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sábado, 4 de setembro de 2010

SESSÃO NOSTALGIA - Valda Maria Franqueira, Miss Objetiva Internacional 1969

Daslan Melo Lima


       Uma associação que congregava fotógrafos profissionais paulistas promoveu durante muitos anos o concurso Miss Objetiva do Brasil-Miss Objetiva Internacional, espécie do Miss Brasil-Miss Universo em tom menor, com uma seletiva nacional e outra internacional, ambas na capital do Estado de São Paulo.
          
          O Miss Objetiva dava ênfase à fotogenia das concorrentes, afinal era promovido por fotógrafos e o termo objetiva, na linguagem fotográfica, na definição do Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989) significa a peça da parte anterior de máquina fotográfica, formada de lentes fixadas por uma armação com diafragma. Uma expressão era muito usada outrora:  "X posou para a objetiva do fotógrafo Y", a palavra objetiva usada como sinônimo de máquina fotográfica.

Várias garotas maravilhosas fizeram sucesso na passarela do Miss Objetiva, tais como: 
Carmen Teresinha Lucca (Miss Objetiva do Brasil e Miss Objetiva Internacional 1963); 
Nádia Lins de Albuquerque (Miss Objetiva do Brasil e vice-Miss Objetiva Internacional 1968); 
Valda Maria Franqueira (Miss Objetiva do Brasil e Miss Objetiva Internacional 1969); 
Rosângela Carvalho Monteiro da Silva (Miss Objetiva do Brasil 1971);
Fátima Antunes (Miss Objetiva do Brasil e vice-Miss Objetiva Internacional 1972).  
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Carmen era gaúcha; Nádia, Rosângela e Fátima, pernambucanas; Valda era de Minas Gerais. Carmen e Fátima já foram homenageadas na Sessão Nostalgia. Esta semana, estou resgatando um pouco da história de Valda, um dos rostos mais expressivos e famosos do final da década de sessenta e dos primeiros anos da década seguinte.


VALDA, MOÇA OBJETIVA

Valda Maria Franqueira, Miss Objetiva do Brasil e Miss Objetiva Internacional 1969. Capa da revista O CRUZEIRO,  30/10/1969.

               Não foi surpresa. Quando,  pela primeira vez, ela desfilou para a platéia do Clube Jaraguá, em Belo Horizonte, poucos duvidaram de que ela conseguisse o título de Miss Objetiva 1969. A torcida do Cruzeiro,  em peso, aplaudindo  sua candidata. Após a festa, Valda Maria Franqueira era apontada sem discussões para representar Minas Gerais no concurso nacional. Onde já entrava como favorita.
Miss Objetiva do Brasil e Miss Objetiva Internacional 1969. (O Cruzeiro, 30/10/1969)

           A história se repetiu na noite de sábado, dia 18, no Clube Paulistano. Lá, disputando com as candidatas dos outros estados, Valda levou para Minas a vitória.
          Quando Valda esteve nos Estados Unidos foi convidada para trabalhar no cinema. Não aceitou. ”Em relação ao cinema, diz ela, prefiro ser apenas uma espectadora tranqüila e sem compromisso.”
          Seu prêmio de Miss Objetiva inclui viagens, algumas viagens com que ela sempre sonhou. Valda pensa em visitar países distantes. Japão, por exemplo. Depois das passarelas, voltará a freqüentar seus clubes mineiros, praticar seu esporte – volei – e estudar:   “Gosto de ser Miss. Mas quero mesmo é ser médica.”

VALDA VENDE TUDO O QUE ANUNCIA
Valda Maria Franqueira na capa da revista Manchete, 13/10/1973
                Valda Maria Franqueira em 1969, seduziu com seu rosto fascinante todos os jurados do concurso Miss Objetiva Internacional, realizado em São Paulo. E ganhou para o Brasil mais um título. Hoje, é o modelo mais disputado pelas agências de propaganda de Minas Gerais. No entanto, Valda permaneceu uma moça simples e doce, à mineira. Não quer ser apenas mais uma miss, num planeta abarrotado de belezas premiadas. Atualmente, ela cursa o terceiro ano de Medicina da Universidade Federal de  Minas Gerais, pretendendo se formar em Psiquiatria infantil.
          Iniciou sua carreira de manequim em 1964, descoberta pela  Denison Propaganda, que a contratou para participar das campanhas publicitárias de uma grande loja de Belo Horizonte.   O sucesso foi imediato. Não havia consumidor que resistisse ao meio – o rosto lindo de Valda – que comunicava a mensagem. Mais tarde, ela se inscreveu no concurso de Miss Objetiva e ganhou sucessivamente – sem cansar a beleza – todos os títulos de Minas, do Brasil e – também – do Mundo, entre 50 candidatas de todas as nacionalidades.

Valda Maria Franqueira  (Manchete, 13/10/1973)
           Dedicada aos estudos, Valda passou algum tempo afastada das câmaras, mas, recentemente, aceitou participar de uma grande campanha publicitária para a loteria de Minas. Impondo sua graça e seu charme, Valda dizia no vídeo e nas telas de cinema: “A Mineira (Loteria) só sai para mineiros.” As vendas imediatamente se multiplicaram. Agora, todos os publicitários de Minas têm planos para Valda. Ela continua firme no seu: consertar as neuroses infantis como psiquiatra especializada. Parece que sua beleza contribuirá para o tratamento e as curas.
(Manchete, 13/10/1973. Detalhe: no texto original, o nome da Miss Objetiva Internacional 1969 foi escrito com a letra W, Walda.)

