*****

SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ NO BLOG PASSARELA CULTURAL, cujas postagens, na maioria das vezes, são postadas aos sábados e domingos. Nossa trajetória começou em 02/07/2004, com o nome de Timbaconexão, como coluna sociocultural do extinto site de entretenimento Timbafest. Em 12/10/2007, Timbaconexão migrou para blog com o nome de PASSARELA CULTURAL, quando teve início a contagem de visitas. ***** Editor: DASLAN MELO LIMA - Timbaúba, Pernambuco, Brasil. ***** Contatos : (81) 9-9612.0904 (Tim / WhatsApp). E-mail: daslanlima@gmail.com
Mostrando postagens com marcador Miss Universo 1954. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Miss Universo 1954. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de setembro de 2017

SESSÃO NOSTALGIA – “Nunca fiz mal a ninguém, mas a vida me castigou.” Os desabafos de Marta Rocha, a eterna Miss Brasil

Daslan Melo Lima

      Quem vai celebrar idade nova no dia 19 deste mês é Marta Rocha, a mais famosa Miss Brasil de todos os tempos. Dela já se falou incontáveis vezes, inclusive de ter perdido o título de Miss Universo por causa de duas lendárias polegadas (5,08 centímetros) a mais nos quadris. O que falar sobre ela? 

----------

      Encontrei algo diferenciado no meu acervo, a revista Claudia (Ano XIII, nº 153, junho de 1974), com marcas do tempo.  A publicação traz uma reportagem de quatro páginas com texto de Lea Maria Reis e fotos coloridas clicadas por Marisa de Lima, onde Marta Rocha confessava ser míope, pontual, perfeccionista, vaidosa, às vezes feia. E desabafava várias vezes.

----------
Marta Rocha - 20 anos depois

----------
----------


        Tímida, míope, sofrida, gente. Pouca gente conhece este lado da imagem de Marta Rocha Xavier de Lima, miss celebrizada até em letra de samba, modelo de beleza – até hoje – das mulheres brasileiras e, sobretudo, namorada de um povo inteiro, com foto pregada em porta de guarda-roupa de toda uma geração. Hoje, mãe de três filhos, casada com o industrial Ronaldo Xavier de Lima – seu segundo casamento -, Marta talvez seja ainda mais bela. Mais consciente de sua pessoa humana, e não apenas de uma imagem. Um pouco triste, quando diz:
     - Ninguém nunca me perguntou se sou bonita por dentro. Olhe, minha alma não é feia, não. Nunca fiz mal a ninguém, mas a vida me castigou. No entanto, se tivesse que recomeçar, faria tudo o que fiz outra vez. Às vezes, o lendário olhar azul foge, e ela, sentada no terraço de sua cobertura da avenida Atlântica, em Copacabana, se torna um pouco como que ausente. O olhar foge para o mar, uma de suas paixões (“as outras são cachorro, cavalo, árvore, flor, natureza, tudo o que é belo e natural”), mas quase imediatamente, fração de segundo, Marta volta à conversa e me diz:  
    - Por que você não me deixa fazer algumas perguntas, eu mesma? Coisas que nunca ninguém teve ideia de me perguntar.
     - Por exemplo...
    - Ninguém nunca me perguntou como sou na realidade. Poucos são os que conhecem. Têm uma imagem muito vazia de mim. No fundo, poucos foram os que me deram realmente atenção, no sentido de indagarem quem é Marta Rocha.
    “Para começar, sou míope. Sou perfeccionista – como convém a alguém nascido sob o signo de Virgem. Nada deixo pela metade na tarefa que me proponho fazer. Sou pontual. E cansei de não procurarem saber como é meu espírito. Sou forte, Me recupero sempre. E às vezes sinto dores de cabeça fortes.”

