Daslan Melo Lima
Morreu às seis horas da manhã do domingo, 02/11/2009, no Rio de Janeiro,
Maria Augusta Thurmann Nielsen, 86 anos, a
Maria Augusta da Socila, vítima de parada cardíaca. Esta
Sessão Nostalgia foi construída com base em pesquisas que fiz nas seguintes fontes:
Fernando Machado (
www.fernandomachado.blog.br),
Misses em Manchete (
www.missesemmanchete.blogspot.com),
Misses na Passarela Blogger (
www.evandrosilvabr.blogspot.com),
O Globo e revistas do meu acervo,
Caras,
Fatos & Fotos,
Manchete,
O Cruzeiro e
Realidade.
MARIA AUGUSTA E A SOCILAA carreira de Maria Augusta começou quando ela tinha 16 anos, no início da década de 30, numa casa chamada M.C.Modas. Seu pai morreu nessa época. Ela era a mais nova de seis filhos. Quando quis desfilar, as próprias irmãs achavam que aquilo não era para moças de família, mas sua mãe a apoiou e ela foi em frente. Estudou em Nova York, na “Lucky” e no “Powers School”, para aprender o que se passava nos mais famosos cursos de comportamento. Casou-se em 1948, com o ator
Jardel Filho (1927-1983). Ficaram casados por cinco anos e depois de separados continuaram sendo grandes amigos. Maria Augusta casou-se novamente e separou-se. Não teve filhos.

Maria Augusta Nielsen, mestre de elegância e etiqueta, a grande criadora de Misses.
(Foto: Álbum de família de Maria Augusta, publicada há alguns anos na revista
Caras)
Maria Augusta Nielsen fundou a
SOCILA,
Sociedade Civil de Intercâmbio Literário e Artístico, em 1953, e treinou as candidatas ao título de Miss Brasil, de 1958 até 1976. A
SOCILA era uma escola para modelos, na época uma profissão malvista. Motivo: com o fechamento dos cassinos por
Getúlio Vargas (1882-1954), os desfiles foram invadidos pelas coristas desempregadas. As moças bem nascidas, que até então faziam esse trabalho, se retiraram.
Maria Augusta dizia que teve muita sorte. Quando a primeira dama do país
Sarah Kubitschek (1909-1996) a procurou para ensinar postura às suas filhas
Márcia (1943-2000) e
Maria Estela (
Maristela), ganhou página inteira do jornal
O Globo. A propósito, Maristela foi adotada aos quatro anos de idade e conta situações emocionantes de sua vida no livro
Simples e Princesa (Editora Siciliano, 2006).

Maria Augusta e
Juscelino Kubitschek (Foto: O Globo)
Graças às aulas que dava às filhas do
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976), a
SOCILA virou uma coqueluche, mas legalmente não tinha ainda como enquadrar sua atividade. Isso só aconteceu em 1957, quando o Presidente criou uma lei regulamentando os cursos profissionalizantes. A proposta de Maria Augusta era a de criar modelos de classe e brasileiras. A primeira brasileira que Maria Augusta Nielsen preparou foi a cearense
Florinda Bolkan, nome artístico de
Florinda Bulcão, logo depois veio
Ilka Soares.
A MAIS FAMOSA CINDERELA DE MARIA AUGUSTA
A mais famosa
cinderela treinada por Maria Augusta foi
Josepha, cujo nome verdadeiro era
Josefa Domingos Soares, empregada doméstica, natural de Itabaiana, Paraíba. Josepha, que morreu na Itália em 31/07/2009, era uma negra belíssima. Foi modelo na Europa e desfilou para
Pierre Balmain (1914-1982). Passou a se chamar
Josepha Massimo quando casou com o nobre italiano
Vittorio Emanuele Massimo (1911-1983),
Principe di Roccasecca dei Volsci, tornando-se
Princesa di Roccasecca dei Volsci. (Foto:
Manchete)
MARIA AUGUSTA E A LENDA DE UMA BENGALAHoje, para muitos, soa estranho a história de uma senhora com uma bengala fazendo a marcação de um desfile de Misses em um ginásio de esportes chamado Maracanãzinho.
O interesse pelos concursos de Misses no Brasil atraía tanto a atenção como os jogos da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo. Em 1964, por exemplo, o concurso Miss Brasil foi assistido ao vivo por 50 mil espectadores, conforme a revista
Fatos & Fotos, de 16/07/1964.
Nada disso é invenção, inclusive a bengala de Maria Augusta.

Esta é a bengala que toda Miss obedecia. (Foto: revista
Realidade, agosto 1966)
No início da década de 60, Maria Augusta recebeu uma vaia homérica por ter advertido uma Miss que ficou mandando beijinhos para a platéia, o que era proibido pelo certame. Em várias situações, teve que sair escoltada pela polícia, pois as pessoas achavam que ela era a culpada pela derrota das candidatas.

