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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ NO BLOG PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 741, referente ao período de 1º a 07 de março de 2019. ***** Editor: Daslan Melo Lima - Timbaúba, Pernambuco, Brasil. ***** Contatos : (81) 9-9612.0904 (Tim / WhatsApp). E-mail: daslan@terra.com.br

domingo, 31 de março de 2019

Como está verde meu vale



A minha rua termina onde começa uma paisagem exibindo uma casa simples e algumas das serras que circundam a cidade. 

           O verde exuberante, sob nuvens ora claras, ora cinzas, parece agradecer a Deus as chuvas de março de São José e das águas fechando o verão.
      Fecho os olhos e dou minhas mãos a anjos invisíveis que evocam lembranças de um filme de John Ford, "Como era verde meu vale", ganhador de várias estatuetas do Oscar, baseado no livro homônimo de Richard Llewellyn.
     A minha rua termina onde a natureza generosa parece perdoar, momentaneamente, as agressões sofridas. Meu vale não é verde. Meu vale está verde.
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Daslan Melo Lima

Timbaúba, Pernambuco, 30/03/2019
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Civilidade


Enquanto a chuva lá fora cai, observo o carinho existente entre minha gata "Miss Terra", 6 anos, e o meu cachorro "Nikita", 8 meses de idade. Ela vira o rosto para receber um beijo e ele se estende para beijá-la longamente. 

         Apesar das diferenças, ele e ela se respeitam. Vale a pena refletir ao chamarmos alguém de "animal". Educada, "Miss Terra" jamais deixaria de "falar" com "Nikita" por alguma divergência qualquer, e vice-versa. Um exemplo de civilidade.
      Enquanto a chuva lá fora cai, minh'alma se banha do carinho que transborda entre minha gata e meu cachorro.
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Aos amigos e amigas que ainda tratam "Nikita" como "menina" (risos) lembro que, apesar de soar feminino em nossa cultura, Nikita é um nome masculino russo.
Daslan Melo Lima
No terraço da minha casa. Timbaúba, Pernambuco, 26/03/2019
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Este lixo é meu



Tentei descartar dezenas de filmes em fitas VHS. Não tive coragem, embora sabendo que posso adquirir todos eles em dvd ou assisti-los pela internet.
      Mesmo assim, coloquei alguns numa caixa para o carro de coleta de lixo recolher. Fiquei observando o meu cachorro dar voltas pelo volume. Imaginei que estava captando cenas de filmes inesquecíveis. Deve ter pensado: "Como ele tem ousadia de se desfazer disto?" 
      Na hora em que o carro ia passando, um gari pediu a caixa. Agradeci e disse: "Não estou preparado para me livrar de pérolas como Adios Gringo e Adeus Meninos." Sem entender nada do que falei, lá se foi ele apanhar outros lixos da vizinhança.
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Daslan Melo Lima 
Timbaúba, Pernambuco, 25/03/2019

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DE TIMBAÚBA PARA O MUNDO - Ecos do Carnaval de 2019 (1)

UM FREVO N'ALMA


Antes de os relógios marcarem os primeiros minutos da quarta-feira de cinzas, dei adeus a mais um Carnaval. Ele vai compor a sinfonia de uma folia imaginária da qual faz parte outros Carnavais, os vividos por mim e os que deixei de viver.
Ficou um Frevo n'alma que poderia ter sido cantado em outro tom, e em outro passo dançado.

Ficou um Frevo n'alma, eternamente inacabado, até que o destino possa dizer que esteja acabado.
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Daslan Melo Lima
Praça do Centenário, Timbaúba, Pernambuco, 05/03/2019 

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CARNAVAL NA RUA DAS FLORES


Poucas casas restaram no foco da área conhecida como “cabaré de Timbaúba”. Em uma delas, um imóvel muito simples de porta e janela, onde funciona uma borracharia, podemos enxergar uma placa marcada pelo tempo: Rua das Flores. 
        Sim, ali realmente viveram flores raras. Jovens discriminadas pelos costumes de um tempo que se foi. Um namoro mais ousado, a pureza perdida, uma gravidez indesejada... Aí estavam os ingredientes de uma tragédia familiar. E quase sempre a mocinha era expulsa de casa e acabava nas pensões mal iluminadas cheirando a álcool e cigarro, a fim de exercer a profissão rotulada por algumas culturas como a mais antiga do mundo. Ainda bem que algumas ganhavam a sorte grande: arrumavam amantes ricos e se tornavam madames. 

