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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 649, referente ao período de 11 a 17 de dezembro de 2017. ***** Grato por sua atenção.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

SESSÃO NOSTALGIA - Julia Katia Araujo, a vedete do Miss Pernambuco 1976

Daslan Melo Lima

          Quando Fernando Bandeira Diniz convidou Julia Katia Araujo para representar o Grupo Jovem e Artístico de Boa Viagem no Miss Pernambuco 1976, ela já era uma das manequins mais requisitadas do Recife.


Julia Katia na passarela do Miss Pernambuco 1976. Foto: Arquivo Pessoal

     - “Você devia ter me dito que tinha interesse de participar do Miss Pernambuco. Se você tivesse falado comigo, eu teria lhe apresentado como candidata do Clube Internacional do Recife. Você vai queimar sua imagem!” - disse o inesquecível Marcílio Campos ao saber que Julia Katia ia disputar o Miss Pernambuco 1976 pelo Grupo Jovem e Artístico de Boa Viagem.

     O Clube Internacional do Recife tinha tradição no Miss Pernambuco, ao contrário do Grupo Jovem de Boa Viagem, que até então só tinha ficado em evidência com os dois quintos lugares obtidos: Rita de Cássia Dutra Monteiro, em 1974, e Martha Waleska Vasconcelos, em 1975. O Grupo Jovem Artístico de Boa Viagem era dirigido por Fernando Bandeira Diniz e fazia um belo trabalho cristão, dando suporte às ações do Padre Osvaldo, pároco da Igreja Católica de Boa Viagem.

     Há seis anos fui apresentado a Julia Katia Araujo por Fernando Bandeira Diniz e desde então a amizade estabeleceu-se entre nós. Recentemente, encontramo-nos no Recife, no Shopping Center Tacaruna, e de lá fomos para a casa da minha sobrinha Darlene Gomes Campos, localizada em frente a uma das poéticas ladeiras históricas de Olinda, onde Julia Katia abriu seu coração para PASSARELA CULTURAL. Julia Katia estava acompanhada do sobrinho Ricardinho Araujo, vestia lilás, usava uma belíssima tiara de prata e uma tornozeleira by Beto Kelner, sapatos altos e cílios postiços.

     Julia Katia Araujo de Melo Lopes nasceu em 24 de dezembro de 1956. Filha de José Jorge Vieira de Araujo e Maria Nadeje de Araujo, ambos funcionários públicos federais, residentes no bairro popular recifense de Estância. Sua mãe exercia atividades burocráticas e seu pai era ascensorista do antigo INPS. Quando a situação econômica da família melhorou, seus pais foram morar em Boa Viagem, zona sul do Recife, área nobre, perto do mar.
     - “Eu era quase uma menina e gritei: Estou rica! Vou morar em Boa Viagem! Deixei de estudar no Colégio Independência, na Estância, e passei a estudar no Colégio Sagrado Coração, dirigido por freiras.” – confessa dando uma gargalhada.

     O nome Julia Katia foi uma homenagem da sua mãe ao Presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976). D. Maria Nadeje tinha grande admiração pelo então Presidente do Brasil e queria que as iniciais do nome da filha formasse "JK", abreviatura adotada pela imprensa para se referir a Juscelino Kubitschek. Julia, além de ser o nome da mãe de Juscelino, era também o da mãe de D. Maria Nadeje.

     Foi D. Maria Nadeje quem incentivou a filha a abraçar o mundo das passarelas. No dia em que conheceu pessoalmente a famosa manequim Germana Siqueira, D. Maria Nadeje pediu que ela apresentasse Julia Katia a Marcílio Campos. Julia passou um ano sendo treinada pelas figuras inesquecíveis de Marcílio Campos e Léa Pabst Craveiro.

     Na época, o que hoje as pessoas chamam de estilistas, eram tratados pelos termos de figurinistas ou costureiros. Marcílio Campos, costureiro, um ícone da moda pernambucana, ensinou a Julia Katia os segredos das passarelas. Léa Pabst Craveiro, jornalista, integrante da lista das mulheres mais elegantes de Pernambuco, gente finíssima, ensinou a Julia Katia todas as regras de etiqueta para que a jovem se portasse com classe e categoria em todos os ambientes. Em maio de 1971, aos 15 anos, Julia Katia iniciou sua vitoriosa carreira de manequim que duraria até 1982, quando desfilou na FENIT, em São Paulo, a coleção da estilista mineira Lucia Tavares.


