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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 649, referente ao período de 11 a 17 de dezembro de 2017. ***** Grato por sua atenção.

sábado, 14 de agosto de 2010

SESSÃO NOSTALGIA - Porque choram as Misses

Daslan Melo Lima

PRÓLOGO




            Era abril de 1966 e o Brasil vivia o segundo ano da ditadura militar, quando a Editora Abril lançou a revista Realidade, uma publicação que marcou época na história da imprensa brasileira.  A capa trazia Pelé com um busby , acessório que a guarda inglesa utiliza na cabeça,  fazendo alusão à Copa de 1966, realizada na Inglaterra. Ousada, instigante, diferente, Realidade abordava temas poucas vezes discutidos por outros jornais e revistas, chegando, por isso, a sofrer repressões do regime militar.


          No mês de agosto de 1966, a revista Realidade circulou nas bancas de todo o país com uma capa estranha e uma chamada ainda mais: “Porque Choram as Misses”. O concurso Miss Brasil estava no auge e causava tanto interesse quanto a Copa do Mundo. Ao contrário das revistas O Cruzeiro, Manchete e Fatos & Fotos que colocava  a Miss Brasil na capa, sorridente, de  coroa, faixa, manto e cetro,  a Realidade colocou o busto de um manequim, nu, apenas com a faixa de Miss Brasil.
          Na Sessão Nostalgia desta semana, trago os trechos mais importantes da reportagem que o  José Carlos Marão fez para a Realidade.  Um verdadeiro documento de uma época. 

POBRE MENINA MISS

          Beleza anda de braço com ridículo nos concursos em que moças bonitas, ingênuas e decentes emprestam sua graça a essa coisa sem graça que é correr atrás de sonhos numa passarela onde, diante da multidão, um júri escolhe  a    pobre menina miss.