        De alguma forma, todo ano tinha Carnaval. Época de receberem os aplausos na avenida com suas vestes coloridas e rostos exageradamente maquiados. Não se espante se passar neste Carnaval pela Rua das Flores e encontrar um bloco sem som, sem risos, sem bebidas... O Carnaval das mulheres “perdidas” de ontem virou um festival de fantasmas em preto e branco.

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Daslan Melo Lima - Terça-feira de Carnaval em Timbaúba, Pernambuco, 05/03/2019 

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PARA UMA SEGUNDA-FEIRA DE CARNAVAL 


Gosto da chuva e do sol se revezando na folia. Gosto do silêncio, entre um bloco e outro, e da presença da poesia. 
        Abraço o instante administrando emoções inacabadas de velhos carnavais vividos e não vividos.
     Minh'alma até se surpreende, quando ouso declamar versos de Omar Khayyam carregados de hedonismo: 

Ah, aproveitar ao máximo o que ainda nos resta, 
Antes de voltarmos ao pó;
Pó que se transforma em pó e, sob o pó, jazer,
Sem vinho, sem canções, sem cantores e sem fim.
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Daslan Melo Lima
Praça Carlos Lyra, Timbaúba, Pernambuco, 04/03/2019


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FALTOU ROMY SCHNEIDER 


Um imenso e velho casarão da Rua Imperial, decorado com peças que remetiam a um Castelo, foi o cenário do camarote Spettus, onde assisti ao desfile do Galo da Madrugada. 
        Romântico incorrigível que sou, imaginei uma festa temática no local. Nela eu dançaria uma valsa com Romy Schneider, a inesquecível Sissi dos filmes que encantaram o menino alagoano de São José da Laje que um dia eu fui. 
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Daslan Melo Lima, sábado de Carnaval no Recife, Pernambuco, 02/03/2019
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SESSÃO NOSTALGIA – Suzy Rêgo, Miss Pernambuco 1984, dá o sangue nordestino

Daslan Melo Lima

         
          Faz cinco dias. Eu estava no centro de Timbaúba, Pernambuco, quando começou a cair uma chuva. Um forte aguaceiro daqueles de março de São José e das águas fechando o verão.  Corri para a única banca de revistas. Foi aí que os meus  olhos despertaram para Piauí, uma revista de formato grande, igual às Manchete e Fatos & Fotos que marcaram época, com chamadas na capa de assuntos culturais e políticos.  Abri a publicação aleatoriamente e fiquei surpreso ao encontrar uma propaganda de página inteira do Pró Sangue  Hemocentro de São Paulo com a atriz Suzy Rêgo

Suzi Rêgo dá o sangue - Tem 30 anos de carreira como atriz - Em 1984, foi eleita a segunda mulher mais linda do Brasil - Já doou sangue mais de 50 vezes - Quem doa o sangue merece ser reconhecido -  Doe - PRÓ SANGUE HEMOCENTRO DE SÃO PAULO - PRÓ SANGUE.SP.GOV.BR
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Piauí, Editora Alvinegra, impressa pela Divisão Gráfica da Editora Abril

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Suzy Rêgo, sangue nordestino

Suzy Rêgo
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          Faz cinco dias. Viajei no "túnel do tempo" para aquela noite de 17 de maio de 1985, no Ginásio da Faculdade de Filosofia de Caruaru, quando  Simone Augusto foi eleita Miss Pernambuco 1985. Foi lá que conheci sua antecessora, Suzy Sheila Rêgo, estudante de Psicologia da Fafire, Faculdade de Filosofia do Recife, Miss Pernambuco, segunda colocada no Miss Brasil 1984. Ganhei de Suzy um abraço, um beijo e um autógrafo. Hoje seria um abraço, um beijo e uma "selfie".
             Nascida no Rio de Janeiro, onde os pais moravam na época do seu nascimento, Suzy Rêgo, também segundo lugar no Miss Brasil Mundo 1984, tem sangue nordestino. Massilon Rêgo, seu pai, Oficial aposentado da Marinha, é potiguar, assim como Antonia Diva Rêgo, sua mãe. Ele natural de Itaú e ela de Mossoró, cidades do Rio Grande do Norte. Ambos continuam morando no Recife, enquanto Suzy Rego está radicada há muitos anos em São Paulo, SP. 