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           Valda Maria Franqueira chegou a fazer cinema. Ganhou um papel no filme Sagrada Família, dirigido pelo seu conterrâneo Sylvio Lanna, mas ser atriz e viver  na frente das câmaras por longo tempo não era o seu objetivo. Para a Miss Objetiva do Brasil e Miss Objetiva Internacional 1969, o objetivo era ser médica, cuidar das crianças com uma determinação superior  àquela que a fez ser uma das jovens mais fotografadas do Brasil.

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sábado, 28 de agosto de 2010

SESSÃO NOSTALGIA - Lúcia Tavares Petterle, Miss Mundo 1971

Daslan Melo Lima

PRÓLOGO

          Lúcia Tavares Petterle, 22 anos, 1,72 de altura, 58 quilos, olhos e cabelos castanhos, estudante de Medicina, carioca, residente no bairro do Leme, Rio de Janeiro, filha de Dona  Zoé e do Coronel Alceste Menezes Petterle, foi Miss Tijuca  Tênis Clube, Miss Guanabara,  vice-Miss Brasil e Miss Mundo 1971.

LÚCIA TAVARES PETTERLE, MISS GUANABARA 1971

          Eram quarenta as moças que pisaram a passarela do Maracanãzinho numa noite muito pouco carioca (fazia frio e chovia). E quem ganhou foi justamente quem  menos acreditava na vitória. Lúcia já tinha sido eleita Miss Fotogenia e se sentia realizada. Chegou até a apostar cinco cruzeiros com cada uma das suas concorrentes, como não estaria entre as quinze finalistas. Mas acontece que o destino de Lúcia Tavares Peterlle está cheio de títulos, principalmente entre os 13 e os 17 anos, quando morava em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde seu pai servia num posto militar. Agora ela está em plena guerrinha da beleza, confiante para o Miss Brasil. E  já pode ir de casa à faculdade de carro. De todos os presentes que ganhou, inclusive dez mil em dinheiro, Lúcia gostou mais do último: ela mora no Leme e estuda na Piedade.  (Revista Manchete, 03/07/1971)

 


Simpática, inteligente, desprendida, solícita, viva e bonita. Isso é um pouco da nova Miss GB, filha de militar e futura médica.  E não é o seu primeiro título de beleza: já foi Rainha das Olimpíadas Universitárias. Na primeira apresentação, de vestido longo, Lúcia já marcou sua presença como uma das favoritas. Segundo sua mãe, Dona Zoé, “o vestido era clássico, de linhas sóbrias e uma capinha ultracharmosa.  Na segunda apresentação, de maiô, a nova Miss Guanabara firmou ainda mais a sua posição na preferência do público e do júri. O resultado não podia ser outro. Todos concordavam que a beleza carioca estava em boas mãos.  (Manchete, 03/07/1971)
                    Ela jamais teve vocação para miss. Tudo começou numa brincadeira, no Tijuca Tênis Clube. Os amigos insistiam em que ela fosse a representante do clube. Lúcia dizia que não, a turma dizia que sim. Diante de tanta pressão não teve alternativa: “Está bem gente, eu me rendo.” Foi a última a se inscrever.  No dia do concurso, ao ouvir o resultado, não acreditou: “Eu fui eleita Miss Guanabara?” (Manchete, 27/11/1971)

 LÚCIA TAVARES PETTERLE, 
VICE-MISS BRASIL 1971
O Top 3 do Miss Brasil 1971. Da esquerda para a direita: Lúcia Tavares Petterle, Miss Guanabara, segundo lugar; Eliane Parreira Guimarães, Miss Minas Gerais, primeiro; e Marise Maya Costa, Miss Paraná, terceiro lugar. (Foto: Manchete)
           O Miss Brasil 1971 foi realizado no dia 1º/07/1971, no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, com a participação de 26 candidatas.  Lúcia Tavares Peterlle perdeu apenas para Eliane Parreira Guimarães, Miss Minas Gerais, quinta colocada no Miss Universo. O segundo lugar garantiu a Lúcia Peterlle o direito de representar o Brasil no Miss Mundo, em Londres.