Julia Katia na coluna de Alex, Jornal do Commercio, Recife, 28/02/1978


Julia Katia na coluna de João Alberto, Diario de Pernambuco, 22/03/1978


Julia Katia na coluna de José Rodolpho Câmara, revista Fatos & Fotos, 26/09/1977

     Suas aparições nas passarelas eram badaladas em todas as colunas sociais pernambucanas e foram notícias nas revistas Manchete, Fatos & Fotos e Ele & Ela. Uma vez, ao telefonar para Léa Pabst Craveiro, a fim de agradecer por ter sido focalizada em uma reportagem, ouviu a seguinte observação:
- “Julia, você é notícia. A imprensa tem que ir ao seu encontro. Você é a vedete de todas as coleções!“


Julia Katia e seu esposo Mario de Melo Lopes, durante uma festa em Paris. (Foto: Arquivo Pessoal)

     Julia Katia está viúva. Foi casada com Mario de Melo Lopes, cirurgião buco-maxilo-facial do Hospital da Restauração e professor da Universidade Federal de Pernambuco, falecido em 07/06/1998, vítima da doença de Alzheimer. Ao lado do seu grande amor, Julia Katia viajou pelo mundo inteiro. Por opção, não teve filhos, mas é muito ligada à família. Faz questão de ressaltar a figura maravilhosa da Mãe e da ótima convivência com os irmãos Ricardo, Fernando, Bianca e Fabíola e o apego à Thais, sobrinha-neta.

Coisas que adora: Camarão, vodka com limão, maça, vermelho, sinceridade, noite, navegar na internet...
Coisas que detesta: Traição e mentira
Filme: O Rei e Eu
Programa de TV: Jô Soares
Canção: New York, New York
Cantor: Emílio Santiago
Cantora: Maria Bethania
Compositor: Chico Buarque de Holanda
Uma palavra bonita: Amor
Uma mania: Cílios postiços. Adoro! Uso diariamente, desde o tempo de manequim e miss
Viver é... Amar
Motivo de orgulho: Meu casamento de 16 anos, 5 meses e 19 dias com Mario de Melo Lopes, meu “preto”
Uma saudade: Os mergulhos em alto mar que eu dava com meu marido, eu e ele nus, completamente nus
Um lugar inesquecível: Ushuaia, capital da Terra do Fogo
Se o mundo fosse acabar amanhã... Eu não acreditaria e cairia na farra
Santo de devoção: São Francisco de Assis

Uma Miss Pernambuco: Suzy Rêgo, vice-Miss Brasil 1984
Uma Miss Brasil: Marta Jussara, Miss Rio Grande do Norte, Miss Brasil 1979
Uma Miss Universo: a baiana Martha Vasconcellos, Miss Brasil, Miss Universo 1968
Você incentivaria uma sobrinha sua a concorrer a um título de Miss? Sim, desde que o concurso tivesse a magia do meu tempo de Miss
Quem deveria ter vencido o Miss Pernambuco 1976? Todas as garotas que estavam disputando o Miss Pernambuco 1976 tinham condições de vencer
Qual o maior diferencial da Miss do seu tempo para a Miss de hoje? Antigamente, as misses ou eram belas ou eram feias. Hoje, elas parecem que são todas iguais, pois é fácil transformar uma moça comum numa mulher linda. Basta operar o nariz, colocar silicone no busto, tirar costelas... Das misses atuais que conheço pessoalmente, cito o nome de Amanda Marques, Beleza Pernambuco 2005, como exemplo perfeito de beleza natural, sem nenhuma intervenção cirúrgica
Qual a maior recordação que ficou do tempo das passarelas?: São muitas as boas recordações. A convivência com o inesquecível Marcílio Campos foi a maior de todas. Guardo lembranças maravilhosas, entre elas, do aprendizado com a inesquecível jornalista Léa Pabst Craveiro. Quando eu ria alto e gargalhava, Léa me corrigia com aquela sua classe e elegância e dizia: - Katia, não sorria assim, ria mais baixo. Outras coisas boas que restaram daquele tempo foram as amizades sólidas com o estilista Paulo Carvalho e com Fernando Bandeira Diniz, coordenador do Beleza Pernambuco e do Miss Brasil Latina

Livro: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupèry
O maior sonho de sua vida: Ver a minha sobrinha-neta Thais, que nasceu com paralisia cerebral, ter uma vida totalmente independente. Com os recursos da medicina e com a minha fé em DEUS, sei que vou conseguir realizar este sonho!

