Daslan Melo Lima
Centro do Recife, Praça da Independência, uma tarde de junho de 1983. Ao passar na frente de uma banca de revistas próxima ao prédio do Diário de Pernambuco, detive-me para ler o jornal Folha da Tarde, de São Paulo, exposto no lado de fora e aberto na reportagem que mostrava fotos e declarações da nova Miss Brasil. Vinte e seis anos depois, dentro do meu objetivo de resgatar e preservar a memória das grandes misses do passado, quero compartilhar aquela matéria com os leitores de PASSARELA CULTURAL.
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''Ser miss era uma coisa que estava dentro de mim. Os amigos de meu pai achavam que eu e minhas irmãs éramos lindas, quando crianças. Então, sempre desfilávamos para eles de brincadeira.” Assim começou a carreira de Marisa Fully Coelho, 21 anos, mineira de Manhumirim, eleita Miss Brasil 1983, e que representará o país no concurso de Miss Universo nos Estados Unidos.

Ela ganhou o primeiro concurso de beleza aos 15 anos, quando foi eleita Glamour Girl de Manhumirim. Daí para frente, venceu muitos outros, como de Rainha do Minério de Itabira, Miss Férias de Varginha, Rainha da Imprensa de Teófilo Otoni, até ser escolhida sem concurso, porque era a pessoa certa para representar sua cidade no Miss Minas Gerais. Daí para o Miss Brasil foi um pulo.
“Quero ser uma pessoa muito importante, não quero viver no anonimato. Gosto da fama e Miss Brasil é um começo para isso. Abriu a porta para o sucesso”, disse ela.
“Quero ficar bem financeiramente para dar um apartamento a minha mãe, e comprar uma chácara que já foi de nossa família e perdemos”.
“Quero ficar bem financeiramente para dar um apartamento a minha mãe, e comprar uma chácara que já foi de nossa família e perdemos”.

O pai, industrial e dono de restaurante, estava muito bem de vida. Porém, acabou perdendo tudo antes de morrer, há três anos. A família – ela a mãe e duas irmãs mais velhas – ficou pobre. mas não totalmente. Ela foi trabalhar, não em sua profissão, professora primária, porque não gosta de dar aulas, mas num banco em sua cidade. Depois, foi para o Rio trabalhar no departamento de ações da Petrobrás. Passou também a fazer desfiles de moda e, ultimamente, era contratada de uma loja de roupas infantis, onde se vestia de Papai Noel no Natal e coelhinha na Páscoa, “uma coisa muito linda, fazer as crianças felizes”. Nos últimos anos, dividiu a vida entre Manhumirim e a cidade maravilhosa.
Um metro e setenta e três de altura, medidas 87-60-87 cm, 58 quilos, Marisa disse acreditar que tem condições para ganhar o Miss Universo. Beleza ela disse considerar um privilégio de Deus. E se sente muito mais bonita por dentro do que por fora.

O feminismo, ela simplesmente abomina. “Não acho que o homem causa tanto mal assim às mulheres. O homem nasce homem e a mulher mulher, pai é pai e mãe é mãe. Não adianta querer ser igual, há um diferença. Até hoje a mulher não viveu? Não existem mulheres felizes? Para que, então, os movimentos feministas? A mulher tem que acompanhar o homem, não querer ser igual a ele. E as oportunidades para homens e mulheres na sociedade não têm que ser iguais”, comentou Marisa.
Que o brasileiro é machista, ela sabe e acha ótimo, “porque na sociedade e na família precisa haver um comando e se ele na fosse machista, isso não existiria.” Mas ela não aconselha todas as mulheres a serem submissas. “Só deve ser quem gosta. Eu sou, porque gosto.”, revelou Marisa, para quem isso é sinal de inteligência, “assim é que se dominam os homens.”
Em termos de dinheiro, não é nada mau ser Miss Brasil. Marisa disse ter ganho um prêmio líquido de Cr$ 5 milhões e Sílvio Santos concedeu-lhe ainda mais Cr$ 10 milhões em roupas, jóias, eletrodomésticos e uma moto. Durante um ano, até entregar o seu reinado para outra miss, será contratada exclusiva do SBT, tendo de participar de desfiles, shows e programas da emissora.
Se vencer o concurso de Miss Universo, a moça ganhará 10 mil dólares (Cr$ 5,3 milhões), mais um salário mensal de Cr$ 15 mil dólares (Cr$ 7,9 milhões), da Empreendimentos Miss Universo, empresa sediada nos Estados Unidos, que promove os concursos anualmente. Além disso, receberá carros, iate, jóias e peles, conforme aponta Marlene Brito, coordenadora do concurso Miss Brasil.
(Fotos e texto: Folha da Tarde, São Paulo, segunda-feira, 20/06/1983)
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Marisa Fully Coelho tentou duas vezes ser Miss Minas Gerais. A primeira em 1979, quando sucedeu a irmã Patrícia no trono de Miss Manhumirim. No concurso estadual, tal como aconteceu com sua irmã no ano anterior, Marisa não conseguiu classificação. Da segunda vez, em 1983, foi diferente e Marisa foi eleita Miss Minas Gerais e em seguida Miss Brasil.