O rosto é bonito, a faixa de miss cobre um manequim, símbolo do que fazem das moças que disputam concursos de beleza. Foto de Lew Parrella
          Às oito da noite, 40 mil pessoas já estão no Maracanãzinho, pois nada mais importante existe para elas que um concurso de Mis Brasil. Às nove e cinco, o povo gritava: “ - Co-me-ça! Co-me-ça!”  Há  muitos outros ridículos, que as moças do interior, cobiçadoras da glória de ser rainha, têm de enfrentar, quando chegam ao Rio de Janeiro, depois de já terem passado pelos desfiles em seus Estados.
           Na hora em que descem do avião, acompanhadas de suas orgulhosas mamães, encontram logo os donos do concurso: organizadores, guardiãs, instrutoras, cicerones e, entre esses, um senhor de proeminente barriga, paletó jaquetão e bigodinho à antiga, que, desde a segunda-feira , quando elas chegam, até o sábado do concurso, comanda militarmente e aos gritos todas as moças, com exceção das suas preferidas. Com toda a pose e o ar de dono das misses, consegue deixar com medo as mais bobinhas. Mas outras, que conseguem entender melhor o homem, não têm muito problema em rir dele, aos primeiros gritos.
          Esse senhor de jaquetão e bigodinho, dito por si mesmo temível colunista social, é eficientemente auxiliado na sua tarefa de comando por outro membro da comissão organizadora, por nome Arnaldo.  O primeiro trabalho dos dois é conhecer o melhor possível, entre o aeroporto e o hotel, no dia da chegada, as misses e acompanhantes: – “Pois, afinal, precisamos saber com quem vamos tratar.”
          Chegam as misses ao hotel e, na porta, já está uma multidão curiosíssima para vê-las. Lá dentro, os organizadores já estão dando ordens ao pessoal de serviço no hotel, acompanhando o preenchimento das fichas das candidatas (as fichas que podem ler, ele lêem), e acompanhando as candidatas aos seus apartamentos. Quando as mocinhas e mamães sonhadoras estão instaladas, recebem alguns impressos da comissão organizadora: programa, regulamento do concurso, instruções para o comportamento dentro do hotel e informações – estas só para as acompanhantes – de como bem acompanhar as candidatas a Miss Brasil.
          O programa, cheio de festas, coquetéis, passeios e coisas que as mocinhas na maioria nunca viram, entusiasma a todas, mas só antes de começar a ser cumprido. Lá pelo segundo ou terceiro dia, além do cansaço – que este ano deixou algumas de cama – já começam a perceber que nas festas estão apenas sendo mostradas para pessoas em que os organizadores têm interesse, e acaba o entusiasmo pelo programa. Enquanto isso, no hotel onde elas se hospedam, com paredes rachadas e enormes salões vazios, o pessoal de serviço não está absolutamente contente: – “ Essa turma do concurso dá serviço e não dá gorjeta. A gente não pode servir direito os que dão gorjetas e passamos uma semana ruim. "
          Em duas salinhas sujas e cinzentas, funciona, o ano inteiro, a Comissão Central do Concurso de Miss Brasil. O emprego é até bom, pois concurso só há uma vez por ano. Lá, os senhores organizadores preparam os regulamentos, onde exigem das candidatas, entre outras coisas, “reputação moral ilibada”. O item 8, sozinho, exige cinco compromissos da privilegiada. O primeiro é cumprir rigorosamente o programa. O segundo é mais sério: não pode fazer propaganda de nenhum produto comercial, a não ser o dos patrocinadores do concurso. Compromete-se também a, caso eleita Miss Brasil, assinar um contrato de “prestação de serviços”, por seis meses, sem dizer nem com quem, nem que serviços devem ser prestados. Mais um compromisso: se não for eleita Miss Brasil, não pode participar de nenhum anúncio de produto comercial concorrente do patrocinador do concurso no seu Estado. E esclarece bem o regulamento: a miss, ao embarcar para o Rio, deve levar na mala um vestido de gala e um traje típico. Antes de viajar, elas recebem 200 mil cruzeiros dos organizadores, como “ajuda de custas”.
          Para as excelentíssimas senhoras acompanhantes, a comissão esclarece que deverão pagar todos os serviços extraordinários (lavanderia  por exemplo) pois os organizadores garantem apenas cama e comida. O horário do programa deve ser cumprido e qualquer dúvida pode ser apresentada às guardiãs que, se não souberem resolver, a levarão ao Bigodinho-Jaquetão, que resolve tudo.

MULHER DE BENGALA MEDE AS MISSES E ENSINA DESFILAR / BENGALA FAZ A MARCAÇÃO

           Miss tem que saber desfilar, para não dar vexame. E vão para as mãos de dona Maria Augusta, que tem uma escola de modelos, e há nove anos acompanha o concurso de Miss Brasil, ensinando andar, parar e rodopiar. Comanda tudo com uma bengala, e umas batidas no chão: - “A marcação da bengala é a marcação internacional. As moças saem daqui sabendo desfilar como nos outros países.”
 

           Na terça-feira depois da chegada, há o primeiro contato entre as mocinhas e Maria Augusta, para as medidas. Ela mesma, ou uma sua auxiliar, tira as medidas – busto, cintura, quadris, coxa, tornozelo, altura e peso – só na presença de senhoras, em lugar onde ninguém mais pode entrar. Nesse dia, as candidatas fazem seu desfilezinho inicial, para Maria Augusta ver qualidades e defeitos.
          Na quinta-feira, misturados com os coquetéis e visitas, as misses têm um ensaio de manhã, outro à noite. Começam a aprender a andar ao som de bengalas, já no próprio Maracanãzinho. Às vezes não deixam a imprensa assistir aos treinos, porque “as moças estão inibidas”.

Nem todas as moças aprendem a desfilar, como Maria Augusta quer. Na sexta-feira, ensaio geral, quem não aprende desfila errado.
          Na sexta-feira, o ensaio é geral. As mocinhas já aparecem de maiô, como vão desfilar na contenda do dia seguinte. Já há público, imprensa e também as misses internacionais, chamadas pelos senhores organizadores para desfilar no dia do concurso e entreter assim o ávido público, enquanto as senhoritas brasileiras trocam de roupa.