LÚCIA TAVARES PETTERLE, 
MISS MUNDO 1971 

O Miss Mundo foi realizado em Londres, em  10/11/1971, com a participação de 56 candidatas. Acima, o  Top 5 . Da esquerda para a direita: Miss Jamaica ,  Ava Joy Gill , quinto lugar; Miss Reino Unido, Marilyn Ann Ward, segundo; Miss Brasil, Lúcia Tavares Petterle, primeiro; Miss Portugal ,  Ana Paula de Almeida, terceiro; e Miss Guiana, Nalini Moonsar , quarto lugar. (Foto: Manchete, 27/11/1971)
                  Em Londres, acompanhada de Dona Zoé, sua mãe, ela escrevia no seu diário:
"Minha vida é como um conto de fadas onde toda a filosofia se resume no conceito de que o bom é o belo, o belo é virtuoso, a virtude é a beleza. E Nossa Senhora também não é linda, boa e perfeita? Aqui estou nesta cidade desconhecida, neste quarto de hotel, escrevendo. Tudo é diferente. As folhas tombam lá fora e faz frio. Minhas mãos nasceram para curar, para fazer uma criancinha doente sorrir, para aliviar a dor da mãe que dá á luz, para consolar os velhos. Minhas mãos nasceram hábeis no manejo dos instrumentos que combatem doenças, são mãos guerreiras no exército da saúde. Sempre pensei assim e, contudo, aqui estou nesta cidade desconhecida, neste hotel e Londres porque minhas mãos são bonitas. Com minhas mãos bonitas eu vou curar, eu nasci para dizer que a beleza também cura."
          A grande vocação de Lúcia sempre foi  a Medicina. Aluna excelente, não deixou de fazer nenhuma prova, mesmo durante as eleições de Miss Guanabara e Miss Brasil, na Faculdade de Medicina da Universidade Gama Filho, onde também estuda seu namorado, Pedro Carlos. Antes de participar do concurso, ela dizia: 
“Ficarei contente em ser uma boa médica, ciente de que devo fazer todos os sacrifícios para curar.”
          Mas antes de curar seus pacientes, com bondade, Lúcia terá que mostrar sua beleza ao mundo. Na preparação para o concurso de Londres, o maior aliado foi seu pai. Durante dias e dias o coronel e a filha sentavam se juntos para redigir discursos que enaltecessem o Brasil melhorando sua imagem no exterior. O que menos importava era a colocação que Lúcia poderia obter no concurso. O pai e o irmão, Beto, não esperavam a vitória. Para eles Lúcia é muito mais simpática, do que bonita. “O que  a torna mais atraente é a sua simplicidade”, comenta o irmão, mais jovem que ela. Assim, toda a atenção era concentrada em preparar uma presença que contribuísse para criar boa imagem do país no exterior.(Manchete, 27/11/1971)
O belo corpo de Lúcia Petterle e a suave  expressão do seu rosto foram decisivos para a vitória. (Manchete, 27/11/1971)
          Na bagagem, o volume maior era reservado aos livros, revistas, bandeiras e outras fontes de informações sobre o Brasil. Por outro lado, Lúcia considerou que demonstrar o nível da cultura e dos conhecimentos da mulher brasileira era mais importante que apresentar uma coleção de vestidos da última moda. Ela procurou estudar bem a História da Inglaterra e tomou aulas de conversação para aperfeiçoar o que aprendeu em cinco anos de Cultura Inglesa. Encorajada pelo pai, acompanhada pela mãe, Lúcia partiu para a Inglaterra levando como slogan a frase: “O Brasil precisa acontecer lá fora.
 
          E o Brasil aconteceu. Quase sem querer. Ela  mesmo escreveu no diário:
“Vim para um concurso de beleza, se ganhar serei Miss Mundo, e ficarei muito feliz por ter ganho, porque terei mais autoridade pra proclamar aos quatro cantos que o bom é bonito, que o bonito é bom. Se perder darei um beijo de amor na testa da vencedora e meu coração não sentirá inveja porque a vencedora será formosa e o bonito é bom e o bom é bonito.Vencer, ou perder, o que importa? O importante é ter vindo a Londres, ter conhecido tanta gente interessante de tantos países, ter visto esta cidade que eu sonhava conhecer. Ainda não tive tempo de visitá-la com vagar, como desejo, curtindo cada pedacinho.
          Ela impressionara bem as colegas, os promotores e os jornalistas, que elogiaram o seu desembaraço e cultura. Mas não contava com a vitória. Nas apostas de rua, a sua cotação estava na base de 25 por 1, enquanto as misses Inglaterra, Estados Unidos e Venezuela eram cotadas na base de 12 por 1. Mas quando Lúcia Tavares Petterlle assomou na passarela do Albert Hall, o pequeno grupo de brasileiros que estava ali torcendo por ela teve a certeza de sua vitória. Não só pelo calor dos aplausos que recebeu, mas também pela indiscutível classe que a distinguia das outras concorrentes.
          Lúcia fora a melhor no teste de personalidade. Respondeu às erguntas num inglês perfeito e quando o mestre-de-cerimônias perguntou o que fazia, disse que era estudante de medicina. “E vai especializar-se em que?” perguntou o inglês. “Em endocrinologia” respondeu. “E o que é isto?” voltou o homem. Lúcia explicou tudo com simpatia e simplicidade. (Manchete, 27/11/1971)
 

Lúcia Tavares Petterle, Miss Mundo 1971. (Foto: revista TV Programas, 15/01/1972)
          A certeza da vitória confirmou-se quando o locutor anunciou sob as palmas do público: “Miss Brasil é a nova Miss Mundo.” Logo depois de receber o título, a coroa e a faixa, ela respirava fundo e a emoção quase a impedia de responder às perguntas. “Não esperava o título. Falava-se em dezenas de outras candidatas. Na minha opinião Miss Inglaterra venceria. Gosto muito de Miss Portugal, contava pelo menos com o segundo lugar para ela. Foi a maior surpresa  da minha vida”.
          Falando a MANCHETE, Lúcia disse que se sentia muito feliz. 
“Feliz em poder proclamar que o Brasil é o país que mais se desenvolve no mundo de hoje. Desejo contribuir com meu trabalho para criar uma boa imagem do meu país em toda a parte. O Brasil é o país da liberdade, com um índice de progresso que poucos  podem ostentar.  Quero  dizer, principalmente aos jovens de todo o mundo, que o Brasil tem uma civilização de novo tipo, que pode ser medida pelos critérios das antigas civilizações. Renovamos tudo o que nos toca. Desmentimos os pessimismos e conseguimos organizar uma nação que, dentro de dez anos, estará entre as maiores do mundo. É isto principalmente que desejo fazer com meu título e meu reinado. E não posso esquecer a minha cidade do Rio de Janeiro, que me elegeu Miss Guanabara.” (Manchete,27/11/1971)

Lúcia Tavares Petterle na capa da revista Manchete, 27/11/1971.
           Como prêmio pela sua beleza Lúcia recebeu 2.500 libras (30 mil cruzeiros), o troféu Miss Mundo e um contrato de apresentações durante um ano, o que poderá render 600 mil cruzeiros.
          O Women’s Lib tentou perturbar o concurso, com passeatas e manifestações. Terminado o concurso, na saída do Royal Albert Hall um grupo de manifestantes da Women Liberation Front organizou uma manifestação contra o concurso, por elas considerado uma promoção dos “porcos reacionários”. Levando em cartazes que diziam “Não Queremos Ser belas” ou “A Beleza da Mulher é Chantagem”, as liberacionistas investiram contra 150 policiais que cercavam o Albert Hall e amassaram alguns carros, de passagem. Perguntada sobre como encarava as manifestações, Lúcia respondeu: “Estou muito contente para me importar com esta bobagem.” (Manchete, 27/11/1971)