Marisa Fully Coelho - Foto: revista Manchete
Antes de seguir para Saint Louis, Missouri, Estados Unidos, local da realização do Miss Universo, Marisa disputou em Lima, Peru, o título de Miss Sudamérica (Miss América do Sul) onde foi a segunda colocada, perdendo para a venezuelana Paola Laura Ruggeri Ghigo. Nos Estados Unidos, sua beleza, simpatia e carisma foram notadas, mas não figurou entre as 12 semifinalistas. A Miss Universo 1983 foi Lorraine Elizabeth Downes, Miss Nova Zelândia, uma jovem pobre de 19 anos de idade, filha de um encanador aposentado e de uma dona-de-casa.
Marisa Fully Coelho foi a terceira Miss Brasil do que se convencionou chamar de “era Sílvio Santos”, uma fase atípica do Miss Brasil, iniciada em 1981, quando o concurso deixou de ser promovido pelos Diários e Emissoras Associados, e que perdurou até o ano de 1989, quando o famoso apresentador desistiu de realizar o Miss Brasil.
Marisa Fully Coelho, após o concurso, atuou como atriz na telenovela “Vidas Roubadas”, do SBT. Foi casada com o empresário Pedro Sabino, filho do escritor Fernando Sabino (1923-2004), pai de sua filha Paula, e com o compositor Carlos Colla, pai de sua filha Laura.
Na manhã do domingo, 22/11/1998, Marisa dirigia seu veículo na estrada que liga Manhumirim a Manhuaçu, quando se envolveu num violento acidente provocado por um caminhão. Marisa chegou a ser transferida para um hospital de Belo Horizonte, mas não resistiu e morreu na manhã da segunda-feira, 23/11/1998. No carro que dirigia estavam um casal de amigos e suas duas filhas que conseguiram escapar. O corpo de Marisa foi velado no Colégio Santa Terezinha e sepultado no cemitério de Manhumirim na terça-feira, 24/11/1998.
No dia 08/06/2007, perto da Estação Rodoviária, com a presença de familiares da Miss Brasil 1983, a Prefeitura Municipal de Manhumirim inaugurou a Praça Marisa Fully Coelho, homenagem mais que merecida à sua ilustre filha.
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Todas as vezes que passo no centro do Recife, na Praça da Independência, próxima ao prédio onde funcionava o Diario de Pernambuco, lembro-me daquela tarde de junho de 1983, quando as fotos de Marisa Fully Coelho, estampadas no jornal Folha da Tarde, chamavam a atenção de todos os que passavam na frente de uma banca de revistas.

Marisa Fully Coelho - Foto: revista Manchete
Deus convocou Marisa Fully Coelho para uma outra missão na passarela de outra dimensão. A comissão julgadora e a platéia mudaram.Marisa Fully Coelho está no caminho da verdadeira Luz. Uma faixa diferente, um manto especial, uma coroa singular e um cetro iluminado estão revestidos de eternidade para adornar a Miss Brasil 1983.
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