----------

A excessiva emoção levou Marta à Psicanálise


          “Sofria demais com a miséria humana, hoje procuro mudar: me libertar de uma excessiva emotividade que projetava nos outros, nos desastres que aconteciam com amigos, nas tristezas deles, em seus problemas. Hoje, estou mais do que nunca preocupada em viver no nível da realidade.”
          Por isto Marta faz psicanálise. Quatro vezes por semana. Há um ano. É uma mulher ocupada em se conhecer e, justamente como diz, em “viver num nível de realidade”. Sem idealizações. Nascida num dia 17 de setembro, sétima filha entre os onze irmãos da família de Álvaro Rocha, engenheiro e professor baiano, de Salvador, e de Hansa Heckel Rocha, de origem alemã, nascida no sul, Marta sempre ouviu dizer, desde criança: “Os olhos dela são duas contas azuis; sua pele parece louça”.
        Estudante, quando mocinha, do Colégio Sofia Costa Pinto, estudava alemão, francês, inglês, espanhol. Era interessada em línguas e vivia sua vida de garota da Barra – do Farol da Barra, como ela mesmo frisa -, classe média, lindíssima, “só que o rosto era um pouco mais bochechudo”, quando pediram ao pai concorresse ao Miss Bahia. Era o ano de 1954. Em julho do mesmo ano, depois de eleita a mais linda da Bahia, Marta era coroada, no Hotel Quitandinha, Miss Brasil e, logo a seguir, em meio a uma campanha de publicidade intensa, era considerada a moça mais bonita do concurso internacional de beleza, em Miami. Apesar do segundo lugar – Miss Universo foi eleita a americana Miriam Stevenson -, e todos sabiam que Marta era o rosto e o corpo mais harmoniosos do concurso. Sua premiação foi de Miss Universo: - Lembro bem: me deram um Dodge especial, branco, forrado de vermelho, conversível, que trouxe comigo e que usei muito. – Ela diz isto rindo. – E pérolas, e presentes, quantos presentes!
          Eram dias de glória e de fama. Marta Rocha – e a célebre história de suas duas polegadas a mais (na verdade era uma só, ou seja, cerca de três centímetros) – tornava-se o primeiro ídolo nacional da sociedade brasileira prestes a entrar na sua fase de comunicação de massas.
------
Corrigindo a reportagem: Marta Rocha nasceu num dia 19 de setembro. O concurso Miss Universo 1954 foi realizado em Long Beach. A história sempre foi de duas polegadas a mais nos quadris. Uma polegada equivale a 2,54 centímetros. Duas somam 5,08 centímetros.
----------

Todas se achavam seu namorado, mas quem venceu foi Piano

Não ganhou o título, mas ficou com a glória - A revelação em 54: Marta perde o titulo de Miss Universo, mas torna-se ídolo nacional, letra de música, exemplo, namorada de uma geração. Daí para o casamento com Piano é um passo. No carnaval é capa de revista, o ídolo de sempre.
----------
Marta Rocha: sempre notícia, sempre modelo - No segundo casamento, vestiu azul: as noivas do ano desistiram do branco. Marta era moda de novo. Cada filho seu se transformou em manchete, como é notícia cada fantasia que usa para realçar sua beleza. 
----------
          “Namorada do Brasil” era o título que mais frequentemente lhe davam. Todo brasileiro da época sentia-se assim: namorado de Marta. Então, ela conhece o português Álvaro Piano, radicado na Argentina, banqueiro. Casa aos 23 anos. Vai morar em Buenos Aires, torna-se mãe de Álvaro, hoje com 17 anos, olhos azuis iguais aos da mãe, garoto louro e bonito. Dois anos depois Piano morre em desastre de aviação em Mar del Plata. Marta, viúva, volta ao Brasil, em férias. Nova consagração. No Maracanãzinho recebe a maior homenagem à sua beleza. Vestia roupa preta, era discreta, apesar de aparecer assim, para a multidão, ao vivo. É quando conhece um dos rapazes da famosa turma da rua Miguel Lemos, de Copacabana, Ronaldo Xavier de Lima, que em companhia de amigos, visita Marta, na casa de sua maior amiga, Bebete Freitas, no Rio, pedindo seu apoio para uma campanha política de um companheiro do grupo.
        Conversa vai, conversa vem, os dois começam a sair juntos. Primeiro programa: um passeio no Itanhangá Gol Club, onde Ronaldo jogava pólo (coisa que faz até hoje, ele é um apaixonado desse esporte, e, no estúdio recém construído na cobertura do casal, várias taças, sobre uma cômoda, atestam sua habilidade). Ronaldo vai à Bahia, pede Marta em casamento. A cerimônia é realizada com pompa, em meio a uma multidão delirante, na igreja da Candelária. Marta usava um vestido azul-claro, da Casa Canadá, com uma capa por cima. A roupa faz escola, várias noivas dos próximos tempos copiam o feitio.
       Para Marta começava uma segunda etapa em sua vida. Torna-se mãe de mais dois filhos: Carlos Alberto, hoje com 16 anos, e Cláudia, de 10 anos. “Os três, observa Marta, “têm grande personalidade. São teimosos, às vezes, mas sempre sabem o que querem. Eu adoro isto, neles.” E então, chega-se a hoje. Vinte anos depois, Marta diz, enquanto é fotografada: “Estou cansada de usar penduricalhos. Quero o esporte, o descontraído, quero as calças compridas, quero o informal.”
----------
Corrigindo a reportagem: Álvaro e Carlos Alberto são filhos de Marta Rocha com o seu primeiro esposo, Álvaro Piano. Com Ronaldo Xavier de Lima, seu segundo esposo, ela teve apenas uma filha, Cláudia. 
----------