Maria Augusta em pé, atenta ao desfile de uma candidata ao título de Miss Guanabara 1961, enquanto outras Misses ansiosas, vestindo maiôs
Catalina, aguardam a vez de enfrentar a passarela. (Foto:
Manchete, 24/06/1961)
Em suas lembranças, a coisa que Maria Augusta achava mais engraçada era as mães das Misses, que em muitos casos mais atrapalhavam que ajudavam. Contava que um problema sério era o assédio masculino, à época chamados de
gabirus. A virgindade era um tabu, e se suspeitassem que uma Miss tivesse uma aventura, ela era carta fora do baralho.

Nem todas as moças aprendiam a desfilar como Maria Augusta queria. Quem não aprendia desfilava errado. (Foto: revista
Realidade, agosto 1966)
Bengala faz a marcação
Miss tem que saber desfilar, para não dar vexame. E vão para as mãos de dona Maria Augusta, que tem uma escola de modelos, e há nove anos acompanha o concurso de Miss Brasil, ensinando andar, parar e rodopiar. Comanda tudo com uma bengala, e umas batidas no chão:
- A marcação da bengala é a marcação internacional. As moças saem daqui já sabendo desfilar como nos outros países.
Na terça-feira depois da chegada, há o primeiro contato entre as mocinhas e Maria Augusta, para as medidas. Ela mesma, ou uma sua auxiliar, tira as medidas – busto, cintura, quadris, coxas, tornozelo, altura e peso – só na presença de senhoras, em lugar onde ninguém mais pode entrar. Nesse dia, as candidatas fazem seu desfilezinho inicial, para Maria Augusta ver qualidades e defeitos.
(Revista
Realidade, agosto 1966)

Maria Augusta, à esquerda, de preto, no momento de começar o desfile em traje de gala das candidatas ao título de Miss Guanabara 1972 (Foto:
Manchete)
AS MENINAS DA SOCILAEla ensinou ao Brasil a ser elegante. Entre os anos 50 e 70, a empresária Maria Augusta Nielsen ditava o que era de bom tom em sociedade. Fundadora da Socila, em 1954, ela aceitou o convite de dona Sarah Kubitschek para preparar as filhas, Maria Estela e Márcia, para o début em Versailles.
— Passei a dar aulas no Palácio das Laranjeiras para as meninas. Depois disso dona Sarah reuniu as amigas e as irmãs para que eu as orientasse também. Até o presidente ia para lá na hora do lanche. E perguntava: “Como é que eu estou, professora, estou bem?”. E aí ele desfilava e também dizia que precisava de aulas. Eu dizia, “o senhor não precisa disso, presidente”. E ele respondia: “Preciso sim, sou de Minas”. Ele era muito engraçado, ficamos muito amigos — lembra Maria Augusta.

Juscelino Kubitschek, a esposa Sarah e as filhas Márcia e Maristela. (Foto:
www.almanaquebrasil.com.br)
Foi o próprio Juscelino que, em 1957, ajudou a legalizar a escola de aperfeiçoamento social, já que não havia registro da profissão no país. — Um dia tomei coragem e disse a JK: “Presidente, estou trabalhando na ilegalidade”. Então, ele reuniu uma banca examinadora com diplomatas do Itamaraty, um médico e professores para me argüir. Passei com louvor e recebi o registro — conta Gugu, como era carinhosamente chamada.Depois da temporada no Palácio das Laranjeiras, freqüentar a Socila virou item obrigatório na agenda das moças bem-nascidas. — Dona Sarah abriu portas incríveis, é claro que nós fizemos um bom trabalho, mas também tivemos uma estrela fantástica. Depois da temporada no Palácio, foi um deus-nos-acuda, veio toda a sociedade procurar a Socila, foi uma maravilha.Maria Augusta lançou muitas delas em passarelas, inclusive no exterior: de Lúcia Moreira Salles — segunda brasileira a desfilar para a maison Chanel — e Cookie Richard a Marina Colassanti e Florinda Bolkan.
Gugu ergueu um império da beleza com filiais em quase todo o país, onde oferecia de cursos de modelo e etiqueta a tratamentos estéticos. Foi a precursora dos spas com o Beauté Services Socila. — Na Europa era comum os serviços serem oferecidos em salões, mas para apenas uma necessidade. Eu trouxe aparelhos e técnicas da Europa e dos EUA e oferecia tratamentos completos para pele, flacidez, celulite, tudo num só lugar — conta a ex-empresária.
Ela abriu a primeira agência de modelos da América Latina nos anos 60 — as agências de propaganda já requisitavam as meninas da Socila para campanhas desde os anos 50. Fez fortuna e perdeu tudo. Sua vida renderia um filme ou uma novela.
A vida da Gugu se confunde com a história da moda no Brasil. Ela foi manequim, empresária, lançou as primeiras manecas e os estilistas Clodovil, Dener, Guilherme Guimarães, profissionalizou os desfiles de misses, viveu na Europa e foi amiga de todos os grandes costureiros.
(...) Recebe uma pequena aposentadoria do INSS, complementada pela ajuda dos muitos amigos no país e no exterior — algumas ex-modelos que lançou, como a manequim Josefa... (... ) Pragmática e bem-humoradíssima, Gugu freqüenta o Instituto Benjamin Constant, onde aprende computação: - Estou cega do olho esquerdo e tenho 10% de visão no direito. É irreversível. Falei com a minha terapeuta e ela me aconselhou: “Assuma, você vai se sentir melhor e as pessoas também”. Lá aprendo a ser cega — diz sem floreios.
Quando o assunto é elegância, Gugu mostra que há coisas imutáveis: — A evolução da moda é natural. Mas há coisas que não mudam, nas atitudes, por exemplo. Você pode impor suas opiniões de maneira elegante. O que falta no país é educação, em todos os sentidos. Conversar com as pessoas com a mão no bolso é um horror — decreta. — Todo mundo tem altos e baixos. Não me lembro de coisas desagradáveis e acho ótimo. Fiquei muito rica, depois houve um final melancólico. Estou pobre, essa é a verdade, mas estou feliz, as coisas materiais não me fazem falta. Não me sinto sozinha, recebo meus amigos, vivo de amor, por isso não fico velha.(Roni Filgueiras, jornal O Globo, caderno Ela, 02/07/2005
MARIA AUGUSTA, UM NOME PARA A HISTÓRIAMaria Augusta não gostou de como “JK”, a minissérie da Rede Globo, conduziu sua personagem. Achou que não tinha absolutamente nada a ver com sua personalidade. Disse que a personagem Maria Alice, vivida por
Mila Moreira, que teria sido inspirada nela, tinha hábitos morais muito duvidosos, embora tivesse sido procurada pela produção da
Rede Globo e dado muitas entrevistas sobre aquela época; sobre sua própria vida e de todas as mais importantes personalidades daquele tempo.

