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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 641, referente ao período de 15 a 21 de outubro de 2017. ***** Editor: Daslan Melo Lima ***** Timbaúba, Pernambuco, Brasil ***** Telefone: (81) 9.9612-0904 (Tim). ***** WhatsApp: +55 81 9.9612.0904 ***** E-mail: daslan@terra.com.br

domingo, 27 de abril de 2008

SESSÃO NOSTALGIA - Misses, as impressões das vivências de Indalécio Wanderley

Daslan Melo Lima






                  Volto aqui a focalizar a figura do cearense Indalécio Wanderley (1928-2001) , o maior fotógrafo brasileiro de Misses. Na semana passada, o motivo da crônica foi o seu casamento com a carioca Elenice Barreto, Miss Clube Militar 1955. Desta vez, resgatei confissões que ele fez na revista O Cruzeiro, de 20/06/1959, em entrevista ao jornalista Ubiratan de Lemos. 

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              A propósito do trabalho fotográfico de Indalécio Wanderley, vale a pena citar o de Gervásio Batista, da Bloch Editores, grupo ao qual pertencia as revistas Manchete e Fatos & FotosO competente Gervásio Batista estava para a Bloch como Indalécio Wanderley estava para O Cruzeiro. A produção de Indalécio Wanderley, no entanto, coloca o mesmo na posição de maior fotógrafo de misses: até março de 1959, ele tinha batido mais de 10.000 chapas , sim, mais de dez mil cliques, para usar o termo atual. Aliás, as milhares de fotos se justificam: O Cruzeiro pertencia aos Diários e Emissoras Associados, empresa promotora do concurso Miss Brasil.


      Com a "rivalidade" entre Indalécio Wanderley e Gervásio Batista, entre O Cruzeiro, Manchete e Fatos & Fotos,  lucravam os missólogos e todos aqueles que religiosamente acompanhavam os certames de beleza. Em muitas ocasiões, as reportagens de Manchete e Fatos & Fotos superavam em quantidade e qualidade as de O Cruzeiro, mas em outras momentos dava-se o contrário. Contudo, o nome de Indalécio Wanderley era uma legenda, e como legenda continua.


 Vamos às perguntas de Ubiratan de Lemos e às respostas de Indalécio Wanderley.

Ubiratan : Miss Brasil, rapaz, deverá falar bem inglês?
Indalécio: Deve, pelo menos, ter noções de inglês. É claro que ela não deverá manejar o idioma bretão como Shakespeare ou Bacon. Deve safar-se com frases feitas, mas corretas. Lembro, a propósito, Maria José Cardoso. Ao enfrentar o Municipal Auditorium, ela largou um "good night" fora de oportunidade. E quase que o Municipal vem abaixo de gargalhadas americanas. Deveria ter dito "good evening", pois ela estava chegando ali.
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Ubiratan :Quais as nossas Misses mais desembaraçadas nos seu "speaches" e na passarela?
Indalécio: Terezinha Morango e Adalgisa Colombo, sem dúvida. Ambas conquistaram a taça do melhor discurso em inglês. Na pasarela, Morango e Colombo também brilharam. Adalgisa um pouco mais. Mostrou maior cancha, haja vista que perdeu por um ponto.
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Ubiratan:Você faria um paralelo entre Martha Rocha e Adalgisa Colombo?
Indalécio: Aproveito esta oportunidade para desmentir uma lenda, seja a de que Martha foi quem mais perto esteve do título de Miss Universo. Esta gloria cabe a Adalgisa, cuja plástica não teve uma só jaça. O ponto que perdeu foi em virtude dos juízes acharem a nossa Miss um pouco afetada: certas gamas de esnobismo. Adalgisa descontraiu-se até demasiado. Fez piadas com o Prefeito de Long Beach, mandando que ele fizesse voltinhas. Ela foi soberana na passarela.
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Ubiratan: O júri de Long Beach tem preferências especiais pelo tipo louro?
Indalécio: É outro engano nosso. Não há preferências quanto a tipos de beleza. O júri é de uma honestidade fria. É um juri cronométrico, impessoal. A Miss vencedora é sempre a mais bela.
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Ubiratan: E o caso da altura?
Indalécio: Christiane Martel (França) foi Miss Univero com 1 metro e 58. Apenas porque apresentava proporções excepcionais, mesmo sendo uma mulher baixa. Mas só venceu porque não existia outra candidata, alta, com proporções semelhantes à de Christiane. Em igualdade de condições, o júri penderá para a alta, certamente.
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Ubiratan: Qual a maneira de julgar em Long Beach?
Indalécio : O júri tem 8 dias de contato com as Misses. Observa-as na piscina, nos jantares, cocktails , almoços e passeios. É uma obervação demorada e criteriosa. Entretanto, o preto no branco é quando as moças são colocadas de frente, de costas e de lado, em relação aos membros do júri. É da análise do conjunto das misses, umas ao lado das outras, que "salta" a Miss Universo. O termo "salta" pertence a Alberto Varga, membro vitalício do júri, ex-desenhista das garotas do "Squire", peruano de nascimento.
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Ubiratan: Você poderia explicar isto melhor?
Indalécio: Repetirei o que Varga me disse, quando lhe formulei uma pergunta, nesse sentido. Quem tem sensibilidade e bom gosto, em matéria de beleza feminina, percebe que sempre a mais bela (proporcional) dá um simbólico " passo à frente" do seu grupo. Este método de Varga eu o experimentei com sucesso. Assim tenho antecipado Misses e finalistas, com grande proveito para as minhas reportagens, quer no Brasil, quer em Long Beach.