Sinto-me bem em qualquer ambiente: pobre ou grã-fino


          - Então por que frequenta com tanta assiduidade as festas formais da alta sociedade?
          - Porque gosto de frequentar lugares – sejam grã-finos ou simples e pobres – onde me sinta bem. Se estou me sentindo bem, não me importa onde estou.
             - E a solidão? Incomoda, às vezes?
          - Há momentos em que gosto de ficar sozinha. Mas, afinal, fui criada numa casa sempre cheia. Com muitos irmãos. Com muito movimento: gente entrando, gente saindo, amigos, calor. A solidão não me incomoda. Sempre que quero, tenho amigos que me aconchegam. “Mas sofri muito. Me sinto muito sensível. E sofri sem necessidade. Por pessoas que às vezes nem conhecia, que nem me diziam respeito. Há frustrações. Por exemplo: não ter estudado mais.  Agora, quero voltar à faculdade – são projetos para o ano que vem. Quero estudar línguas e me aprofundar nos estudos.”
          Marta vaidosa. Assumindo a vaidade natural da mulher. Cuidando da linha. “Sem precisar ser magérrima, como um manequim de Dior. Sem fazer disto religião. Mas me sentir bem fisicamente.” Come frutas, peixes, carnes, sempre que engorda mais um pouco. “Mas detesto alface. E adoro agrião. Como agrião todos os dias.” Verduras, legumes. Biscoitos cream crackers dietéticos. Ioga. “Faço sozinha. Aprendi. Faço ioga antes de dormir, quando estou muito tensa. É ótimo.” Para a pele – ainda uma pele de “de louça”, com um bronzeado natural, surpreendente, que não precisa de nenhum creme bronzeador – Marta usa creme hidratante. Da Revlon. Com vitamina E. E o creme Acquamarine, também da Revlon, para o corpo. Seu peso, hoje, é de 58 quilos. O manequim, 42. A altura de Marta: 1,70 m. Suas roupas são simples. Os vestidos importantes, sempre de Gérson, seu costureiro predileto, já há anos. Brancos, azuis, verdes, as cores preferidas para vestir. E de roupas esportivas, os jeans, as malhas, as peças compradas em várias boutiques. “Onde passo e vejo alguma coisa de que gosto; não há nenhuma preferida em especial.” Seu cabelo é Demoar – que faz o corte de seus cabelos louros, de um louro natural. Ou então Jambert. O seu maquiador – ela usa maquilagem – é Paulo Flores.  
 ----------

Marta se diz dinâmica, ordeira, arrogante

        Organizada, meticulosa, Marta diz que gosta de ter tudo cuidado, guardado “em caixas que sei sempre onde estão e o que contêm”. É dinâmica: “Não sei ficar parada. Sabe? Me conheço já bastante. Sei, por exemplo, que sou decidida, determinada. Arrogante, no sentido em que me protejo da curiosidade alheia, malsã”.
            - Mas dentre as perguntas que você gostaria de fazer...
          - “Você sacha que todo mundo tem a obrigação de me achar bonita?” é uma delas. Eu respondo: “Não. Entendo perfeitamente que haja gente que me ache feia. Eu mesma, quantas vezes, me acho feia”.
         Ela é muito honesta quando mostra a necessidade que sente de ser reconhecida e aceita pelo que é. Não pela beleza extraordinária. Insiste: “Minha alma não é feia. Se eu pudesse, faria todas as pessoas felizes. Se tudo dependesse de mim, tudo seria mais bonito.
          O olhar azul da “namorada do Brasil”, de até hoje ídolo, foge outra vez para o mar. Mas ela sabe que ainda hoje – porque sua amiga Bebete, está presente, e conta – é um símbolo de beleza para a alma brasileira. O jornaleiro da esquina outro dia mesmo comentava: “Dona Marta? É incrível. Depois de vinte anos, ela ainda é quem mais vende revista aqui, em Copacabana. Marta Rocha na capa esgota rapidamente". E isto pesa. Sem dúvida.