EPÍLOGO

          Lúcia Tavares Petterle não permitiu que o seu reinado atrapalhasse seus estudos   e conseguiu manter o título graças a um acordo com a Mecca Promotions, organizadora do concurso. No ano seguinte, deixou de passar  a faixa para sua sucessora por ter fraturado um braço. Seu medico orientou que não viajasse, pois o frio de Londres prejudicaria sua recuperação.
Lúcia Tavares Petterle em foto do ano 2000. (Imagem: Liane Neves, revista Caras, 04/02/2000)
             Conheci pessoalmente Lúcia Tavares Petterle em dezembro de 1971, no Recife. Voltei a vê-la em 2001, em Caruaru, quando foi convidada especial para a comissão julgadora do concurso Miss Pernambuco.
          Há trinta e nove anos, em um quarto de hotel de Londres, Lúcia Tavares Peterlle escreveu em seu diário:
“ As folhas tombam lá fora e faz frio. Minhas mãos nasceram para curar, para fazer uma criancinha doente sorrir, para aliviar a dor da mãe que dá á luz, para consolar os velhos. (...) Com minhas mãos bonitas eu vou curar, eu nasci para dizer que a beleza também cura.”

          Nesta noite do último sábado de agosto de 2010, em Timbaúba, Pernambuco, quando as folhas tombam lá fora e faz frio, rendo minha homenagem ao  exemplo de inteligência, humanidade, classe e categoria que a  neuropediatra Dra. Lúcia Tavares Petterle imprimiu ao seu reinado de Miss. Um reinado que se prolonga até hoje, através de suas mãos  que  “... nasceram para curar, para fazer uma criancinha doente sorrir, para aliviar a dor da mãe que dá á luz, para consolar os velhos. “ 
                Mãos bonitas que eu beijei respeitosamente numa noite caruaruense.

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sábado, 21 de agosto de 2010

SESSÃO NOSTALGIA - O BAILE REAL DE RAQUEL


Daslan Melo Lima

               Na noite seguinte à da eleição da Miss Brasil 1965, ocorrida no popular e vibrante Maracanãzinho, os organizadores do concurso Miss Brasil promoveram no ambiente selecionado e cheio de glamour do Copacabana Palace o baile de coroação da carioca Maria Raquel Helena de Andrade, Miss Guanabara, eleita a mais bela brasileira de 1965.

Maria Raquel Helena de Andrade, Miss Brasil 1965, dançando com o namorado Cláudio Luís, no baile de sua coroação, no Copacabana Palace. (Imagem: revista Fatos & Fotos, 17/07/1965)
           


As misses estaduais que tinham disputado o Miss Brasil , as estrangeiras  que tinham participado do Miss Internacional do IV Centenário do Rio de Janeiro e os convidados especiais viveram uma noite inesquecível.(Imagens: Fatos & Fotos, 17/07/1965)

   

Da esquerda para a direita, Ângela Tereza Pereira Reis Neto Vasconcelos (Miss Paraná, Miss Brasil 1964); Maria Raquel  de Andrade (Miss Guanabara, Miss Brasil 1965) e Kiriaki Tsopei (Miss Grécia, Miss Universo 1964). Detalhe: Kiriaki Tsopei ingressou na carreira de atriz de cinema com o nome de Corinna Tsopei. (Imagem: capa da revista Fatos & Fotos, 17/07/1965)

Da esquerda para a direita: Berenice Lunardi (Miss Minas Gerais, terceira colocada  no Miss Brasil 1965); Sue Ann Downey (Miss Estados Unidos, Miss Internacional do IV Centenário do Rio de Janeiro, terceira colocada no Miss Universo 1965); Ângela Vasconcelos (Miss Brasil 1964); Maria Raquel de Andrade (Miss Brasil 1965) ; Kiriaki Tsopei (Miss Universo 1964) e Sandra Penno Rosa (Miss São Paulo, vice-Miss Brasil 1965,  quinta colocada no Miss Beleza Internacional 1965). (Imagem: Fatos & Fotos, 17/07/1965).

          Em determinado momento do baile, os fotógrafos registraram uma cena única, o instante em que a bela morena Marilena de Oliveira Lima, Miss Mato Grosso , quarta colocada no Miss Brasil 1965, cumprimentou  a loura Maria Raquel  de Andrade. Se dependesse dos aplausos do público do Maracanãzinho, Marilena teria sido eleita  a  mais bela brasileira de 1965. Mas não havia nenhum clima de rivalidade entre ambas. Vencedora e vencida, no auge de sua juventude e beleza, deram as mãos e abriram seus mais belos sorrisos. (Imagem: Fatos & Fotos, 17/07/1965)

Expectativas e canseiras, vitórias  e derrotas foram esquecidas. Felizes, as moças dançam. Insistindo para que sejam tocadas músicas modernas, as misses internacionais solicitam ritmos da bossa nova. O momento lhes pertence. Participam de um baile real. Novas cinderelas, sentem-se, cada qual e todas juntas, participantes de um acontecimento ímpar em suas vidas. Amanhã deixarão de viver no mundo de sonho que é o instante atual. Voltarão ao dia a dia comum. Não importa. Terão, para o resto da vida, uma recordação imperecível.
(Paulo Galante, Fatos & Fotos, 17/07/1965)