DUAS FORA DO PÁREO

          Na sexta-feira do ensaio geral, já é feito o primeiro concurso. De repente, aparece um cidadão, distribuindo papeizinhos em branco para os fotógrafos:
- “Olha, é para escolher a Miss Fotogenia.”
- “Já ou depois do ensaio?”
- “Já.”
- “Mas como, se eu não sei como elas vão sair nas fotos?”
- “Ah, que é isso? Coloca qualquer nome aí, rapaz.”
          Aí, um deles diz que fulana é fotogênica, os outros acreditam e ela acaba ganhando. Alguns fotógrafos atrapalham um pouquinho a democrática votação:
- “Olha companheiro, eu não si bem em quem votar. Você põe aí o nome que achar melhor. Eu concordo.”
          A Miss Simpatia é eleita na mesma base, com votação um pouco mais ampla. E as duas recebem a faixa durante o ensaio e vão embora, levando a certeza de que não estão ente as favoritas. Maria Augusta, de muita experiência, diz que é assim. Quando as moças recebem um título antes, já estão fora do páreo.

MISS BRASIL QUASE DEU O FORA

          - “Minha filha não recebeu ajuda de ninguém, nem do Governo, nem dos organizadores. Além disso, está muito maltratada. O senhor acha que nós estamos aqui para agüentar mau trato?”
        Na quarta-feira da semana do concurso, a mãe de Miss Guanabara, depois eleita Miss Brasil, estava falando assim. É que o Bigodinho-Jaquetão e o senhor Arnaldo estavam gritando muito. E Miss Guanabara ameaçou abandonar o concurso, se o tratamento não melhorasse.
          A queixa aconteceu no dia em que as moças têm de posar para as “revistas especializadas em miss”. Aí são levadas em ônibus para uma praia, convidadas a trocar de roupa atrás de umas pedras, para, depois, tirar as fotos nas mesmas poses em que se vê fotografias de miss nas revistas, há dez anos mais ou menos. E ai da moça que se atrasa um pouco. Ouve o que não quer.     Com  Miss Guanabara, alem dos gritos, houve mais um problema: foi a que ficou mais perto das ondas, veio uma das  fortes e lá se foi o seu penteado. Na volta, abandonou a “caravana da beleza” (dois ônibus comuns) para fazer penteado novo.
     O fato é que, no dia seguinte, os jornais concorrentes do jornal que promove o concurso saíram com manchetes aproveitando a ameaça da candidata carioca de se retirar do concurso. E, num deles, um dos títulos de primeira página era assim: “Homem que beijou miss quase leva Ana Cristina a renunciar”. Era só o título, a notícia não fazia nenhuma referência a beijos.

BIGODINHO-JAQUETÃO GOSTA É DE MOSTRAR AUTORIDADE / A TORTA DE MISS BAHIA

          Quando chega o sábado, dia do concurso, misses e acompanhantes já não se agüentam em pé, de tanto que tiveram de andar, passear e mostrar-se. Só não estão muito cansados os organizadores, que podem revezar-se na tarefa de fiscalizar as moças.
          Na sexta-feira à noite, no ensaio geral, as candidatas desfilaram como se já fosse o dia do grande concurso. E desfilaram também, sob vaiais, as misses internacionais, que a organização trouxe, para “dar brilho à grande festa”.
        As moças estrangeiras ficaram por conta do Arnaldo, auxiliar do Bigodinho-Jaquetão. Andou com elas de automóvel para baixo e para cima, pela cidade toda e a imprensa só conseguia se aproximar quando ele não estava por perto. Arnaldo chegou a tirar a caneta da mão de Miss Argentina, que estava dando autógrafo a uns estudantes, para colocá-la dentro do automóvel, e deixá-la lá, esperando um motorista que demorou bastante a aparecer.
        Mas o Bigodinho-Jaquetão também teve a sua oportunidade de mostrar autoridade às misses internacionais. Na sexta-feira do ensaio, Miss Argentina e Miss Bahia, por força de cumprirem à risca o “muito humano” programa criado pelos organizadores, chegaram para jantar alguns minutos depois das outras. O Bigodinho, muito bravo, começou a correr pelo restaurante do hotel, chamando garçons e mandando as duas comerem depressa. Miss Argentina, coitada, acreditou no homem e nem comeu direito. Foi logo para o ônibus que levaria as misses para o ensaio. Mas Miss Bahia, um pouco mais esperta, tratou de comer o suficiente pelo menos para ter forças de ensaiar. Quando terminou, o Bigodinho quis fazê-la levantar-se, mas não adiantou. A coisa já tinha virado briga e ela decidiu comer sobremesa. E o Bigodinho resolveu então gritar com o garçom, que pagou o pato: - “Oh, seu moleza, quer trazer logo uma torta!”