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           Faz mais de trinta anos que não vejo Suzy Rego, desde aquele maio de 1985. Para ela, atriz; esposa do ator Fernando Vieira; mãe  dos gêmeos Marco e Massimo; gente fina que se orgulha de suas raízes; sempre disposta a colaborar com campanhas humanitárias; o meu abraço, em nome da chuva pernambucana que lá fora cai, copiosamente cai.   
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domingo, 24 de março de 2019

Porque eu canto


"Diz-me, ó poeta", poema de Rainer Maria Rilke, tem tudo a ver comigo neste março de São José e das águas fechando o verão. 
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Diz-me, poeta, o que fazes?
Eu canto.

Porém a morte e todo o desencanto,
como os suportas e aceitas? 
Eu canto.

O inominado e o anônimo, no entanto,
como os consegues nomear? 
Eu canto.

Que direito te faz, em qualquer canto,
máscara ou veste, ser veraz? 
Eu canto.

Como o silêncio dos astros e o espanto
dos raios te conhecem?
Porque eu canto.
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Porque eu canto, desejo a você, leitor, leitora, muita fé em Deus e dias iluminados,  poeticamente e espiritualmente iluminados.
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Daslan Melo Lima - Timbaúba, PE, 18/03/2019
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VOCÊ SABE QUE DIA É HOJE?




Vejo chegar este dia com minh'alma transbordante de nostalgia. Longe do lugar onde nascemos, quando chegava o dia 19 de março, Ana, minha Mãe, se aproximava de mim e indagava: “Você sabe que dia é hoje, meu filho? É dia de São José, padroeiro da nossa terra”
          Seus olhos ficavam inundados de lágrimas e ela cantarolava o estribilho do hino do padroeiro da nossa alagoana São José da Laje: “Sê doçura na paz, no abandono, / o amigo fiel de verdade. / Oh! José da Igreja patrono, / e patrono da nossa cidade.” 
          Durante o longo período em que Mamãe conviveu com sequelas de um AVC, todos os anos, no dia 19 de março, eu me dirigia a ela com uma imagem do santo: “A senhora sabe que dia é hoje, minha Mãe?” Eu chorava diante de sua indiferença e cantava: “Sê doçura na paz, no abandono, / o amigo fiel de verdade. / Oh! José da Igreja patrono, / e patrono da nossa cidade.” 
         Hoje, diante de dois quadros na parede, resta-me administrar as emoções que ficaram de todos os meses de março.
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Daslan Melo Lima, em Timbaúba, Pernambuco, no Dia de São José, 19/03/2019.

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SÃO JOSÉ DA LAJE, ALAGOAS,  14 DE MARÇO DE 1969, UMA MADRUGADA PARA ESQUECER


Na madrugada de 14 de março de 1969, o rio Canhoto cismou que poderia ser mar. São José da Laje, a cidadezinha alagoana onde nasci, dormia tranquila quando uma tromba d’água transformou o rio num oceano furioso. Gritos, desespero, pânico, lágrimas, destruição. Tal qual um tsunami, casas, ruas e vidas foram arrastadas pelas águas. .A tragédia, um dos maiores desastres naturais da história, foi notícia no mundo inteiro. . 
          Nesta madrugada de 14 de março de 2019, cumpro um ritual silencioso diante de duas testemunhas mudas daquele pesadelo: um quadro e um banco que escaparam da tragédia. 
          O quadro, um vitral onde se lê “Jesus Cristo reina n’esta casa”, pertenceu a minha tia Lizete Macedo de Melo, que residia na rua do Zumbi, imediações da localidade Passagem de Maceió. O banco fez parte do mobiliário da Loja São José, casa comercial de José Francisco da Silva (Galego) e da sua esposa Soledade Lima (tia Dade).
          Diante destas relíquias, não rezo pelas almas dos que se foram, pois na dimensão onde se encontram suas dores já se diluíram em louvores. Agradeço a DEUS pelo consolo dado aos que escaparam e pela força que até aqui Ele nos concedeu para administrar os traumas que ficaram. 