          Quarenta e cinco anos depois que aquelas garotas maravilhosas voltaram a ter um dia a dia comum, eu não tenho dúvida que as lembranças daquele baile de 04 de julho de 1965 ocupam um espaço importante nas suas imperecíveis recordações.
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sábado, 14 de agosto de 2010

SESSÃO NOSTALGIA - Porque choram as Misses

Daslan Melo Lima

PRÓLOGO




            Era abril de 1966 e o Brasil vivia o segundo ano da ditadura militar, quando a Editora Abril lançou a revista Realidade, uma publicação que marcou época na história da imprensa brasileira.  A capa trazia Pelé com um busby , acessório que a guarda inglesa utiliza na cabeça,  fazendo alusão à Copa de 1966, realizada na Inglaterra. Ousada, instigante, diferente, Realidade abordava temas poucas vezes discutidos por outros jornais e revistas, chegando, por isso, a sofrer repressões do regime militar.


          No mês de agosto de 1966, a revista Realidade circulou nas bancas de todo o país com uma capa estranha e uma chamada ainda mais: “Porque Choram as Misses”. O concurso Miss Brasil estava no auge e causava tanto interesse quanto a Copa do Mundo. Ao contrário das revistas O Cruzeiro, Manchete e Fatos & Fotos que colocava  a Miss Brasil na capa, sorridente, de  coroa, faixa, manto e cetro,  a Realidade colocou o busto de um manequim, nu, apenas com a faixa de Miss Brasil.
          Na Sessão Nostalgia desta semana, trago os trechos mais importantes da reportagem que o  José Carlos Marão fez para a Realidade.  Um verdadeiro documento de uma época. 

POBRE MENINA MISS

          Beleza anda de braço com ridículo nos concursos em que moças bonitas, ingênuas e decentes emprestam sua graça a essa coisa sem graça que é correr atrás de sonhos numa passarela onde, diante da multidão, um júri escolhe  a    pobre menina miss.

O rosto é bonito, a faixa de miss cobre um manequim, símbolo do que fazem das moças que disputam concursos de beleza. Foto de Lew Parrella
          Às oito da noite, 40 mil pessoas já estão no Maracanãzinho, pois nada mais importante existe para elas que um concurso de Mis Brasil. Às nove e cinco, o povo gritava: “ - Co-me-ça! Co-me-ça!”  Há  muitos outros ridículos, que as moças do interior, cobiçadoras da glória de ser rainha, têm de enfrentar, quando chegam ao Rio de Janeiro, depois de já terem passado pelos desfiles em seus Estados.
           Na hora em que descem do avião, acompanhadas de suas orgulhosas mamães, encontram logo os donos do concurso: organizadores, guardiãs, instrutoras, cicerones e, entre esses, um senhor de proeminente barriga, paletó jaquetão e bigodinho à antiga, que, desde a segunda-feira , quando elas chegam, até o sábado do concurso, comanda militarmente e aos gritos todas as moças, com exceção das suas preferidas. Com toda a pose e o ar de dono das misses, consegue deixar com medo as mais bobinhas. Mas outras, que conseguem entender melhor o homem, não têm muito problema em rir dele, aos primeiros gritos.
          Esse senhor de jaquetão e bigodinho, dito por si mesmo temível colunista social, é eficientemente auxiliado na sua tarefa de comando por outro membro da comissão organizadora, por nome Arnaldo.  O primeiro trabalho dos dois é conhecer o melhor possível, entre o aeroporto e o hotel, no dia da chegada, as misses e acompanhantes: – “Pois, afinal, precisamos saber com quem vamos tratar.”
          Chegam as misses ao hotel e, na porta, já está uma multidão curiosíssima para vê-las. Lá dentro, os organizadores já estão dando ordens ao pessoal de serviço no hotel, acompanhando o preenchimento das fichas das candidatas (as fichas que podem ler, ele lêem), e acompanhando as candidatas aos seus apartamentos. Quando as mocinhas e mamães sonhadoras estão instaladas, recebem alguns impressos da comissão organizadora: programa, regulamento do concurso, instruções para o comportamento dentro do hotel e informações – estas só para as acompanhantes – de como bem acompanhar as candidatas a Miss Brasil.
          O programa, cheio de festas, coquetéis, passeios e coisas que as mocinhas na maioria nunca viram, entusiasma a todas, mas só antes de começar a ser cumprido. Lá pelo segundo ou terceiro dia, além do cansaço – que este ano deixou algumas de cama – já começam a perceber que nas festas estão apenas sendo mostradas para pessoas em que os organizadores têm interesse, e acaba o entusiasmo pelo programa. Enquanto isso, no hotel onde elas se hospedam, com paredes rachadas e enormes salões vazios, o pessoal de serviço não está absolutamente contente: – “ Essa turma do concurso dá serviço e não dá gorjeta. A gente não pode servir direito os que dão gorjetas e passamos uma semana ruim. "
          Em duas salinhas sujas e cinzentas, funciona, o ano inteiro, a Comissão Central do Concurso de Miss Brasil. O emprego é até bom, pois concurso só há uma vez por ano. Lá, os senhores organizadores preparam os regulamentos, onde exigem das candidatas, entre outras coisas, “reputação moral ilibada”. O item 8, sozinho, exige cinco compromissos da privilegiada. O primeiro é cumprir rigorosamente o programa. O segundo é mais sério: não pode fazer propaganda de nenhum produto comercial, a não ser o dos patrocinadores do concurso. Compromete-se também a, caso eleita Miss Brasil, assinar um contrato de “prestação de serviços”, por seis meses, sem dizer nem com quem, nem que serviços devem ser prestados. Mais um compromisso: se não for eleita Miss Brasil, não pode participar de nenhum anúncio de produto comercial concorrente do patrocinador do concurso no seu Estado. E esclarece bem o regulamento: a miss, ao embarcar para o Rio, deve levar na mala um vestido de gala e um traje típico. Antes de viajar, elas recebem 200 mil cruzeiros dos organizadores, como “ajuda de custas”.
          Para as excelentíssimas senhoras acompanhantes, a comissão esclarece que deverão pagar todos os serviços extraordinários (lavanderia  por exemplo) pois os organizadores garantem apenas cama e comida. O horário do programa deve ser cumprido e qualquer dúvida pode ser apresentada às guardiãs que, se não souberem resolver, a levarão ao Bigodinho-Jaquetão, que resolve tudo.

