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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 649, referente ao período de 11 a 17 de dezembro de 2017. ***** Grato por sua atenção.

sábado, 9 de outubro de 2010

SESSÃO NOSTALGIA - VANDA HINGEL, MISS OLARIA 1967


Daslan Melo Lima
PRÓLOGO
          Vanda Hingel, Miss Olaria, era forte  candidata ao título de Miss Guanabara 1967. Nascida no dia 20/02/1946, tinha 21 anos de idade, 1,75 de altura, olhos azuis, gostava de cantar, conversar, passear no parque.  Adorava filmes de ficção científica, assunto principal das conversas com seu irmão adolescente Válter Afonso Filho. Cozinhava muito bem.  “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint Exupèry era o seu livro de cabeceira. Também lia as histórias  em quadrinhos do Tio Patinhas e Pato Donald. Escrever era uma das suas coisas preferidas, poesias e um diário. Falava  alem do português, quatro idiomas que dominava com facilidade: inglês, francês, italiano e espanhol.  Tinha sido noiva e estava sem namorado.  Era professora e lecionava na Escola Miguel Couto, no bairro de Olaria, Rio de Janeiro. 
          Infelizmente, Vanda Hingel não participou do Miss Guanabara. Na trágica manhã de uma sexta-feira de junho de 1967, Vanda Hingel desistiu de viver e foi ao encontro da morte, ao se jogar da janela do apartamento onde morava com os pais, localizado na Avenida Copacabana, 820, 10º andar, aptº 1004, Rio de Janeiro.

Ela era a candidata favorita dos jornalistas ao título de Miss Guanabara 1967. De repente, um corpo se precipita de um décimo andar, em Copacabana, Vanda Hingel, Miss Olaria, está morta. (Carlos Marques, “A Morte de uma Miss”, revista Manchete, 1º/07/1967. Foto: Gil Pinheiro, detalhe da capa da Manchete.)


VANDA HINGEL,  INTELIGÊNCIA E  SENSIBILIDADE 


Vanda Hingel, sorridente, aos 20 anos de idade, em 1966, no Teatro Municipal, Rio de Janeiro, recebendo o diploma do Curso Normal para depois fazer um discurso onde seria  aplaudida durante cinco minutos. Foto: Manchete, 1º/07/1967.
           Entre as  preferências literárias e musicais de Vanda Hingel estavam: Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Carlos Drummond de Andrade , Fernando Sabino, Fernando Pessoa,  Bertrand Russel e Theilard de Chardin.
          Desde o curso primário no Colégio São Marcelo, ao término do Curso Normal, sempre fora a primeira classificada e jamais tivera nota inferior a oito. Em seu pequeno apartamento de Copacabana, onde morava com os pais, Vanda tinha seu segundo mundo, pois o primeiro era a escola onde deixara de ensinar em apenas uma classe para se tornar a orientadora pedagógica, que desejava abolir métodos antiquados. Sempre se colocava ao lado dos alunos nos problemas mais importantes. Para que isso fosse possível, a menina que nasceu na Gávea e preferiu mais tarde ensinar numa escola do subúrbio (“porque eles precisam muito mais”), desde os dez anos de idade era a filha mais estudiosa do alfaiate Válter Afonso. 
          Em 1960, o alfaiate recebia do Ministério da Educação e Cultura uma carta-elogio, porque Vanda,  com treze anos de idade, concorrendo entre dez mil candidatas, classificara-se em primeiro lugar num concurso para bolsas de estudo. Sete anos depois, como oradora de sua turma, ela faria um discurso que seria aplaudido durante cinco minutos, no Teatro Municipal:
 “Podeis crer, mestres queridos, algum dia sorriremos sem esquecer nunca o que fizestes por nós, quando exauristes forças, afirmando-nos, no pináculo da experiência, que o verbo regerá nossa vida, a ação que fará de nós mesmos servidores bandeirantes do saber. Educar será, para nós, propiciar ao homem de amanhã a capacidade de pensar e julgar livremente, isento de cópias; de pensar de forma autônoma, mais correlata ao seu mundo.”
          Candidata a Miss Guanabara, Vanda Hingel, angustiada, procurava dividir as situações: pela manhã, não poderia haver motivo para se afastar dos alunos e da família. Em casa, no pequeno quarto decorado com as estantes onde as coleções infantis e livros técnicos misturavam-se a discos e romances, ela passava a maior parte do seu tempo lendo Theilard de Chardin (Le Fenomène Humain), sua última paixão. Discutir religião e psicologia era o seu fraco. A sua mãe, Dona Ivone, uma carioca de 45 anos, descendente de alemães, interessava-se por tudo o que se passava com ela, na escola, no trabalho e na rua – quando ouvia gracejos porque era bela. Muito sentimental, entretanto, Vanda não respondia agressivamente aos galanteadores e preferia, muitas vezes, conversar sem rodeios, mesmo com desconhecidos.
          No dia em que veio ser fotografada no estúdio da MANCHETE, ficou muito deprimida com um fato que mais tarde contaria para sua mãe: “As moças são muito esnobes.” Chorou no táxi e o motorista, um paraibano, resolveu conversar com ela.  Chegando em Copacabana, não permitiu que ela pagasse a corrida e ainda lhe deu um enfeite (miniatura de chapéu de couro) que usava no seu carro.
          Em 1964, na escola, Vanda foi escolhida para defender  Caryl Chessmann num júri simulado. Muito nervosa, comprou todos os livros sobre o bandido da luz vermelha e conseguiu absolvê-lo. O julgamento durou mais de cinco horas.
          Em 1965, sem contar nada à família matriculou-se  num curso de inglês, pago com as aulas particulares que dava, quando chegava da escola. Dois anos depois, entregou o diploma aos pais. 