     Finalizando a entrevista, Indalécio Wanderley citou o fato mais pitoresco que tinha presenciado em Long Beach.
Aconteceu com Maria José Cardoso, em New York, quando a bela gaúcha desfilava nas Lojas Macys. A faixa verde-amarela, de porta-bandeira, escorregou do busto da Miss. A roseta, enorme, deslocou-se demasiadamente. Foi quando o cômico Jerry Lewis exclamou: " What does that kind of meses on her back? "

     Nas duas fotos que ilustram esta matéria, extraídas do mesmo exemplar de O Cruzeiro, de 20/06/1959, de onde transcrevi a entrevista acima, vemos Indalécio Wanderley orientando a postura de um grupo de Misses de 1959, durante um ensaio fotográfico.

     " O que faz esse tipo de confusão sobre a sua volta? ". O espanto de Jerry Lewis faz parte do passado. Mas será que faz mesmo parte do passado ? Eu diria que não. Faz parte do presente. O hoje, em nossas vidas e no planeta Terra, é uma consequência do ontem, com todos os seus encontros e desencontros.

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domingo, 20 de abril de 2008

SESSÃO NOSTALGIA - ELENICE BARRETO E INDALÉCIO WANDERLEY, A HISTÓRIA DE AMOR DA MISS CLUBE MILITAR 1955 COM O REPÓRTER DA REVISTA " O CRUZEIRO "


Daslan Melo Lima

      O cearense Indalécio Wanderley, nascido em 02/06/1928 e falecido em 18/02/2001, foi um dos maiores repórteres fotográficos do Brasil. Fez coberturas de memoráveis acontecimentos nacionais e internacionais para a revista O CRUZEIRO. Adorava o que fazia e levava uma vida muito agitada, por conta da sua profissão. Certo dia, o jornalista José Alberto Gueiros perguntou a Indalécio: “Quando vais posar? Quando serás o fotografado e não o fotógrafo? Quando vai a tua mão servir para aliança e não apenas para disparar a objetiva?“ Apressado, Indalécio respondeu que nunca se casaria, pois não tinha tempo.
     Em todas as matérias sobre os concursos de Misses das revistas O CRUZEIRO, dos anos 50 e 60, o nome de Indalécio Wanderley consta nos créditos. Foi o brasileiro que mais fotografou concursos de misses. Em 1955, com a sua máquina fotográfica “Leica”, lente 1:5 , Indalécio Wanderley foi ao Quitandinha, fotografar umas garotas que iam disputar o título de Miss Clube Militar. Assim escreveu José Alberto Gueiros, em O CRUZEIRO, de 05/05/1956:

Palco cheio de garotas bonitas. Muita luz de refletores, muitos sorrisos fotogênicos, e um especial autêntico, dengoso, cheio de mistério. O sorriso que atraiu não apenas o olho profissional de Indalécio – que é a lente 1:5 da sua “Leica” – mas também a alma do cearense romântico ainda sem Iracema, de lenda ou de verdade. Elenice Barreto era a dona do sorriso. Pois fiquem certos de que o nosso caro Wanderley capitulou nos primeiros dez minutos. Ela foi eleita Miss Clube Militar, saiu nos jornais, nas revistas e não saiu do coração do repórter. Pouco tempo depois o dinâmico cearense, com a máquina a tiracolo, pedia a moça em casamento. A Miss amava o repórter. O repórter amava a Miss. Era uma reportagem que se transformava em história de amor.

     Indalécio Wanderley e Elenice Barreto casaram na Igreja de São Paulo Apóstolo, no Rio de Janeiro, no dia 28/01/1956, em cerimônia religiosa com efeito civil oficializada pelo Bispo D. José Vicente Távora (1910-1970). O então poderoso jornalista Assis Chateaubriand (1892-1968) fez questão de comparecer ao casamento. 
       A revista O CRUZEIRO, em sua edição de 05/05/1956, colocou a foto da noiva na capa, deixando de lado, nada mais, nada menos, a atriz Grace Kelly (1929-1982). Explicando melhor: Grace Kelly tinha se casado com o Príncipe Rainier (1923-2005). A revista publicou 14 páginas sobre o assunto, mas não deu a capa aos soberanos de Mônaco, celebridades internacionais. O casamento de Elenice Barreto e Indalécio Wanderley rendeu apenas 3 páginas , mas quem estava na capa de O CRUZEIRO, feliz e sorridente era Elenice Barreto, Miss Clube Militar 1955, a loura carioca que conquistou o cearense Indalécio Wanderley, um ícone da história da fotografia brasileira.

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domingo, 13 de abril de 2008

SESSÃO NOSTALGIA, Aizita Nascimento, Miss Clube Renascença 1963

Aizita Nascimento
              
               Rio de Janeiro, Maracanãzinho, junho de 1963. Entre mais de duas dezenas de concorrentes, oito jovens lindas foram anunciadas como finalistas do concurso Miss Guanabara 1963 : Aizita Nascimento, Lea Soares, Eliane Silveira, Vera Lúcia Maia, Vilma Thomaz Pereira, Maria da Penha Cotrim, Cecília Rangel e Sônia Madeira de Lei. Um público estimado em 25 mil pessoas, isso mesmo, 25 mil pessoas , queria o título para Aizita Nascimento, Miss Clube Renascença, e grita em uníssono, como se tivesse ensaiado, QUEREMOS A MULATA ! QUEREMOS A MULATA ! QUEREMOS A MULATA ! Para os jornalistas presentes ao evento, aquele foi o mais emocionante concurso já visto até então no Maracanãzinho. Vera Lúcia Maia, Miss Fluminense , e Eliane Silveira, Miss Clube Riachuelo, ambas com 50 pontos, empataram para o primeiro lugar. No desempate, venceu Vera Lúcia Maia. Quando o resultado foi anunciado , inexplicavelmente, o sexto lugar foi dado a Aizita Nascimento. Gritos. Vaias. Assovios. Ninguém se conformou e as 25 mil pessoas continuaram gritando QUEREMOS A MULATA !

               Vera Lúcia Maia, Miss Fluminense, vencedora do Miss Guanabara 1963,  era uma  morena de 1,72 de altura, 58 Kg, 92 cm de busto, 60 de cintura e 93 de quadris, além de 59 de coxa e 22 cm de tornozelo. Sim, naquele tempo a fita métrica abrangia também coxas e tornozelos. Ela freqüentava a Praia do Arpoador, no ponto próximo ao famoso Castelinho, onde se reunia a juventude sofisticada de Ipanema e tinha uma mãe famosa, a cantora Nora Ney (1922-2003), Vera foi a terceira colocada no Miss Brasil e semifinalista no Miss Mundo 1963. 