----------

Marta Rocha -  Foto: Mário Sérgio Costa/Divulgação


        Depois daquele julho de 1974, quando foi focalizada na Claudia, o casamento de Marta Rocha com Ronaldo Xavier de Lima, já falecido, acabou. Teve outros relacionamentos. Enfrentou aborrecimentos e conheceu dificuldades financeiras. Viajou muito pelo Brasil e recebeu lindas homenagens.
             Feliz idade nova, Marta Rocha, eterna namorada do Brasil. 

*****
---------
Esta é a capa da revista Claudia, Ano XIII, nº 153, junho de 1974.
A jovem é Ângela Catramby (1952-2016), Senhorita Rio 1968.

sábado, 9 de julho de 2016

SESSÃO NOSTALGIA - Martha! Martha! Ninguém tem o teu violão!

Daslan Melo Lima




          Fico a pensar como era elevada a autoestima daquela jovem ao ouvir o refrão da marchinha que enaltecia sua beleza: “Martha!  Martha! / Não ligue mais pra isso não! / Martha! Martha! / Ninguém tem o seu violão”.  A música Duas Polegadas, de Pedro Caetano,  Alcyr Pires Vermelho e Carlos Renato, enaltecia Martha Rocha, Miss Bahia, Miss Brasil e vice-Miss Universo 1954. Falava do inconformismo de uma nação, por sua representante ter perdido o título máximo da beleza universal para Miriam Stevenson, Miss Estados Unidos, derrota atribuída às lendárias duas polegadas a mais nos quadris, algo em torno de cinco centímetros.  


          DUAS POLEGADAS
Martha Rocha e Miriam Stevenson. (O Cruzeiro)

         Na realidade, a justificativa de Martha Rocha não ter sido eleita Miss Universo, nada mais foi do que uma  invenção do jornalista João Martins, da revista O Cruzeiro, para consolar os brasileiros. Detalhe importante: a música foi gravada pela própria Martha Rocha.



Por duas polegadas a mais
Passaram a baiana pra  trás
Por duas polegadas e logo nos quadris
Tem dó, tem dó, seu juiz.

Martha!  Martha!
Não ligue mais pra isso não
Martha! Martha!
Ninguém tem o seu violão.
----------

TODO O BRASIL SE UFANA

         Outra música, desta vez Martha Rocha (Miss Brasil), composição de Wilson Batista, Jorge de Castro e Américo Seixas, gravada pelo cantor baiano Vitor Bacelar (1911-2005), dizia assim:

Todo o Brasil se ufana
Junto do teu pedestal
E te oferece, oh! Baiana,
A coroa da beleza universal.

És botão em flor que desabrocha
No encanto do teu perfil
Martha! Martha Rocha!
Recebe esta homenagem do Brasil.


           Eu conhecia há anos a primeira música, mas a outra só recentemente,  graças ao meu amigo Roberto Macêdo, missólogo, pesquisador, jornalista e escritor baiano, que  enviou-me por e-mail alguns links do Youtube sobre a trajetória da mais famosa Miss Brasil de todos os tempos.
----------

ABRAÇO FRATERNAL

       

  Emilinha Borba e Martha Rocha. (Revista do Rádio)
      
      Martha Rocha também gravou em dueto com Emilinha Borba (1923-2005) o samba Abraço Fraternal, autoria de Pedro Caetano, Carlos Renato e Alcino Guedes.

Emília, você não sabe
Como eu estou contente
Com o carinho desta gente
Aqui da sua capital.
-------
Martinha, você merece
Porque é lá da Bahia
E a sua  simpatia
É interestadual.
---------
Meu  coração encantado
Agradece a gentileza
E enaltece e natureza
Por seu Rio sedutor.
--------
Quem agradece é o Rio
Esta honra da visita
Da baiana mais bonita
Que nos vem de Salvador.
--------
Vamos deixar de confete
Acabou-se o carnaval
Terminemos o nosso show
Num abraço fraternal.
Não falemos da Bahia
Nem do Rio de Janeiro
Falemos da nossa terra que é o Brasil inteiro.
----------


                Vale a pena recordar retalhos de uma época, relíquias de um tempo que se foi, onde o interesse do nosso Brasil pelas misses era tão grande quanto é hoje o entusiasmo pela Copa do Mundo. 
          