     Julia Katia estava careca quando disputou o Miss Pernambuco 1976. “Topei raspar o cabelo para desfilar uma coleção, gostei do visual e durante um ano raspei a cabeça toda semana. Na época do concurso Miss Pernambuco, desfilei de peruca.”

     Julia Katia passou um tempo treinando as concorrentes ao título de Miss Pernambuco e Miss Rio Grande do Norte. "Ensaiadora de Misses", esse era o termo usado para designar sua função.

     No auge da carreira de manequim, recebeu convite para apresentar um programa de televisão no Rio de Janeiro. Recusou e explicou o porquê :
     - "Eles queriam lançar uma beleza nordestina diferente para apresentar um programa de televisão. Recusei. O produtor insinuou que eu teria de namorar com importantes figuras masculinas cariocas. Eu não quis pagar o preço de ficar milionária e famosa nacionalmente em troca da minha dignidade"


Julia Katia posando em uma das ladeiras poéticas e históricas de Olinda. (Foto:DML)

     Julia Katia está muito acima do seu peso ideal, devido a um problema na visão esquerda, diagnosticado como glaucoma. Ela precisou fazer uma cirurgia e a medicação causou efeitos colaterias, provocando excesso de peso. Na época, ela não se preocupou em reverter a gordura, mas agora está sendo obrigada a isso, com o propósito de manter o nível desejado da sua pressão arterial.


Julia Katia e um dos seus filhos do coração, o sobrinho Ricardinho Araujo. (Foto: DML)

     Na hora de nos despedirmos, pedi a Julia Katia que definisse quem ela era para os leitores de PASSARELA CULTURAL. Eis sua resposta: "Sou uma pessoa feliz. Agradeço a DEUS por tudo que já vivi e aprendi na minha vida. Não tenho o direito de reclamar de nada."

     Eu era uma das 22 mil pessoas presentes no Ginásio de Esportes Geraldo de Magalhães Melo, no Recife, naquele maio de 1976, na noite do Miss Pernambuco, quando a linda Matilde de Souza Terto levou para Serra Talhada o tricampeonato da beleza pernambucana. “É o tri, Serra Talhada!”, gritou o apresentador. A imagem é forte na minha lembrança, sem dúvida, mas há outras muito fortes:

1- A beleza da Miss Clube Náutico Capibaribe, Pompéia Farias, vice-Miss Pernambuco;
2- A classe de Maria Betânia Magalhães Albertin, Miss Pesqueira, semifinalista. Maria Betânia foi a primeira concorrente a tomar a iniciativa de parabenizar Matilde Souza Terto pela conquista do título, uma vez que outras se omitiram, descontentes com o resultado;
3- A atitude e o porte altivo de Julia Katia Araujo, Miss Grupo Jovem e Artístico de Boa Viagem. Julia Katia recebeu muitos aplausos. Também recebeu vaias por causa do seu biótipo e estilo de desfilar, fugindo do padrão das Misses tradicionais, desfilando com uma postura similar às modelos da atualidade. Linda, magérrima e cheia de atitude, Julia Katia foi classificada entre as dez semifinalistas e em momento algum ficou perturbada quando alguém mal-educado gritava: Tra-ves-ti!

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7 comentários:

DASLAN MELO LIMA disse...

Comentário de Mucíolo Ferreira, via e-mail
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Julia Katia, Miss Grupo Jovem e Artístico de Boa Viagem, não foi mais longe no Miss Pernambuco de 1976 porque seu biotipo fugia completamente ao padrão de beleza da época.
Se ela tivesse nascido duas décadas depois e participasse dos atuais concursos, certamente venceria de "barbada" qualquer competição.

Foi a mais classuda entre todas as misses que conheço até hoje. Preparada por Marcílio Campos, o maior costureiro que o Nordeste teve, ela tinha um domínio de passarela que chegava a enervar o público do Geraldão que não entendia os truques de uma manequim de verdade.
Era afinadíssima na arte de desfilar, assim como Elis Regna era para as notas musicais, sem nenhum exagero de minha parte

Fora das passarelas, a imagem mais comovente que guardo dela é de um vôo que fizemos juntos entre Recife e o Rio de Janeiro, na madrugada da quinta-feira da Semana Pré-Carnavalesca de 1992. Encontrei o casal Julia Katia e Mário Lopes ja no avião e pude testemunhar o carinho, o imenso amor do casal.
Dr. Mário Lopes sempre bem humorado, trocando carinhos com sua deusa e sempre com a filmadora eternizando aqueles momentos.