              Aizita Nascimento, Miss Clube Renascença, era uma jovem simples. Depois do concurso, com talento e carisma, ingressou na televisão e participou de excelentes programas musicais e humorísticos, além de ter gravado um disco. Aizita Nascimento foi a percussora de grandes misses negras que marcaram o Miss Guanabara: Vera Lúcia Couto Santos, Miss Clube Renascença, Miss GB, vice-Miss Brasil e terceira colocada no Miss Beleza Internacional 1964; Maria da Conceição e Silva, a Marina Montini (1948-2006) , Rainha Mulata do IV Centenário do Rio de Janeiro (1965);  Miss Grêmio Recreativo Cacique de Ramos, finalista do Miss GB 1966;  Elizabeth Santos, Miss Clube Renascença, terceira colocada no Miss GB 1966.

               Henrique Pongetti (1898 - 1979), autor de peças teatrais comercialmente bem-sucedidas,  publicou na revista Manchete, de 06/07/1963, uma crônica com o título de QUEREMOS A MULATA. Quarenta e cinco anos depois, vale a pena mergulhar e refletir no primoroso texto de Henrque Pongetti, que abaixo transcrevo, na íntegra. Ele fala do drama de quem é jurado de um concurso de beleza, de biótipos, do gosto popular...

Como quase todo mundo sabe, fiz parte dos olheiros que escolheram a Miss Guanabara deste ano. Doce tarefa! Sobretudo muito melhor do que fazer parte do júri para eleger um daqueles gigantes bolotudos, de músculos pulando fora do corpo, tipo Mister Universo, nos quais a robustez chega a parecer um abuso contra a natureza, e dos quais as próprias mães que os tiveram pequeninos, iguais aos outros, devem levar constantes sustos.

Mas se doce é a tarefa, nem por isso deixa de ser difícil. Entre seis mulheres de uma beleza equivalente, você, juiz, fica num drama de consciência terrível. Tem vontade de escrever o nome delas em papelinhos e de fazer o sorteio. Saiu a Riachuelo no lugar da Flamengo? Ou a Madureira no lugar da Fluminense ? Quem manda não haver uma esmagadoramente bela para ganhar à primeira vista e deixar sem sentimento de culpa o júri e sem pretexto de vaias a torcida?

Acresce que a beleza, para a maioria do povo, não obedece a cânones: é uma opinião, ou melhor dizendo, uma sensação. Se tiver quadris bem roliços, se estiver mais para a tanajura do que para a Miss Universo, ganhará aplausos frenéticos ao longo de toda a passarela. O público não quer Donas Estátuas: quer Donas Boas.

É issso mesmo, meu amigos. Eu sou um esteta., vi de perto a Vênus de Milo, estou em excelentes relações com Fídias e outros “ cobras” da estatuária, sei de cor as medidas julgadas ideais para um corpo feminino, tomei banho de sol com as mais certinhas de Saint-Tropez e de Portofino, mas o homem da arquibancada do Maracanãzinho não tem nada com isso. Se eu aprovo a cara, ele aprova a coroa. Jogamos com a mesma moeda de forma inconciliável: numa face a minha Vênus, na outra face a sua alucinante tanajura.

- É bonita, não resta dúvida, mas repare como é defeituosa de quadris.
- Defeituosa? O senhor acha defeito aquela generosidade de Deus? Então viva o defeito e fique com aquelas achatadas, aquelas tábuas de passar a ferro!
- Um momento: o senhor conhece os cânones da beleza mulata?

Havia uma mulata do Renascença Clube na passarela do Maracanãzinho. Uma cara bonita, com um sorriso desses que dão vontade de pegar a mulher no colo e sair com ela sorrindo entre filas de angustiados e de vencidos. Um sorriso para cartazes de campanhas contra a depressão, pró planos trienais, ou muito mais. Contagioso, sedativo, euforizante. Eu votei nela para uma das oito finalistas. Pelo seu sorriso, pela sua maneira de olhar deixando mel na menina dos olhos da gente, pela sua humanidade em não se sentir diferente das outras vinte e três por ter a pele mais escura.