Duas Polegadas
----------
Martha Rocha (Miss Brasil)
-----------
Abraço Fraternal
https://www.youtube.com/watch?v=8ah_oEPG9Xk
----------
Martha desembarca em Salvador como vice-Miss Universo
----------
Visita de Martha Rocha a Araçatuba
https://www.youtube.com/watch?v=H1epNwWmXfI

*****

sábado, 8 de junho de 2013

SESSÃO NOSTALGIA - MIRIAM STEVENSON, MISS UNIVERSO 1954, UM DOCE DE CRIATURA

Daslan Melo Lima

      

         A baiana Martha Rocha perdeu o título de Miss Universo 1954 por causa de duas polegadas a mais nos quadris. Essa história já foi contada em verso e prosa milhares de vezes. Mas quem era  a jovem que ganhou de Martha Rocha?  Um doce de criatura, conforme reportagem de fevereiro de 1955, quando Miriam Stevenson esteve no Brasil e a revista O Cruzeiro enalteceu sua beleza e personalidade.
      Nesta noite do segundo sábado de junho de 2013, enquanto chove lá fora, nada melhor para combinar com o clima do que resgatar mágicas histórias de um tempo que se foi.  A foto ao lado é da revista Mundo Ilustrado, copiada da Internet, mas as imagens abaixo foram reproduzidas da citada O Cruzeiro, uma das relíquias do meu acervo que ora compartilho com os saudosistas.
     A qualidade das imagens reproduzidas não ficou boa, mas prometo reverter o problema nos próximos dias.
 -------------------


A MOÇA QUE VENCEU EM LONG BEACH – MIRIAM STEVENSON SOB O SOL CARIOCA (Texto e fotos de João Martins, revista O Cruzeiro, 05 de março de 1955)
         


 
Passeando de barco a motor, pela Guanabara, ela viveu algumas horas tranquilas e pode apreciar a beleza do Rio de Janeiro. Miriam é uma moça simples. As multidões a constrangem. Não se acostumou à notoriedade.  Miriam esteve em Copacabana, mas em pouco tempo foi reconhecida e teve de fugir aos caçadores de autógrafos. Na verdade, ela gostaria de ficar incógnita e tomar o seu banho de mar em paz, como todo mundo.

      Miriam Stevenson, a Miss Universo 1954, vencedora no ano passado, em Long Beach, do título de “a moça mais bela do mundo”, é uma flor de criatura. Não vamos debater aqui se ela mereceu ou não mereceu a vitória. Os juízes decidiram e não adianta chorar, o que além de contraproducente, é feio e antiesportivo.  Ainda mais sendo ela agora nossa hóspede, seria o cúmulo da estupidez querer aproveitar a ocasião e estabelecer paralelos com a nossa candidata e fazer um julgamentozinho à base do sentimento nacionalista: isso seria uma atitude não só inútil como, principalmente, inferior e incivil. Mesmo porque, aqueles que teimam em levantar comparações entre Miriam e Martha Rocha estão perdendo o tempo e o latim. As duas são de dois tipos inteiramente diferentes. Martha tem a flamante beleza selvagem de uma onça pintada, enquanto Miriam tem a plácida beleza cândida de um cordeirinho de presépio. Pode-se gostar mais de uma ou de outra, assim como há quem prefira o vinho tinto ao vinho branco. Mas quem pode afirmar que um é melhor do que o outro, a não ser na base do seu paladar pessoal? Ninguém é mais do que eu, que assisti ao concurso nos Estados Unidos e tanto escrevi sobre a brilhante campanha e os encantos da nossa baianinha loura, poderá se sentir com mais autoridade para condenar qualquer choro ou qualquer indelicadeza com essa moça que agora nos veio visitar.
      Pessoalmente, Miriam tem um arzinho ingênuo de quem ensina catecismo: vai-se ver, e ela ensina mesmo, na igreja da universidade em que estuda. Aliás, a Miss Universo é um exemplo feminino no qual estão reunidos vários atributos que dificilmente se reúnem numa só mulher. Basta dizer que o título que conquistou não a abalou em nada: continua a mesma mocinha simples, sem máscara, que conheci na Califórnia ainda sem coroa. Depois de ficar seis semanas nos estúdios da Universal, conseguiu a suspensão do contrato a que tem direito a fim de terminar o seu curso de Economia Doméstica na Universidade Lander, em Greenwood. E depois, voltara à carreira cinematográfica? Na verdade, sei que ela gostaria mais de casar e ter uma vida normal, com o marido e alguns filhos.

