras foram para agradecer ao clube que tornou realidade outra historia de Cinderela.  ***** (Manchete)

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          Uma semana depois de eleita Miss Guanabara, Gina MacPherson venceu 22 candidatas e foi coroada Miss Brasil 1960. Em Miami Beach, o título de Miss Universo ficou para Linda Bement, Miss Estados Unidos e Gina conquistou um lugar entre as semifinalistas (Top 15).


Gina MacPherson, Miss Guanabara 1960 - Foto: revista Manchete


          Em 1960, o Brasil, o mundo e o tempo eram outros. Os valores e os costumes eram outros. Ao voltar dos Estados Unidos, Gina MacPherson reassumiu a função de recepcionista na empresa de aviação BOAC e voltou a fazer o que adorava: ler romances, montar a cavalo na fazenda dos pais e assistir aos filmes de Marlon Brando, Tony Curtis, Frank Sinatra, Debbie Reynolds, Brigitte Bardot e Gina Lollobrigida.

           Gina MacPherson achava que a felicidade estava num bom marido e num casal de filhos. Cumpriu seu reinado de Miss Guanabara e Miss Brasil até o final. Depois, casou e teve seu almejado casal de filhos, mas isso eu contarei em outra Sessão Nostalgia, onde voltarei a evocar um tempo mágico que se foi, para sempre se foi.

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