MULHER DE BENGALA MEDE AS MISSES E ENSINA DESFILAR / BENGALA FAZ A MARCAÇÃO

           Miss tem que saber desfilar, para não dar vexame. E vão para as mãos de dona Maria Augusta, que tem uma escola de modelos, e há nove anos acompanha o concurso de Miss Brasil, ensinando andar, parar e rodopiar. Comanda tudo com uma bengala, e umas batidas no chão: - “A marcação da bengala é a marcação internacional. As moças saem daqui sabendo desfilar como nos outros países.”
 

           Na terça-feira depois da chegada, há o primeiro contato entre as mocinhas e Maria Augusta, para as medidas. Ela mesma, ou uma sua auxiliar, tira as medidas – busto, cintura, quadris, coxa, tornozelo, altura e peso – só na presença de senhoras, em lugar onde ninguém mais pode entrar. Nesse dia, as candidatas fazem seu desfilezinho inicial, para Maria Augusta ver qualidades e defeitos.
          Na quinta-feira, misturados com os coquetéis e visitas, as misses têm um ensaio de manhã, outro à noite. Começam a aprender a andar ao som de bengalas, já no próprio Maracanãzinho. Às vezes não deixam a imprensa assistir aos treinos, porque “as moças estão inibidas”.

Nem todas as moças aprendem a desfilar, como Maria Augusta quer. Na sexta-feira, ensaio geral, quem não aprende desfila errado.
          Na sexta-feira, o ensaio é geral. As mocinhas já aparecem de maiô, como vão desfilar na contenda do dia seguinte. Já há público, imprensa e também as misses internacionais, chamadas pelos senhores organizadores para desfilar no dia do concurso e entreter assim o ávido público, enquanto as senhoritas brasileiras trocam de roupa.

DUAS FORA DO PÁREO

          Na sexta-feira do ensaio geral, já é feito o primeiro concurso. De repente, aparece um cidadão, distribuindo papeizinhos em branco para os fotógrafos:
- “Olha, é para escolher a Miss Fotogenia.”
- “Já ou depois do ensaio?”
- “Já.”
- “Mas como, se eu não sei como elas vão sair nas fotos?”
- “Ah, que é isso? Coloca qualquer nome aí, rapaz.”
          Aí, um deles diz que fulana é fotogênica, os outros acreditam e ela acaba ganhando. Alguns fotógrafos atrapalham um pouquinho a democrática votação:
- “Olha companheiro, eu não si bem em quem votar. Você põe aí o nome que achar melhor. Eu concordo.”
          A Miss Simpatia é eleita na mesma base, com votação um pouco mais ampla. E as duas recebem a faixa durante o ensaio e vão embora, levando a certeza de que não estão ente as favoritas. Maria Augusta, de muita experiência, diz que é assim. Quando as moças recebem um título antes, já estão fora do páreo.

MISS BRASIL QUASE DEU O FORA

          - “Minha filha não recebeu ajuda de ninguém, nem do Governo, nem dos organizadores. Além disso, está muito maltratada. O senhor acha que nós estamos aqui para agüentar mau trato?”
        Na quarta-feira da semana do concurso, a mãe de Miss Guanabara, depois eleita Miss Brasil, estava falando assim. É que o Bigodinho-Jaquetão e o senhor Arnaldo estavam gritando muito. E Miss Guanabara ameaçou abandonar o concurso, se o tratamento não melhorasse.
          A queixa aconteceu no dia em que as moças têm de posar para as “revistas especializadas em miss”. Aí são levadas em ônibus para uma praia, convidadas a trocar de roupa atrás de umas pedras, para, depois, tirar as fotos nas mesmas poses em que se vê fotografias de miss nas revistas, há dez anos mais ou menos. E ai da moça que se atrasa um pouco. Ouve o que não quer.     Com  Miss Guanabara, alem dos gritos, houve mais um problema: foi a que ficou mais perto das ondas, veio uma das  fortes e lá se foi o seu penteado. Na volta, abandonou a “caravana da beleza” (dois ônibus comuns) para fazer penteado novo.
     O fato é que, no dia seguinte, os jornais concorrentes do jornal que promove o concurso saíram com manchetes aproveitando a ameaça da candidata carioca de se retirar do concurso. E, num deles, um dos títulos de primeira página era assim: “Homem que beijou miss quase leva Ana Cristina a renunciar”. Era só o título, a notícia não fazia nenhuma referência a beijos.