      Ela foi trazida para o Rio por Fábio Ramos, um dos organizadores do concurso anterior, no Brasil. Finalidades da viagem: assistir ao carnaval e, naturalmente, dar início ao certame de 1955. Com ela, veio também a Sra. Jean Salomon, que é assim, como uma guardiã da virtude e, nessa qualidade, não a abandona um só instante. A Sra. Salomon foi a acompanhante de Martha Rocha em Long Beach, no ano passado.


      As perguntas mais frequentes a Miriam, segundo observei, foram o que achava do Brasil e se havia gostado de carnaval. Naturalmente, as respostas não deixaram de ser aquelas de sempre: “lindo” e “formidável”.  Mas, na verdade, nos poucos dias que passou entre nós, ela não teve nenhuma chance de conhecer as cidades em que esteve nem de saber o que era mesmo carnaval. Basta dizer que nem sequer pode fazer algumas compras e, do carnaval, só deve ter levado a impressão de confusão e barulho.
       Consegui arrancá-la, uma certa tarde, do hotel e dos compromissos e levei-a a Copacabana, Leblon e a uma volta de barco pela Guanabara: e assim foram feitas as fotos que os leitores vêem nesta reportagem. Há muita gente que gostaria de saber, também, o que ela pensa de Martha e vice-versa. Aparentemente, para efeito de fotografia, as duas se dão muito bem. Mas creio que a pergunta, a qualquer das duas, seria uma ingenuidade. Isso, embora Miriam me tenha dito, quando lhe perguntei o que era a felicidade, na sua concepção: “– Acho que ser feliz é procurar viver dentro dos princípios que Cristo nos ensinou...”
      A rainha da beleza universal é uma jovem simpática e despretensiosa. Miriam usa pouca maquliagem. Simples pó facial, que não dá para esconder as sardas. Quanto ao batom, porém, ela cararega um pouco mais. Seus lábios são bem finos. A cabeleireira loura é natural e não requer muitos cuidados. Ela mesmo se penteia.  No Hotel Glória, onde ficou hospedada, ela ocupou o mesmo quarto da turbulenta Ava Gardner. Mas Miriam é o oposto de Ava. É moça pacata, que não quebra nada e não bebe. Com uma pequena câmara, levou algumas paisagens de lembrança para o seu país. Esportiva, adora o mar. O seu esporte predileto é a natação. Não faz dieta nem ginástica especial. No Rio, deu muitos autógrafos. E a todos encantou com a sua simpatia e delicadeza. Gosta também de dançar, ela é, na verdade, uma típica moça norte-americana. Os seus vestidos são simples, mas elegantes. “Gosto de me vestir sem exagero”, disse ela. E se vê que é mesmo.  De maiô, pode-se verificar que a sua plástica é realmente harmoniosa. Medidas perfeitas. Corpo de proporções ideais.

DUAS BELEZAS SE ENCONTRAM – Sob as luz dos refletores encontraram-se, no baile realizado no Hotel Glória, Martha Rocha e Miriam Stevenson, duas grandes rivais em beleza. A brasileira e a norte-americana confraternizaram para os fotógrafos e cinegrafistas. Mas que pensaram, realmente, uma da outra? Dois tipos de beleza inteiramente diferentes, tornando quase impossível uma comparação. Um mar revolto e um plácido lago. Não acham?
--------------------
                  O tom sépia da revista O Cruzeiro transmite nostalgia, um sentimento que se acentua anda mais nesta noite fria de sábado,  quando chove lá fora. Mergulho no túnel do tempo e me deleito com os termos usados pelo jornalista,  enquanto lá fora a chuva cai, copiosamente cai.
-----
Martha tem a flamante beleza selvagem de uma onça pintada, enquanto Miriam tem a plácida beleza cândida de um cordeirinho de presépio. Pode-se gostar mais de uma ou de outra, assim como há quem prefira o vinho tinto ao vinho branco. Mas quem pode afirmar que um é melhor do que o outro, a não ser na base do seu paladar pessoal?
-----
A brasileira e a norte-americana confraternizaram para os fotógrafos e cinegrafistas. Mas que pensaram, realmente, uma da outra? Dois tipos de beleza inteiramente diferentes, tornando quase impossível uma comparação. Um mar revolto e um plácido lago. Não acham?
-----
...Isso, embora Miriam me tenha dito, quando lhe perguntei o que era a felicidade, na sua concepção: “– Acho que ser feliz é procurar viver dentro dos princípios que Cristo nos ensinou...”
*****