 COMEÇA O GRANDE DIA

          O programa do sábado diz: “manhã e tarde livre para preparação de vestidos, cabeleireiros, manicura etc.” Mas de manhã, miss nenhuma consegue levantar-se, tentando recuperar o sono perdido nos dias anteriores. As acompanhantes, menos cansadas, vão tratando dos vestidos, dos sapatos e outros pormenores.  À tarde, elas vão aos cabeleireiros, instalados no quarto andar do próprio hotel. Ficam guardadas por duas guardiãs, que não deixam homem nenhum entrar, a não ser o Bigodinho-Jaquetão, o Arnaldo, ou algum outro “organizador”.
           Lá pelas seis e quinze, contrariando todas as disposições desses dois senhores, as misses saíram do hotel em um ônibus, as acompanhantes em outro. Chegando ao Maracanãzinho, o porteiro deixou as misses entrar, mas implicou bastante com as acompanhantes. E a acompanhante de Miss Brasília, que tinha perdido sua identificação, teve de esperar muito tempo, segurando na mão a mala com os vestidos, até aparecer alguém, da comissão que amansasse o porteiro.
  -” Maria Helena, quantos anos você tem?”
          Maria Helena, Miss Brasília, não consegue falar. A resposta é uma choradeira. A moça foi acusada de ser menor de idade, pela segunda colocada do concurso, lá em Brasília. Conseguiram até uma sentença judicial, afirmando que a certidão de Maria Helena estava rasurada e que ela tinha 15 e não 18 anos.  No sábado, desceu no Rio de Janeiro a segunda colocada no concurso Miss Brasília, disposta a desfilar, esperando a desclassificação da outra, mas o presidente da comissão, chamador doutor Adilson, e seu secretário, chamaram major Amado, decidiram que seria uma desumanidade impedir a moça de desfilar.

 “TÁ NA HORA, PLÁ-PLÁ-PLÁ” 