Não poderia vencer o primeiro lugar porque havia outras de corpo mas bem feito e de rosto igualmente bonito, e certamente mais harmonioso. Era um pouco baixa e pecava também por aquele excesso característico da acima referida espécie de formigas. Que pensava o povo a respeito?

Ora, o povo! O povo acabou, como sempre, que num caso desses, antes tanajura do que tábua de passar a ferro, e esquecendo seus clubes e suas candidatas passou a pedir em coro o primeiro lugar para ela: - Queremos a mulata ! Queremos a mulata! Queremos a mulata!

Tem, havido vários queremos na história deste país, inclusive o queremos Vargas, mas queremos, assim, inflamado e imperativo, duvi-d-o-do. Era o grito do instinto, do sangue, e, em o percebendo, a mulata cada vez apurava mais o dengo e o ritmo do molejo, aumentando atrás de si as palmas que conquistara à sua frente, gloriosa na cara e ultra gloriosa na coroa.

Ah, meu caro Embaixador Lincoln Gordon ! Que pena não estar ao meu lado, na mesa julgadora, um daqueles racistas ferozes dos Estados Unidos do Sul do seu país, para ver a escurinha vencendo vinte três brancas diante do júri extra-oficial de uns quinze mil homens, quase todos brancos! De toda aquela noite eu não guardo tanto a silhueta esportiva da filha de Nora Ney, a vencedora, como guardo o sorriso da mulatinha, símbolo do nosso anti-racismo. Da nossa cristianidade igualitária. E em verdade vos digo que, nesta terra de gente igual pela alma, e não pela pele, a humanidade verá um dia ser proclamada mais bela do mundo uma negra cor de ébano ou uma mulata cor de canela. A musa de um Ataulfo, a musa de um Jamelão, pela vontade de Deus.

               Releiam o último parágrafo da crônica de Henrique Pongetti . Ele morreu em 1979, mas antes disso, teve a satisfação de ver uma linda negra ser coroada Miss Universo, Janelle Penny Commissiong, Miss Trinidad Tobago 1997. É uma pena que no Brasil, país com milhares de belíssimos afrodescendentes, quase ninguém encontra “Aizitas “ nas passarelas dos nossos concursos de beleza. Por quê? Vamos entrar no túnel do tempo. Vamos perguntar àquelas 25 mil pessoas que torciam por Aizita Nascimento. Elas sabem a resposta e continuam gritando: QUEREMOS A MULATA! QUEREMOS A MULATA! QUEREMOS A MULATA! 

Aizita Nascimento - Foto: revista O Cruzeiro


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domingo, 6 de abril de 2008

SESSÃO NOSTALGIA - LINÉIA DE SOUZA CAMPOS , MISS ESPÍRITO SANTO 1959

Daslan Melo Lima


Linéia de Souza Campos 
Miss Espírito Santos 1959
      Passava da meia-noite do sábado, 20/06/1959. Centenas de pessoas deixavam o Maracanãzinho satisfeitas com o resultado do concurso Miss Brasil 1959. A eleita tinha sido Vera Regina Ribeiro, Miss Distrito Federal, que depois, em Long Beach , ficaria em um honroso quinto lugar no concurso Miss Universo, titulo conquistado pela japonesa Akiko Kojima. No entanto, outras centenas não estavam satisfeitas, queriam que a vitoriosa tivesse sido Dione Brito de Oliveira, Miss Pernambuco, segunda colocada. E muitos ficaram sem entender a inclusão de Terezinha Rodrigues, Miss São Paulo, entre as cinco finalistas, enquanto Martha Garcia, Miss Brasília, e Linéia de Souza Campos, Miss Espírito Santo, tinham ficado de fora.

      Nos bastidores, Maria Euthymia Manso Dias, Miss Bahia , com classe e tranquilidade, irradiava felicidade, pelo terceiro lugar que não esperava. Que bom, meu Deus ! exclamava emocionada. Schirley Tempski, Miss Paraná, repetia MARMELADA ! MARMELADA! , insatisfeita com o veredicto do júri, enquanto era impedida pelas suas companheiras de voltar à passarela trajando uma "cinturita" para ressaltar suas formas. Martha Garcia, a primeira Miss Brasília, estava inconformada, pois achava que o segundo lugar deveria ter sido seu e não acreditava como Linéia de Souza Campos, Miss Espírito Santo, não tinha ficado entre as cinco finalistas.