Quando desembarcamos, soube que eles iriam passar o Carnaval num cruzeiro pelas mares dos países do Mercosul. Mas antes de embarcarem num transatlântico de luxo teriam um tempinho para visitarem um dos filhos dele que morava em Nitéroi. Um casal que sempre marcou presença nas noitadas do Cabanga Iate Clube dançando com o rosto coladinho e combinando no figurino.

Parabéns ao Daslan pela feliz inicitiva de focalizar na Sessão Nostalgia nossa ex-manequim e figura tão festejada entre os missólogos pernambucanos, que é Júlia Kátia.

Mucíolo Ferreira

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Miss Brasil Latina disse...

Parabéns Daslan pela justíssima homenagem a nossa Deusa Júlia Kátia ! Só mesmo vc com sua sensilididade para fazê-lo de forma tão brilhante. Abraço ! Fernando Bandeira Diniz

DASLAN MELO LIMA disse...

Comentário de Maria Betânia Albertin, Miss Pesqueira 1976, via Orkut.
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Seu carinho, sua atenção e seu texto tão verdadeiro me emocionam.
Esta sua alma de poeta passa com muita autenticidade a sua grande sensibilidade.

Adorei rever minha companheira de concurso Julia Katia. Um sorrisão cheio de vida e a bela demonstração do seu grande amor pelo marido.
"Feliz do ser humano que tem a sorte de encontrar a sua alma gêmea, a sua cara metade".
Pois vi que Julia, como eu, graças a Deus, é uma dessas pessoas privilegiadas.

O meu abraço bem carinhoso a Julia. os meus mais sinceros agradecimentos a você e minha eterna gratidão.

Approveitei e me deliciei com a prazerosa leitura do seu maravilhoso PASSARELA CULTURAL.
Você está de parabéns pelo jornal, com textos claros, verdadeiros e cheios de amor.
DEUS te dê muita saúde.

Beijos com muito carinho.

Maria Betânia

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fabio Lima disse...

fiquei muito feliz em ler de forma tão correta sobre a vida e a carreira desta "figura" tão especial , que é a Julia Kátia. Parabéns pela publicação. Parabéns julia Kátia bjo no coração. Você é realmente especial

MARCONI RESENHA disse...

Apesar de não ter o privilégio de vê-la nas passarelas, acredito sim, que ela foi uma grande representante da beleza pernambucvana feminina.

Saulo Buarque disse...

Acabei de conhecer Júlia Kátia. Estava em Porto de Galinhas com minha esposa acompanhando a minha filha Sara Buarque no Miss Brasil Latina 2014, Miss Tocantins.
No hotel conversei com Kátia e lembrei que eu também estava no Geraldão em Recife naquele concurso de 1976, onde ela desfilou bonita e elegante.
Kátia é uma dessas pessoas agradáveis e de bem com vida, que dá gosto conversar.
Li um pouco nesse blogue sobre Kátia e gostaria de externar minha impressão sobre ela: "Fantástica".
Acompanhada da mãe, falou na ocasião do concurso de 1976, das alegrias da vida, do casamento feliz, da viuvez etc.
Gostaria de parabenizar Fernando, o Coordenador do Concurso por estar rodeado de pessoas de tão fino trato como Kátia, no seu concurso.
Enfim, minha filha foi a Miss Simpatia Brasil Latina 2014.

MARIA BETÂNIA MAGALHÃES DE ALBERTIM BOSSHARD disse...

ADOREI REVER ESTA BELA REPORTAGEM SOBRE A QUERIDA JÚLIA KÁTIA, COMPANHEIRA DE CONCURSO EM 1976. JÚLIA, CONTINUA MUITO BONITA, SIMPÁTICA E AGORA...VOLTOU A SUA MARCA REGISTRADA : CHARME E ELEGANCIA!!! PERDEU PESO E ESTÁ UM MULHERÃO... OS ANOS PASSARAM, MAS O PASSAR DOS ANOS, TE FEZ MUITO BEM!!! SEJA FELIZ JÚLIA E QUE DEUS CONTINUE TE ABENÇOANDO. AO QUERIDO DASLAN, ESTE FENOMENO DAS LETRAS E DA SENSIBILIDADE, O MEU MUITO OBRIGADA MAIS UMA VEZ, PELA GENEROSIDADE E CARINHO!!! ABRAÇOS : MARIA BETÂNIA MAGALHÃES DE ALBERTIM BOSSHARD.