BIGODINHO-JAQUETÃO GOSTA É DE MOSTRAR AUTORIDADE / A TORTA DE MISS BAHIA

          Quando chega o sábado, dia do concurso, misses e acompanhantes já não se agüentam em pé, de tanto que tiveram de andar, passear e mostrar-se. Só não estão muito cansados os organizadores, que podem revezar-se na tarefa de fiscalizar as moças.
          Na sexta-feira à noite, no ensaio geral, as candidatas desfilaram como se já fosse o dia do grande concurso. E desfilaram também, sob vaiais, as misses internacionais, que a organização trouxe, para “dar brilho à grande festa”.
        As moças estrangeiras ficaram por conta do Arnaldo, auxiliar do Bigodinho-Jaquetão. Andou com elas de automóvel para baixo e para cima, pela cidade toda e a imprensa só conseguia se aproximar quando ele não estava por perto. Arnaldo chegou a tirar a caneta da mão de Miss Argentina, que estava dando autógrafo a uns estudantes, para colocá-la dentro do automóvel, e deixá-la lá, esperando um motorista que demorou bastante a aparecer.
        Mas o Bigodinho-Jaquetão também teve a sua oportunidade de mostrar autoridade às misses internacionais. Na sexta-feira do ensaio, Miss Argentina e Miss Bahia, por força de cumprirem à risca o “muito humano” programa criado pelos organizadores, chegaram para jantar alguns minutos depois das outras. O Bigodinho, muito bravo, começou a correr pelo restaurante do hotel, chamando garçons e mandando as duas comerem depressa. Miss Argentina, coitada, acreditou no homem e nem comeu direito. Foi logo para o ônibus que levaria as misses para o ensaio. Mas Miss Bahia, um pouco mais esperta, tratou de comer o suficiente pelo menos para ter forças de ensaiar. Quando terminou, o Bigodinho quis fazê-la levantar-se, mas não adiantou. A coisa já tinha virado briga e ela decidiu comer sobremesa. E o Bigodinho resolveu então gritar com o garçom, que pagou o pato: - “Oh, seu moleza, quer trazer logo uma torta!”

 COMEÇA O GRANDE DIA

          O programa do sábado diz: “manhã e tarde livre para preparação de vestidos, cabeleireiros, manicura etc.” Mas de manhã, miss nenhuma consegue levantar-se, tentando recuperar o sono perdido nos dias anteriores. As acompanhantes, menos cansadas, vão tratando dos vestidos, dos sapatos e outros pormenores.  À tarde, elas vão aos cabeleireiros, instalados no quarto andar do próprio hotel. Ficam guardadas por duas guardiãs, que não deixam homem nenhum entrar, a não ser o Bigodinho-Jaquetão, o Arnaldo, ou algum outro “organizador”.
           Lá pelas seis e quinze, contrariando todas as disposições desses dois senhores, as misses saíram do hotel em um ônibus, as acompanhantes em outro. Chegando ao Maracanãzinho, o porteiro deixou as misses entrar, mas implicou bastante com as acompanhantes. E a acompanhante de Miss Brasília, que tinha perdido sua identificação, teve de esperar muito tempo, segurando na mão a mala com os vestidos, até aparecer alguém, da comissão que amansasse o porteiro.
  -” Maria Helena, quantos anos você tem?”
          Maria Helena, Miss Brasília, não consegue falar. A resposta é uma choradeira. A moça foi acusada de ser menor de idade, pela segunda colocada do concurso, lá em Brasília. Conseguiram até uma sentença judicial, afirmando que a certidão de Maria Helena estava rasurada e que ela tinha 15 e não 18 anos.  No sábado, desceu no Rio de Janeiro a segunda colocada no concurso Miss Brasília, disposta a desfilar, esperando a desclassificação da outra, mas o presidente da comissão, chamador doutor Adilson, e seu secretário, chamaram major Amado, decidiram que seria uma desumanidade impedir a moça de desfilar.

 “TÁ NA HORA, PLÁ-PLÁ-PLÁ” 

          Às oito e meia, o Maracanãzinho lotado, começa uma briga (só de boca não de tapa) bem na entrada da passarela. A briga foi assim: os jornalistas sempre consideraram o curralzinho que lhes reservam no meio da passarela como o pior lugar para assistir aos desfiles. Esse lugar comporta 15 pessoas e recebe normalmente umas 60. Neste ano, os fotógrafos decidiram que os redatores atrapalham muito, na hora de tirar fotos, e conseguiram que um dos organizadores proibisse a entrada de quem não tivesse máquina.
           Os redatores sempre detestaram assistir dali ao concurso, mas resolveram que, neste ano, só dali teriam boa visão. E começou a briga. Grita daqui, grita dali, vem a Polícia, vem os organizadores. A Polícia fica esperando a comissão decidir, mas os organizadores também estão divididos, entre fotógrafos e não fotógrafos. Por fim, entrou quem quis entrar no curralzinho, jornalista ou não. Esta briga só deu para divertir o público que estava mais próximo.  Os de longe, não conseguiram perceber tudo o que se passava. Nessa altura, pouco mais de nove horas, a turma começou a gritar, com louvável fôlego, que resistiu até 15 para as dez: - Tá na hora. Plá-plá-plá. Tá na hora. Plá-plá-plá. Alguns organizados gritavam junto.  Até que, no fim, entre vaias e aplausos, surgem um ator e uma atriz de televisão. O moço começa a falar em nata das beldades verdes-amarelas e coisas assim. Aí chega Maria Augusta, com sua bengalinha, dá uma batida no chão, as meninas obedecem prontamente e começa o desfile.
           Numa das mesas, um senhor – apesar da cara de conquistador de mocinhas bonitas – lembra, um pouco irônico, a opinião do Arcebispo de Cuiabá, dom Aquino, sobre concursos de misses: “O que é um concurso de beleza, senão a exposição e feira de belos animais, que disputam entre si o prêmio por seus mais belos músculos ou robustez?” Nessa hora o locutor começa a ler as medidas das moças que, com o traje de gala, desfilam todas de uma vez, depois uma por uma. São vaiadas e aplaudidas, intercaladamente, conforme o nome do Estado seja simpático ou não ao público da Guanabara. Miss Guanabara, pela beleza e pelo bairrismo, é a Miss mais aplaudida. Miss Pernambuco – que não tem culpa de se chamar Raiolândia Castelo Branco – recebe a mais violenta vaia da noite. Mas mantém a classe, agüenta quase até o fim, quando começa a correr e é levada aos camarins nos braços de Maria Augusta

MISS SÃO PAULO MUDA O PASSO

          Os homens do concurso, não satisfeitos em fazer as moças desfilar com um vestido enorme, pesado (para martírio das candidatas de Mato Grosso, que operou o pé; do Espírito Santo, com o dedão do pé inchado; e de São Paulo, que estava com febre), e depois de maiô, obrigam também as sonhadoras mocinhas usarem traje típico.