          Às oito e meia, o Maracanãzinho lotado, começa uma briga (só de boca não de tapa) bem na entrada da passarela. A briga foi assim: os jornalistas sempre consideraram o curralzinho que lhes reservam no meio da passarela como o pior lugar para assistir aos desfiles. Esse lugar comporta 15 pessoas e recebe normalmente umas 60. Neste ano, os fotógrafos decidiram que os redatores atrapalham muito, na hora de tirar fotos, e conseguiram que um dos organizadores proibisse a entrada de quem não tivesse máquina.
           Os redatores sempre detestaram assistir dali ao concurso, mas resolveram que, neste ano, só dali teriam boa visão. E começou a briga. Grita daqui, grita dali, vem a Polícia, vem os organizadores. A Polícia fica esperando a comissão decidir, mas os organizadores também estão divididos, entre fotógrafos e não fotógrafos. Por fim, entrou quem quis entrar no curralzinho, jornalista ou não. Esta briga só deu para divertir o público que estava mais próximo.  Os de longe, não conseguiram perceber tudo o que se passava. Nessa altura, pouco mais de nove horas, a turma começou a gritar, com louvável fôlego, que resistiu até 15 para as dez: - Tá na hora. Plá-plá-plá. Tá na hora. Plá-plá-plá. Alguns organizados gritavam junto.  Até que, no fim, entre vaias e aplausos, surgem um ator e uma atriz de televisão. O moço começa a falar em nata das beldades verdes-amarelas e coisas assim. Aí chega Maria Augusta, com sua bengalinha, dá uma batida no chão, as meninas obedecem prontamente e começa o desfile.
           Numa das mesas, um senhor – apesar da cara de conquistador de mocinhas bonitas – lembra, um pouco irônico, a opinião do Arcebispo de Cuiabá, dom Aquino, sobre concursos de misses: “O que é um concurso de beleza, senão a exposição e feira de belos animais, que disputam entre si o prêmio por seus mais belos músculos ou robustez?” Nessa hora o locutor começa a ler as medidas das moças que, com o traje de gala, desfilam todas de uma vez, depois uma por uma. São vaiadas e aplaudidas, intercaladamente, conforme o nome do Estado seja simpático ou não ao público da Guanabara. Miss Guanabara, pela beleza e pelo bairrismo, é a Miss mais aplaudida. Miss Pernambuco – que não tem culpa de se chamar Raiolândia Castelo Branco – recebe a mais violenta vaia da noite. Mas mantém a classe, agüenta quase até o fim, quando começa a correr e é levada aos camarins nos braços de Maria Augusta

MISS SÃO PAULO MUDA O PASSO

          Os homens do concurso, não satisfeitos em fazer as moças desfilar com um vestido enorme, pesado (para martírio das candidatas de Mato Grosso, que operou o pé; do Espírito Santo, com o dedão do pé inchado; e de São Paulo, que estava com febre), e depois de maiô, obrigam também as sonhadoras mocinhas usarem traje típico.


          Miss Brasília, a dos prováveis 15 anos, entrou carregando flores por todo o corpo. Miss Minas Gerais estava fantasiada de “esmeralda e ouro”: uma roupa curtinha, tipo maiô, coberta de placas verdes com uma bolinha amarela no centro. Outras carregavam cestas de flores, generosamente distribuídas, para conseguir um pouco mais de torcida. A Miss São Paulo não conseguiu desfilar no mesmo passo que as outras: estava com macacão estilizado de operário, mas carregando na cabeça uma peneira enorme, com maquetas de prédios em cima. Depois que desfilou, foram necessários dois policiais para carregar a peneira com os prédios.
          Os trajes típicos são criados por costureiros, criadores de fantasias de carnaval. Mas como por traje típico entende-se, normalmente, traje que se usa na região onde foi eleita a miss, muita gente pode ter saído do Maracanãzinho pensando que as moças de São Paulo vão trabalhar com prédio na cabeça e que as senhoritas sergipanas, nos seus passeios, carregam uma torre de petróleo embaixo do braço.

NINGUÉM SABE PORQUE DEPOIS AS MOÇAS QUEREM CHORAR  /  E  TUDO VAI COMEÇAR OUTRA VEZ
Depois de oito dias de mostrar-se, mal dormir e mal comer, a “glória” de ser a mais bonita.
          Das 26 mocinhas simples, de respeitosas famílias do interior ou das capitais, que estão ali sonhando com a glória de ser a mais bonita, oito ganham o apelido de finalistas. As outras 18, tristíssimas, são obrigadas a ficar ali, em pé, curtindo mágoa e assistindo a glória das escolhidas. É quando já sabe que não vai mesmo ganhar que a miss sente todo o cansaço da “agradável semana da beleza”, como dizem os senhores que cuidam do concurso.
          Antes dos jurados chamarem as oito do fim, todas as moças são obrigadas a cantar, em coro, uma música chamada Hino das Misses. Mas todas desafinam e o que salva é o disco, tocado de fundo, prevendo mesmo as desafinações. Só que o artista-apresentador leva o microfone pertinho de cada miss, para que se perceba como desafina cada uma delas.
          Maria Augusta não entende os desmaios, depois de anunciadas as finalistas: - “As moças querem chorar depois do concurso. Não sei por quê”. Mas as moças sabem: querem chorar todos os ensaios, todos os desfiles por que passaram, desde que foram candidatas a rainha de beleza do seu Estado, até a exibição final, no Maracanãzinho.
          O fim é rápido. Os auto-falantes anunciam o nome da Miss Brasil e os da segunda e terceira colocadas. Depois, Miss Brasil é levada para os estúdios das revistas especializadas, instalados no próprio Maracanãzinho. A festa acabou-se; às derrotadas resta ouvir os estouros do champanha que não vão beber; com as três vencedoras fica a certeza de que tudo vai recomeçar, em outros lugares do mundo, onde locutores dirão em inglês – e em polegadas – quanto mede cada parte dos seus corpos.