      E foi naquele clima tenso dos bastidores do Maracanãzinho que uma das Misses teve a idéia de promover a eleição de quem deveria ter sido eleita Miss Brasil. Munidas de papel e caneta , as 25 candidatas deram o seu voto. Feita a apuração , a vencedora foi Linéia de Souza Campos, Miss Espírito Santo. Apareceu , não se sabe como , uma faixa de Miss Brasil. Transformaram uma caixa plástica de bombons em coroa e a Miss Espírito Santo recebeu a "faixa" e a "coroa" de Miss Brasil 1959.

      Linéia de Souza Campos tinha 20 anos de idade e era professora do curso primário na sua terra natal , Guaçui, uma cidadezinha situada a 148 Km de distância de Vitória. Concorreu ao Miss Espírito Santo como Miss Clube Saldanha da Gama. Linéia, mais um nome na história das injustiçadas do Miss Brasil,declarou à revista QUERIDA :

Eu teria elegido Dione Brito de Oliveira, Miss Pernambuco, ao meu ver, a mais bonita. Tem graça , elegância, uma perfeita representante da mulher brasileira. Se valeu a pena ser Miss ? Valeu. Os passeios proporcionados pelo concurso são maravilhosos. Tive ótimos contatos com a imprensa. Adorei! Gostei muito, mesmo, dos jornalistas, são pessoas muito boas e finas. Se pudesse, voltaria a me candidatar de novo. Não lastimo nada.
Vou voltar para a minha terra Guaçui. Tenho muitas saudades. Desde que fui eleita Miss ES, não voltei lá. Penso reassumir minhas aulas em agosto. Bem que deveria fazer vários passeios em todos os estados, mas isto depende da licença do secretario da educação . De qualquer maneira, pretendo colaborar na campanha em favor da velhice desamparada, da Associação Luiza de Marillac.
O que mais me emocionou foi ter sido escolhida Miss Brasil pelas minhas colegas! Nunca teria sonhado ser tão bem recebida por todas elas. Esta coroa de matéria plástica que me deram foi a minha verdadeira coroa, a mais valiosa das coroas!

      Quarenta e nove depois, em algum lugar do Espírito Santo ou desse imenso Brasil , Linéia, acima , em foto da revista MANCHETE, talvez vá acompanhar o concurso Miss Brasil 2008, domingo, 13 de abril, pela TV Bandeirantes , e torcer por sua conterrânea Francis Riquete. Talvez. Não sei. De uma coisa sei, ela ainda deve se emocionar ao se lembrar daquele junho de 1959, quando foi "coroada" Miss Brasil por suas colegas. Talvez ainda conserve aquela coroa improvisada com uma caixa de bombons. Talvez. Não sei. Mas com certeza, em seus ouvidos ainda ecoam as vozes de centenas de pessoas gritando INJUSTIÇA ! MARMELADA! , inconformadas por não vê-la entre as cinco finalistas do Miss Brasil 1959.
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      Ao tomar conhecimento desta crônica, Marcos, um missólogo do Espírito Santo, deixou a seguinte mensagem no site www.voy.com/185349/ : Estou superfeliz com esta notícia. Linéia é casada com um médico de grande prestígio profissional, tem uma família linda constituída de filhos e netos. O tempo passou e ampliou seu carisma, sua delicadeza no trato com as pessoas. vive em Campos/RJ e é uma das mais atuantes senhoras da sociedade local sempre envolvida com a filantropia. Se você tiver mais material sobre esta querida e linda Miss ES 59, brinde--nos mais uma vez com outras informações. Sou fã número de Linéia e de sua família. Saibam todos que Deus lhe reservou uma vida digna e socialmente comprometida e um casamento com um jovem médico, muito bem apessoado, hoje um bem sucedido fazendeiro, ambos muitos estimados no norte fluminense e no sul capixaba. Parabéns por sua postagem.
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