          Miss Brasília, a dos prováveis 15 anos, entrou carregando flores por todo o corpo. Miss Minas Gerais estava fantasiada de “esmeralda e ouro”: uma roupa curtinha, tipo maiô, coberta de placas verdes com uma bolinha amarela no centro. Outras carregavam cestas de flores, generosamente distribuídas, para conseguir um pouco mais de torcida. A Miss São Paulo não conseguiu desfilar no mesmo passo que as outras: estava com macacão estilizado de operário, mas carregando na cabeça uma peneira enorme, com maquetas de prédios em cima. Depois que desfilou, foram necessários dois policiais para carregar a peneira com os prédios.
          Os trajes típicos são criados por costureiros, criadores de fantasias de carnaval. Mas como por traje típico entende-se, normalmente, traje que se usa na região onde foi eleita a miss, muita gente pode ter saído do Maracanãzinho pensando que as moças de São Paulo vão trabalhar com prédio na cabeça e que as senhoritas sergipanas, nos seus passeios, carregam uma torre de petróleo embaixo do braço.

NINGUÉM SABE PORQUE DEPOIS AS MOÇAS QUEREM CHORAR  /  E  TUDO VAI COMEÇAR OUTRA VEZ
Depois de oito dias de mostrar-se, mal dormir e mal comer, a “glória” de ser a mais bonita.
          Das 26 mocinhas simples, de respeitosas famílias do interior ou das capitais, que estão ali sonhando com a glória de ser a mais bonita, oito ganham o apelido de finalistas. As outras 18, tristíssimas, são obrigadas a ficar ali, em pé, curtindo mágoa e assistindo a glória das escolhidas. É quando já sabe que não vai mesmo ganhar que a miss sente todo o cansaço da “agradável semana da beleza”, como dizem os senhores que cuidam do concurso.
          Antes dos jurados chamarem as oito do fim, todas as moças são obrigadas a cantar, em coro, uma música chamada Hino das Misses. Mas todas desafinam e o que salva é o disco, tocado de fundo, prevendo mesmo as desafinações. Só que o artista-apresentador leva o microfone pertinho de cada miss, para que se perceba como desafina cada uma delas.
          Maria Augusta não entende os desmaios, depois de anunciadas as finalistas: - “As moças querem chorar depois do concurso. Não sei por quê”. Mas as moças sabem: querem chorar todos os ensaios, todos os desfiles por que passaram, desde que foram candidatas a rainha de beleza do seu Estado, até a exibição final, no Maracanãzinho.
          O fim é rápido. Os auto-falantes anunciam o nome da Miss Brasil e os da segunda e terceira colocadas. Depois, Miss Brasil é levada para os estúdios das revistas especializadas, instalados no próprio Maracanãzinho. A festa acabou-se; às derrotadas resta ouvir os estouros do champanha que não vão beber; com as três vencedoras fica a certeza de que tudo vai recomeçar, em outros lugares do mundo, onde locutores dirão em inglês – e em polegadas – quanto mede cada parte dos seus corpos.

EPÍLOGO

As quatro finalistas do concurso Miss Brasil 1966. Da esquerda para a direita: Virgínia Barbosa de Souza, Miss Minas Gerais (quarto lugar), France Carneiro Nogueira, Miss Ceará (terceiro lugar);  Ana Cristina Ridzi (Miss Guanabara, primeiro lugar) e Marluce Rocha Manvailler (Miss Mato Grosso, segundo lugar). Foto: reprodução de imagem publicada na revista Manchete, 09/07/1966.
         A reportagem da revista Realidade cometeu alguns equívocos. Nem sempre as moças eleitas Miss Simpatia e Miss Fotogenia ficavam fora das finalistas. Em 1966, por exemplo, Miss Simpatia foi Virgínia Barbosa de Souza, Miss Minas Gerais,  quarta colocada, enquanto a Miss Fotogenia, Marluce Rocha Manvailler, Miss Mato Grosso , foi a segunda colocada.  O bairrismo do carioca era relativo. Algumas jovens que ostentaram a faixa de Miss Guanabara foram eleitas Miss Brasil, ou ficaram entre as três finalistas,  sem contar com o apoio do público do Maracanãzinho.


               Raiolanda Castelo Branco, foto acima,  foi vaiada por causa do sobrenome. O Brasil vivia a época da ditadura militar e quem governava o país era o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967). Imagem: Jornal do Commercio-Recife.
          O  Maracanãzinho deixou de ser o palco da beleza brasileira em 1973, época em que o concurso Miss Brasil foi transferido para  Brasília. A revista Realidade deixou de circular em 1976.
          As misses de hoje também choram, pelo cansaço dos ensaios dos desfiles, pela emoção da vitória, pela decepção da derrota e talvez pela figura impaciente de algum organizador exigente como aquele enigmático Bigodinho-Jaquetão de 1966. 

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