EPÍLOGO

As quatro finalistas do concurso Miss Brasil 1966. Da esquerda para a direita: Virgínia Barbosa de Souza, Miss Minas Gerais (quarto lugar), France Carneiro Nogueira, Miss Ceará (terceiro lugar);  Ana Cristina Ridzi (Miss Guanabara, primeiro lugar) e Marluce Rocha Manvailler (Miss Mato Grosso, segundo lugar). Foto: reprodução de imagem publicada na revista Manchete, 09/07/1966.
         A reportagem da revista Realidade cometeu alguns equívocos. Nem sempre as moças eleitas Miss Simpatia e Miss Fotogenia ficavam fora das finalistas. Em 1966, por exemplo, Miss Simpatia foi Virgínia Barbosa de Souza, Miss Minas Gerais,  quarta colocada, enquanto a Miss Fotogenia, Marluce Rocha Manvailler, Miss Mato Grosso , foi a segunda colocada.  O bairrismo do carioca era relativo. Algumas jovens que ostentaram a faixa de Miss Guanabara foram eleitas Miss Brasil, ou ficaram entre as três finalistas,  sem contar com o apoio do público do Maracanãzinho.


               Raiolanda Castelo Branco, foto acima,  foi vaiada por causa do sobrenome. O Brasil vivia a época da ditadura militar e quem governava o país era o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967). Imagem: Jornal do Commercio-Recife.
          O  Maracanãzinho deixou de ser o palco da beleza brasileira em 1973, época em que o concurso Miss Brasil foi transferido para  Brasília. A revista Realidade deixou de circular em 1976.
          As misses de hoje também choram, pelo cansaço dos ensaios dos desfiles, pela emoção da vitória, pela decepção da derrota e talvez pela figura impaciente de algum organizador exigente como aquele enigmático Bigodinho-Jaquetão de 1966. 

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6 comentários:

DASLAN MELO LIMA disse...

Comentário de Muciolo Ferreira, jornalista, via e-mail
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Ah Daslan!


Quanta verdade e também de preconceito e maldade aquela matéria da revista Realidade.
Foi a partir dessa reportagem que deu início a uma onda nacional de tudo o que é precoceito contra os concursos de miss, cujas moças que se aventuram a participar são vistas como "bibelô", idiotas, sem noção, brega e leitores de um único livro: O Pequeno Príncipe.

Todavia, nada impediu que o certame sobrevivesse até hoje, pois são dos sonhos dos homens que se inventam uma cidade, como bem disse o poeta. E sonhar não custa nada quando o objetivo estar ao alcance de tantas moças bonitas ou não. E enquanto existir mulher e pessoas dispostas a romper as barreiras do preconceito, os concursos de misses com esse ou um outro nome mais moderno, repaginado, do tipo Top Model(que no fundo é a mesma coisa, pois também vende beleza), os missólogos como nós terão muito o que escrever, discutir, aplaudir e reviver o passado.

Parabéns e uma ótima semana com o abraço a todos os leitores do PASSARELA CULTURAL.

Muciolo Ferreira - direto do Shopping Tacaruna

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DASLAN MELO LIMA disse...

Comentário de Margarida Cordeiro, Brasília-DF
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Que coisa boa rever esta matéria por aqui. Eu tinha este número da REALIDADE. Emprestei a alguém e não a recuperei.

