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sábado, 22 de outubro de 2011

SESSÃO NOSTALGIA – MARIA OLÍVIA REBOUÇAS CAVALCANTI, MISS BRASIL 1962, E O CARRO MAIS ANTIGO DO BRASIL


Daslan Melo Lima


          Minha paixão pelas Misses começou em criança, quando vi minha Tia Soledade lendo um exemplar da revista O Cruzeiro, com várias pessoas ao redor, e quis saber do que se tratava. Na capa estava a baiana Maria Olívia Rebouças Cavalcanti, Miss Brasil 1962, posando no Cais dos Saveiros e na escadaria da Igreja que foi cenário do filme “O Pagador de Promessas”.    

Maria Olívia Rebouças Cavalcanti, Miss Bahia, Miss Brasil e quinta colocada no Miss Universo 1962, na capa da O Cruzeiro, de 14/07/1962. A primeira imagem à direita do nome da revista é a do jogador de futebol Garrincha (1933-1983). 
Maria Olívia Rebouças Cavalcanti, deusa maior do menino que um dia eu fui. 
  
     “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa fã filosofia”, disse um dia William Shakespeare (1564-1616), poeta e dramaturgo inglês. Em uma das minhas últimas visitas aos “sebos” do centro do Recife, encontrei uma pilha enorme da revista Quatro Rodas, especializada em veículos, um assunto pelo qual não tenho nenhum interesse.  Todavia, algo mais forte que eu impulsionou-me a deter-me na capa de cada exemplar. Para imensa alegria do menino que um dia eu fui, encontrei a baiana Maria Olívia Rebouças Cavalcanti, minha Miss Brasil inesquecível, na capa do exemplar de setembro de 1962, posando em cima do carro mais antigo do Brasil.   

Revista Quatro Rodas, setembro de 1962
        A Quatro Rodas quase nada fala sobre Maria Olívia, a não ser na página onde é dado o crédito da imagem da capa: Num cenário bem baiano, defronte à casa colonial de Genaro de Carvalho, Maria Olívia Rebouças Cavalcanti, nossa mais recente Miss Brasil, posa junto do carro mais antigo do Brasil, um Clement 1895, objeto não só de capa deste número, como de reportagem na página 84. O ektachrome é de Víctor Antônio Gouveia.
     Por conta do título desta secção, quando alguém for pesquisar no Google algo sobre o carro mais antigo do Brasil chegará a este blog. Por isso, embora carros não sejam a razão de ser desta secção, transcrevi o texto completo da reportagem, pois não desejo frustrar os amantes de veículos antigos.

            O CARRO MAIS ANTIGO DO BRASIL

     Primeira surpresa: o carro anda mesmo. O toque-toque do seu motor sexagenário vai convidando os transeuntes distraídos a parar e arregalar o olho. Motorista e passageiros, dois a dois, frente a frente, sorriem satisfeitos, do alto da imponência do velho carro do estilo das carruagens. O ano de fabricação não foi determinado, historicamente. Diz a tradição oral (e tudo o confirma ) que  data de 1895. Chegou à Bahia no ano de 1900, ao raiar do novo século, importado da França, pelo Sr. José Henrique Lanat, industrial gaulês radicada na Bahia, curioso em mecânica e cujo “hobby” era a construção de carros alegóricos para as folias carnavalescas. No dia 13 de fevereiro de 1900 o “moderníssimo” veículo, atração motorizada, tomava contacto com o calçamento rústico de cabeças-de-negro das simpáticas ladeiras baianas. Dis-se mesmo que foi o terceiro automóvel a entrar no país.
    Foi o começo de um reinado. O carro de Lanat conheceu depois irmãos mais modernos, mais aerodinâmicos, mas não perdeu o seu posto: o carro mais moderno, depois, o mais aristocrático, e hoje, o mais curioso. Em 1914, o automóvel foi enfeitado com uma bizarra buzina em forma de cobra metálica, retirada de um outro veículo. Por volta de 1930 foi aposentado, para reviver em 1949, nas festas do centenário de Salvador, quando voltou à rua, todo original, luzidio como novo.

A boca da cobra - buzina bem diferente - dá um ar todo especial ao velho carro. É um dos poucos acessórios não originais, pois foi adaptado em 1914. Vê-se bem na foto da esquerda, em cima. Logo embaixo, o carro visto de frente, ressaltando o engraçado radiador tubular. Na foto da direita, comandos e pedais.
 O CARRO

     Chama-se Voiture Clement e tem o número 475, ou seja, foi o 475º veículo construído por Clement, um famoso construtor de carruagens de Paris. Seu motor e toda a parte mecânica foram construídos por Panhard & Lavassor. É um carro aberto, com dois bancos frente a frente, capaz de desenvolver  a velocidade de 40 quilometros horários.
     Seu motor era um 4 tempos cabeça quente, modificado posteriormente para magneto com a adaptação de uma vela de ignição. Motor traseiro. Sua alimentação de óleo lubrificante é feita por ação da gravidade, com depósito acima do motor e logo atrás do encosto do banco traseiro; desse depósito saem dois condutos, um para o cilindro e outro para a biela e o eixo de manivelas. A transmissão faz-se por sistema de corrente. Sua caixa de mudanças tem três marchas para a frente e uma à ré. Seu radiador é tubular com arrefecimento a água. Seu freio de mão conserva o velho sistema das carroças, de ação por atrito direto.
      Os pneus, bem, os pneus originais eram da rodagem 30 x 3 ½. Quando se gastou o último jogo, a família Lanat ainda conseguiu efetuar encomenda especial na Inglaterra de dois exemplares para as rodas traseiras; as rodas dianteiras tiveram que sofrer alteração, com diminuição dos raios, para admitir pneumáticos de motocicleta, rodagem 3,50 x 10.

O carro nas comemorações do centenário de Salvador, em 1949, dirigido pela Sra. Regina Lanat Pedreira, em trajes do início do Século XX.

QUANTO VALE?

     O carro pertence, em comum, aos membros da família Lanat, herdeiros do velho José Henrique, industrial francês, curioso em mecânica. É tratado como peça histórica da família. Vender, não vendem, apesar de não faltarem ofertas. Muitos até já  tentaram obter o velho  Clement por troca com um automóvel zero quilometro. Até o Museu do Estado da Bahia tentou, sem êxito, obter para o seu acervo, o carro mais antigo do Brasil. Um Voiture Clement 1895. Francês por nascimento; baiano pro adoção.
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     Neste outubro que chega todos os anos para deixar-me com mais idade , os mistérios deram um presente que encheu de alegria o menino que convive com o homem que sou: a revista Quatro Rodas, com a deusa Maria Olívia Rebouças Cavalcanti, minha Miss inesquecível, na capa.  “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode julgar nossa vã filosofia”. Vocês não acham que William Shakespeare tem razão?

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