Além da coroa, do manto e do cetro, toda Miss tinha o sorriso de Maria Augusta.
Carmem Sílvia de Barros Ramasco, Miss São Paulo e Miss Brasil 1967, também a teve ao seu lado na vitória. (Foto:
Manchete)
Maria Augusta, depois de ter morado sozinha durante um período na Gávea, estava morando há um ano e meio na casa da amiga
Maria Augusta Morgenroth, escritora, que está escrevendo sua biografia. Estava cega e parcialmente surda.
Anselmo Duarte Jr, seu afilhado, filho de Ilka Soares e
Anselmo Duarte (1920-2009), tem planos de lançar o documentário
A Batuta Mágica, numa referência à bengala que ela usava para treinar as misses.
Martha Vasconcellos, Miss Bahia, Miss Brasil e Miss Universo 1968, teve o apoio de Maria Augusta para o êxito do seu reinado.
(Foto:
Manchete)

Maria Augusta ladeada por
Vera Fischer, Miss Santa Catarina e Miss Brasil 1969, e
Eliane Fialho Thompson, Miss Guanabara e Miss Brasil 1970. (Foto:
Manchete)
Frases de Maria Augusta:
- Fui a fada madrinha de muitas Cinderelas.
- Eu gostaria de viver eternamente.
- Vi moças que mais tarde atrairiam admiração e inveja chegarem a mim desesperadas por não saberem como superar um par de pernas finas, uma pele ruim ou uma timidez doentia.
- Sei que maridos e filhos muitas vezes não sabem das lágrimas e da coragem com que estas mulheres os conquistaram.
- É inútil estabelecer regras para o sucesso.
- Altura, beleza, inteligência não influem, desde que haja força de vontade. O que cria um manequim é a descoberta de seu tipo.
- Cafonice é ir à praia com maquilagem e peruca, é usar solitário com calça Lee, é recusar conselhos e se achar capa da Vogue.
- A Beleza é magnetismo pessoal.
- Twiggy, por exemplo, influenciou as jovens do mundo inteiro e acabou reformulando os padrões.MARIA AUGUSTA, QUEM É ESSA MULHER COM UMA BENGALA NA MÃO? DEUS convocou Maria Augusta Nielsen para uma nova missão em outra dimensão. Seu nome ficou como ícone de uma época. Sua bengala ficou como lenda. Falo aqui de lenda não no sentido de narração deformada por minha imaginação poética, mas de lenda do latim legenda,
“coisas que devem ser lidas”.
No silêncio desta madrugada de novembro de 2009, quando concluo esta matéria, fecho os olhos e me transporto para um Maracanãzinho escuro e vazio. Não há aplausos e nem vaias para as Misses. Apenas batidas no chão e uma mulher com uma bengala.
“- Quem é essa mulher?
- Quem?
- Aquela ali, em pé no palco com uma bengala na mão.
- Bengala, que bengala?”No Maracanãzinho vazio e escuro, só eu vejo Maria Augusta Nielsen e sua bengala. E choro com saudades de um tempo que se foi, para sempre se foi.

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