O autor da reportagem "Porque Choram as Misses" é meu contemporâneo.

José Carlos Marão (nascido em 11 de janeiro de 1941, em São Paulo), começou na imprensa no jornal Folha de São Paulo, em abril de 1960, como repórter, enquanto cursava as faculdades de Direito Mackenzie e Filosofia Ciências e Letras São Bento. Em 1962 foi para a revista O Cruzeiro, a mais importante e de maior circulação na época. Em outubro de 1964, convidado por Mino Carta, foi para a Edição de Esportes de O Estado de São Paulo, embrião do futuro Jornal da Tarde. Em setembro de 1965, a convite da Editora Abril, foi para a equipe que estava preparando o lançamento da revista Realidade, um dos maiores sucessos editoriais da imprensa brasileira. Permaneceu em Realidade até 1971, quando fez experiências como redator de publicidade nas agências Marcus Pereira Publicidade e Standard Ogilvy. Voltou para a Editora Abril em 1974 como Gerente do Centro de Criação. Em 1976 foi para a revita Quatro Rodas, como Redator chefe. Em 1978 passou a Diretor de Redação,e depois, em 1981, a Diretor Editorial. Em 1987 assumiu o cargo de Diretor de Grupo de Quatro Rodas. Em 1992 criou a a Anagrama Editorial, que editou as revistas Muito Melhor (receitas), Anagrama (palavras cruzadas) e Muito Melhor Astrologia. Nesse período, comandou a criação e a implantação das reformas editoriais e gráficas de Semanário e Som Sertanejo, da Editora Azul, Aero Magazine (Nova Cultural, Supermercado Moderno (Grupo Lund) e Metrópole (Diário do Povo de Campinas). Em 1999 mudou para Águas de São Pedro, no interior de São Paulo.

Atualmente faz parte do Conselho Diretor do Projor, Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, entidade sem fins lucrativos, que mantém o programa de Tv Observatorio da Imprensa e o site Observatorio da Imprensa on line.


Um grande abraço e parabéns pelo blog.

Margarida Cordeiro
Brasília

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DASLAN MELO LIMA disse...

Comentário de Lourenço Costa, São Paulo-SP
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Talvez tenha havido um certo exagero na matéria da revista.
A responsabailidade de "Bigodinho-Jaquetão" era muito grande. Ele tinha de impor disciplina e redobrar os cuidados para com as jovenzinhas vindas do interior.
E quem é que não se estressaria estando no lugar dele e do Arnaldo?

O importante é que o concurso continuou e realizou o sonho de centenas de "cinderelas".

Lourenço Costa de Sampa

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Anônimo disse...

Li saltando porque era muito deboche inicial.Mas lembro do que a revista publicou,em parte;até da ameaça da Miss GB(já tinha esquecido!)De fato, as misses têm que chorar!Há pouco é que entendi esse mecanismo todo de preparação para o da do concurso.Não é fáci dormir 5 hs por noite e ensaios, 'passeios' e fotos.Deve dar um vazio...mesmo a vencedora se abate(MU atual parecia já derrotada,não acreditou e nem teve energia para comemorar).Abraços, Daslan e mais uma vez, parabéns!Japão

Izumi Hayashihara disse...

Esse manequim e de propriedade intelectual do Sr. Eisei Hayashihara , artista plastico formado no Japao que nessa epoca radicado no Brasil trabalhava na empresa Propavit em Cidade Moncoes SP

DASLAN MELO LIMA disse...

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Comentário enviado por JOSÉ CARLOS MARÃO em 1º de janeiro de 2016, via e-mail
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Você fez um verdadeiro trabalho de arqueólogo, desenterrando velha matérias como essa. Também gostei dos comentários,inclusive aqueles que dizem que o preconceito começou por aí. A matéria foi até suave: havia uma tendência de tratar as moças como reprodutoras em um leilão de gado. Mas, claro, essa ideia não fazia sentido e não passou. Abraços
marão