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Daslan Melo Lima, em Timbaúba-PE, 14/03/2019, administrando velhas emoções inacabadas, cinquenta anos depois.

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DA PRÓXIMA VEZ QUE CHOVER



"Olho para a chuva que não quer cessar. / Nela vejo o meu amor. / Esta chuva ingrata que não vai parar, / pra aliviar a minha dor." Assim começa uma das mais belas canções românticas de todos os tempos, gravada pela primeira vez em português por Demétrius, um dos ídolos da Jovem Guarda, falecido no inicio desta noite, em São Paulo. 
          O menino sonhador que um dia fui (e que continuou sendo) teceu mil fantasias ao som de "O Ritmo da Chuva". "Eu sei que o meu amor pra muito longe foi, / numa chuva que caiu. / Oh gente por favor pra ela vai contar / que o meu coração se partiu."
          A imagem de Demétrius, num velho álbum em preto e branco, parece dizer que o tempo não passou. "Chuva traga o meu benzinho, / pois preciso de carinho. / Diga a ela pra não me deixar triste assim."

          Da próxima vez que chover, vou precisar redobrar a administração das minhas emoções inacabadas. O mundo encolhe toda vez que um referencial importante das nossas vidas se parte, se vai, se torna invisível. "O ritmo dos pingos ao cair no chão, / só me deixa relembrar. / Tomara que eu não fique a esperar em vão, / por ela que me faz chorar. / Oh chuva traga o meu amor. / Chove chuva, traga o meu amor. / Ouça-me, chuva, traga por favor."
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Daslan Melo Lima, em Timbaúba, Pernambuco, 11/03/2019, enquanto ouço "O Ritmo da Chuva", https://www.youtube.com/watch…

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LEÃO DO NORTE




O feriado da Data Magna de Pernambuco coincidiu com a Quarta-feira de Cinzas. A Data Magna remete à Revolução Pernambucana de 1817, cujo objetivo era ficar independente da corte portuguesa. 

          Na cidade de Carpina, a 50 quilômetros de Timbaúba, diante do monumento que rende tributo ao "Leão do Norte", como é conhecido o meu estado adotivo, sinto-me tão pernambucano como alagoano, pois um dos castigos impostos a Pernambuco foi perder as terras de Alagoas, estado onde nasci.
        Parece que ouço ao longe aquela música de Lenine. Tenho de me controlar para não sair dançando e cantando pelas ruas de Carpina, que um dia se chamou Floresta dos Leões: "... eu sou mameluco, sou de Casa Forte, / sou de Pernambuco, eu sou o Leão do Norte..." 
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Daslan Melo Lima - Carpina, PE, 18/03/2019.

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DE TIMBAÚBA PARA O MUINDO - De olho no dia a dia


PASSAGEM EM MARÇO


No Carnaval do ano passado, ele chegou na praça com seu porte altivo e sereno, trazendo na cabeça um arranjo verde e amarelo. Pedi para fotografá-lo sem saber que seria a primeira e última foto que faria do senhor Plácido Alexandre de Albuquerque, um dos moradores mais antigos do meu bairro.

          Há meses acometido de uma enfermidade grave, ele não teve ânimo para apreciar o carnaval deste ano. "Seu" Placinho partiu para a Grande Viagem na madrugada deste sábado de março de São José e das águas fechando o verão. 

          Para minhas amigas Patricia, Paula, Polyne e Pollyana, frutos do amor incondicional da inesquecivel Iraci por Plácido, os meus sentimentos e a certeza de que a existência segue e se renova envolta nos mistérios da vida e da morte. 

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Daslan Melo Lima, março de São José, em Timbaubinha, Timbaúba, Pernambuco, 23/03/2019.

