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sábado, 9 de setembro de 2017

SESSÃO NOSTALGIA – “Nunca fiz mal a ninguém, mas a vida me castigou.” Os desabafos de Marta Rocha, a eterna Miss Brasil

Daslan Melo Lima

      Quem vai celebrar idade nova no dia 19 deste mês é Marta Rocha, a mais famosa Miss Brasil de todos os tempos. Dela já se falou incontáveis vezes, inclusive de ter perdido o título de Miss Universo por causa de duas lendárias polegadas (5,08 centímetros) a mais nos quadris. O que falar sobre ela? 

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      Encontrei algo diferenciado no meu acervo, a revista Claudia (Ano XIII, nº 153, junho de 1974), com marcas do tempo.  A publicação traz uma reportagem de quatro páginas com texto de Lea Maria Reis e fotos coloridas clicadas por Marisa de Lima, onde Marta Rocha confessava ser míope, pontual, perfeccionista, vaidosa, às vezes feia. E desabafava várias vezes.

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Marta Rocha - 20 anos depois

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        Tímida, míope, sofrida, gente. Pouca gente conhece este lado da imagem de Marta Rocha Xavier de Lima, miss celebrizada até em letra de samba, modelo de beleza – até hoje – das mulheres brasileiras e, sobretudo, namorada de um povo inteiro, com foto pregada em porta de guarda-roupa de toda uma geração. Hoje, mãe de três filhos, casada com o industrial Ronaldo Xavier de Lima – seu segundo casamento -, Marta talvez seja ainda mais bela. Mais consciente de sua pessoa humana, e não apenas de uma imagem. Um pouco triste, quando diz:
     - Ninguém nunca me perguntou se sou bonita por dentro. Olhe, minha alma não é feia, não. Nunca fiz mal a ninguém, mas a vida me castigou. No entanto, se tivesse que recomeçar, faria tudo o que fiz outra vez. Às vezes, o lendário olhar azul foge, e ela, sentada no terraço de sua cobertura da avenida Atlântica, em Copacabana, se torna um pouco como que ausente. O olhar foge para o mar, uma de suas paixões (“as outras são cachorro, cavalo, árvore, flor, natureza, tudo o que é belo e natural”), mas quase imediatamente, fração de segundo, Marta volta à conversa e me diz:  
    - Por que você não me deixa fazer algumas perguntas, eu mesma? Coisas que nunca ninguém teve ideia de me perguntar.
     - Por exemplo...
    - Ninguém nunca me perguntou como sou na realidade. Poucos são os que conhecem. Têm uma imagem muito vazia de mim. No fundo, poucos foram os que me deram realmente atenção, no sentido de indagarem quem é Marta Rocha.
    “Para começar, sou míope. Sou perfeccionista – como convém a alguém nascido sob o signo de Virgem. Nada deixo pela metade na tarefa que me proponho fazer. Sou pontual. E cansei de não procurarem saber como é meu espírito. Sou forte, Me recupero sempre. E às vezes sinto dores de cabeça fortes.”

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A excessiva emoção levou Marta à Psicanálise


          “Sofria demais com a miséria humana, hoje procuro mudar: me libertar de uma excessiva emotividade que projetava nos outros, nos desastres que aconteciam com amigos, nas tristezas deles, em seus problemas. Hoje, estou mais do que nunca preocupada em viver no nível da realidade.”
          Por isto Marta faz psicanálise. Quatro vezes por semana. Há um ano. É uma mulher ocupada em se conhecer e, justamente como diz, em “viver num nível de realidade”. Sem idealizações. Nascida num dia 17 de setembro, sétima filha entre os onze irmãos da família de Álvaro Rocha, engenheiro e professor baiano, de Salvador, e de Hansa Heckel Rocha, de origem alemã, nascida no sul, Marta sempre ouviu dizer, desde criança: “Os olhos dela são duas contas azuis; sua pele parece louça”.
        Estudante, quando mocinha, do Colégio Sofia Costa Pinto, estudava alemão, francês, inglês, espanhol. Era interessada em línguas e vivia sua vida de garota da Barra – do Farol da Barra, como ela mesmo frisa -, classe média, lindíssima, “só que o rosto era um pouco mais bochechudo”, quando pediram ao pai concorresse ao Miss Bahia. Era o ano de 1954. Em julho do mesmo ano, depois de eleita a mais linda da Bahia, Marta era coroada, no Hotel Quitandinha, Miss Brasil e, logo a seguir, em meio a uma campanha de publicidade intensa, era considerada a moça mais bonita do concurso internacional de beleza, em Miami. Apesar do segundo lugar – Miss Universo foi eleita a americana Miriam Stevenson -, e todos sabiam que Marta era o rosto e o corpo mais harmoniosos do concurso. Sua premiação foi de Miss Universo: - Lembro bem: me deram um Dodge especial, branco, forrado de vermelho, conversível, que trouxe comigo e que usei muito. – Ela diz isto rindo. – E pérolas, e presentes, quantos presentes!
          Eram dias de glória e de fama. Marta Rocha – e a célebre história de suas duas polegadas a mais (na verdade era uma só, ou seja, cerca de três centímetros) – tornava-se o primeiro ídolo nacional da sociedade brasileira prestes a entrar na sua fase de comunicação de massas.
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Corrigindo a reportagem: Marta Rocha nasceu num dia 19 de setembro. O concurso Miss Universo 1954 foi realizado em Long Beach. A história sempre foi de duas polegadas a mais nos quadris. Uma polegada equivale a 2,54 centímetros. Duas somam 5,08 centímetros.
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Todas se achavam seu namorado, mas quem venceu foi Piano

Não ganhou o título, mas ficou com a glória - A revelação em 54: Marta perde o titulo de Miss Universo, mas torna-se ídolo nacional, letra de música, exemplo, namorada de uma geração. Daí para o casamento com Piano é um passo. No carnaval é capa de revista, o ídolo de sempre.
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Marta Rocha: sempre notícia, sempre modelo - No segundo casamento, vestiu azul: as noivas do ano desistiram do branco. Marta era moda de novo. Cada filho seu se transformou em manchete, como é notícia cada fantasia que usa para realçar sua beleza. 
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          “Namorada do Brasil” era o título que mais frequentemente lhe davam. Todo brasileiro da época sentia-se assim: namorado de Marta. Então, ela conhece o português Álvaro Piano, radicado na Argentina, banqueiro. Casa aos 23 anos. Vai morar em Buenos Aires, torna-se mãe de Álvaro, hoje com 17 anos, olhos azuis iguais aos da mãe, garoto louro e bonito. Dois anos depois Piano morre em desastre de aviação em Mar del Plata. Marta, viúva, volta ao Brasil, em férias. Nova consagração. No Maracanãzinho recebe a maior homenagem à sua beleza. Vestia roupa preta, era discreta, apesar de aparecer assim, para a multidão, ao vivo. É quando conhece um dos rapazes da famosa turma da rua Miguel Lemos, de Copacabana, Ronaldo Xavier de Lima, que em companhia de amigos, visita Marta, na casa de sua maior amiga, Bebete Freitas, no Rio, pedindo seu apoio para uma campanha política de um companheiro do grupo.
        Conversa vai, conversa vem, os dois começam a sair juntos. Primeiro programa: um passeio no Itanhangá Gol Club, onde Ronaldo jogava pólo (coisa que faz até hoje, ele é um apaixonado desse esporte, e, no estúdio recém construído na cobertura do casal, várias taças, sobre uma cômoda, atestam sua habilidade). Ronaldo vai à Bahia, pede Marta em casamento. A cerimônia é realizada com pompa, em meio a uma multidão delirante, na igreja da Candelária. Marta usava um vestido azul-claro, da Casa Canadá, com uma capa por cima. A roupa faz escola, várias noivas dos próximos tempos copiam o feitio.
       Para Marta começava uma segunda etapa em sua vida. Torna-se mãe de mais dois filhos: Carlos Alberto, hoje com 16 anos, e Cláudia, de 10 anos. “Os três, observa Marta, “têm grande personalidade. São teimosos, às vezes, mas sempre sabem o que querem. Eu adoro isto, neles.” E então, chega-se a hoje. Vinte anos depois, Marta diz, enquanto é fotografada: “Estou cansada de usar penduricalhos. Quero o esporte, o descontraído, quero as calças compridas, quero o informal.”
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Corrigindo a reportagem: Álvaro e Carlos Alberto são filhos de Marta Rocha com o seu primeiro esposo, Álvaro Piano. Com Ronaldo Xavier de Lima, seu segundo esposo, ela teve apenas uma filha, Cláudia. 
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Sinto-me bem em qualquer ambiente: pobre ou grã-fino