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DILEMA LUNAR


Não sei se a Lua deseja descer para cheirar as flores ou se as flores desejam subir para abraçar a Lua. Talvez a Lua esteja cansada de desfilar solitária, soberana, majestosa e nua. Talvez as flores estejam cansadas de serem usadas para enfeitar a vida e a morte. 
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Daslan Melo Lima, após pausa para fotografar a Lua na Rua Zulmira de A. Borba, bairro de Timbaubinha, Timbaúba, Pernambuco, 20/03/2019.
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C'EST LA VIE





Ontem à tarde, acompanhei o cortejo fúnebre de dona Marina, 90 anos de idade, mãe do meu amigo Severino Joaquim, à esquerda. Nesta noite de sábado, no Imperial Buffet, em Itabaiana, Paraíba, encontrei Joaquim na festinha de aniversário de um ano de vida de Maria Laura, filha do nosso amigo Márcio Apolinário, à direita.

          Um amigo e sua dose de melancolia, diante da Grande Viagem de um ser amado que foi cumprir uma nova missão em outra dimensão. Um outro amigo com sua dose de alegria, diante de um ser amado com uma estrada ainda a percorrer. 

        Vem na minha mente uma expressão famosa que gosto muito: "C'est la vie." Assim é a vida, dizem os franceses. 

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Daslan Melo Lima, meditando sobre os mistérios da vida e da morte, em Timbaúba, Pernambuco, 16/03/2019.
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E POR FALAR EM CULTURA



Após a solenidade de posse da diretoria da subseccional da OAB-PE em Timbaúba, pausa para uma foto. Eu (presidente da Comissão de Cultura), Antônio Apolinário (presidente da subseccional) e Jefferson Leal, ( vice-presidente da Funjader, Fundação Jader de Andrade).

       O assunto é complicado, quando se fala em cultura neste planeta conturbado, pois o Ser, na maioria das vezes, é relegado a segundo plano, em nome do Ter.

     Uma citação de Wiil Durant (1885-1981) filósofo, historiador e escritor estadunidense, permanece atemporal: "Os homens estão mil vezes mais preocupados em ficarem ricos do que adquirirem cultura, embora seja inteiramente certo que aquilo que um homem é contribui mais para sua felicidade do que aquilo que ele tem."
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Daslan Melo Lima, na Câmara Municipal de Vereadores de Timbaúba, PE, 13/03/2019.

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ADEUS, "EMBAIXADOR DO SENEGAL" 



O ano era 1995. Eu trabalhava na agência do BNB, Banco do Nordeste do Brasil, e, na condição de Agente de Desenvolvimento da instituição, acompanhava uma delegação da ONU que tinha vindo de New York para conhecer algumas ações do banco e do PNUD, Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, na região. 
          Ao chegarmos no palanque de um evento, algumas personalidades já estavam nos aguardando. Entre elas, José Francelino da Silva, o Zezinho Muá, cliente do banco, que lidava com um "brechó", pequena fábrica de calçados.
         Eu estava acostumado a ver Zezinho vestido de forma informal e soltando sua risada generosa, espontânea e contagiante. Mas ali ele parecia outro, formal e sério. Não o reconheci de imediato. Pensei que se tratava de uma autoridade africana que tinha vindo com a comitiva. Quem sabe se não seria o embaixador do Senegal. Minutos depois, vi que se tratava de Zezinho Muá.
         Depois disso, e pelos anos que se seguiram, eu recordava a cena todas as vezes que me encontrava com ele, provocando gargalhadas por parte do "embaixador."
        Zezinho, que gostava de cumprimentar as pessoas com a saudação "Criatura de Jesus" / "Zezinho Muá, na terra, no céu, no ar",  partiu para a Grande Viagem na manhã deste domingo, deixando a cidade consternada. Um desastre de moto apagou o riso do homem bom, simples e otimista, que estaria completando 77 anos de idade amanhã, dia 11. Com certeza, algum dos mundos fantásticos do Pai, para onde ele foi cumprir uma nova missão, estava precisando muito da risada generosa de Zezinho Muá.
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Daslan Melo Lima, no segundo domingo de março/2019, em Timbaúba, Pernambuco, 10/03/2019

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