          - Então por que frequenta com tanta assiduidade as festas formais da alta sociedade?
          - Porque gosto de frequentar lugares – sejam grã-finos ou simples e pobres – onde me sinta bem. Se estou me sentindo bem, não me importa onde estou.
             - E a solidão? Incomoda, às vezes?
          - Há momentos em que gosto de ficar sozinha. Mas, afinal, fui criada numa casa sempre cheia. Com muitos irmãos. Com muito movimento: gente entrando, gente saindo, amigos, calor. A solidão não me incomoda. Sempre que quero, tenho amigos que me aconchegam. “Mas sofri muito. Me sinto muito sensível. E sofri sem necessidade. Por pessoas que às vezes nem conhecia, que nem me diziam respeito. Há frustrações. Por exemplo: não ter estudado mais.  Agora, quero voltar à faculdade – são projetos para o ano que vem. Quero estudar línguas e me aprofundar nos estudos.”
          Marta vaidosa. Assumindo a vaidade natural da mulher. Cuidando da linha. “Sem precisar ser magérrima, como um manequim de Dior. Sem fazer disto religião. Mas me sentir bem fisicamente.” Come frutas, peixes, carnes, sempre que engorda mais um pouco. “Mas detesto alface. E adoro agrião. Como agrião todos os dias.” Verduras, legumes. Biscoitos cream crackers dietéticos. Ioga. “Faço sozinha. Aprendi. Faço ioga antes de dormir, quando estou muito tensa. É ótimo.” Para a pele – ainda uma pele de “de louça”, com um bronzeado natural, surpreendente, que não precisa de nenhum creme bronzeador – Marta usa creme hidratante. Da Revlon. Com vitamina E. E o creme Acquamarine, também da Revlon, para o corpo. Seu peso, hoje, é de 58 quilos. O manequim, 42. A altura de Marta: 1,70 m. Suas roupas são simples. Os vestidos importantes, sempre de Gérson, seu costureiro predileto, já há anos. Brancos, azuis, verdes, as cores preferidas para vestir. E de roupas esportivas, os jeans, as malhas, as peças compradas em várias boutiques. “Onde passo e vejo alguma coisa de que gosto; não há nenhuma preferida em especial.” Seu cabelo é Demoar – que faz o corte de seus cabelos louros, de um louro natural. Ou então Jambert. O seu maquiador – ela usa maquilagem – é Paulo Flores.  
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Marta se diz dinâmica, ordeira, arrogante

        Organizada, meticulosa, Marta diz que gosta de ter tudo cuidado, guardado “em caixas que sei sempre onde estão e o que contêm”. É dinâmica: “Não sei ficar parada. Sabe? Me conheço já bastante. Sei, por exemplo, que sou decidida, determinada. Arrogante, no sentido em que me protejo da curiosidade alheia, malsã”.
            - Mas dentre as perguntas que você gostaria de fazer...
          - “Você sacha que todo mundo tem a obrigação de me achar bonita?” é uma delas. Eu respondo: “Não. Entendo perfeitamente que haja gente que me ache feia. Eu mesma, quantas vezes, me acho feia”.
         Ela é muito honesta quando mostra a necessidade que sente de ser reconhecida e aceita pelo que é. Não pela beleza extraordinária. Insiste: “Minha alma não é feia. Se eu pudesse, faria todas as pessoas felizes. Se tudo dependesse de mim, tudo seria mais bonito.
          O olhar azul da “namorada do Brasil”, de até hoje ídolo, foge outra vez para o mar. Mas ela sabe que ainda hoje – porque sua amiga Bebete, está presente, e conta – é um símbolo de beleza para a alma brasileira. O jornaleiro da esquina outro dia mesmo comentava: “Dona Marta? É incrível. Depois de vinte anos, ela ainda é quem mais vende revista aqui, em Copacabana. Marta Rocha na capa esgota rapidamente". E isto pesa. Sem dúvida.

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Marta Rocha -  Foto: Mário Sérgio Costa/Divulgação


        Depois daquele julho de 1974, quando foi focalizada na Claudia, o casamento de Marta Rocha com Ronaldo Xavier de Lima, já falecido, acabou. Teve outros relacionamentos. Enfrentou aborrecimentos e conheceu dificuldades financeiras. Viajou muito pelo Brasil e recebeu lindas homenagens.
             Feliz idade nova, Marta Rocha, eterna namorada do Brasil. 

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Esta é a capa da revista ClaudiaAno XIII, nº 153, junho de 1974.
A jovem é Ângela Catramby (1952-2016), Senhorita Rio 1968.

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