           Excessivamente sentimental, em janeiro deste ano rompeu o noivado com o estudante de medicina Arnaldo Sussekind Filho, e estava abalada por isso. Mas ela mesma fazia questão de deixar bem claro, quando conversava com os amigos: "Isso já faz tempo. Não tem nada a ver com com o concurso de miss." Sua solidão aumentara, mas ela relembrava que, quando era noiva, pela primeira (e única) vez na vida, fora a uma boate. Praticamente não conhecia a noite carioca. Afora isso,dançou em 1965 no Teatro Municipal, integrando um espetáculo de balé rítmico, sendo a mais aplaudida de todas. Finalmente, em seu isolado mundo – onde as crianças pontificavam – ela achava que o importante, em vez de chorar, era criar. O resultado veio em quatro canções de sua autoria, que sonhava um dia poder mostrar a Nara Leão ou Tom Jobim, seu compositor preferido.
(Carlos Marques, “A Morte de uma Miss”, revista Manchete, 1º/07/1967)

AS ÚLTIMAS HORAS DA VIDA DE VANDA HINGEL

Vanda Hingel, Miss Olaria 1967. (Foto: Gil Pinheiro, revista Manchete, 1º/07/1967)
          Numa manhã de sexta-feira que poderia ser igual às outras, Vanda Hingel, antes de ver os jornais que traziam seu nome como candidata favorita ao concurso de Miss Guanabara, teve suas horas contadas assim:  
O6h30min: Ela acorda disposta e natural. Atende o telefone e chama o pai.
07:00h: Toma o café da manhã com os pais, quando mantem o seguinte diálogo:
 - Pai: Como é? Vai continuar ou vai desistir do concurso, minha filha?
- Ela: Vou continuar. Já me sinto melhor. Tem algumas coisas que não gosto, mas... isso não tem importância. Depois me acostumo.
- Pai: Quando você quiser desistir pode sair...
- Ela: Amanhã temos que ir a Olaria. Depois tem uma festa.
- Mãe: Eu posso ir com você. Fazendo companhia.
- Ela: Não, Não precisa a senhora ir. É muito cansativo.
08h30min: Acaba o café. O pai sai para o trabalho. Vanda chama sua mãe. Pede que telefone para o repórter de MANCHETE. Pede também uma roupa. Enquanto isso, coloca na sua pequena vitrola  o disco Mi Perderai, de Tony Renis, e fica na sala, andando de um lado para outro, como se estivesse treinando na passarela.
09:00h: Sua mãe diz que não conseguiu ligar para a revista. Fica na sala.
09h15min: Toca o telefone e a mãe vai atender. Enquanto fala ouve um barulho. Desliga. Vai ao banheiro. À cozinha. Ao quarto. Finalmente, olha para a janela  e vê o corpo da filha estendido no pátio interno do edifício. Ensanguentada e usando um baby-doll branco.
(Carlos Marques, “A Morte de uma Miss”, revista Manchete, 1º/07/1967)
VANDA HINGEL, UMA MÚSICA ANTES DA QUEDA


Naquela trágica sexta-feira de junho de 1967, antes de pular do décimo andar ao encontro da morte, Vanda Hingel colocou na sua pequena vitrola  um disco de Tony Renis, onde ele cantava Mi Perderai. (Foto: Disco de vinil, compacto duplo, acervo: DML)
          Os versos de “Se Mi Perderai” , canção italiana de  Philippe Rombi,  dizem assim:
Se um dia ficarás sem mim, / Então, talvez, entenderás. / Se me perderás./ Talvez entenderás / Que quiseste bem a mim somente, / Talvez sentirás,
que ninguém nunca / Pode preencher o vazio do teu mundo.

Sozinha entre as lembranças, / Tu deverás entender / Que não podes destruir um amor,/Mas se tu quererás /Me poderás procurar, / Estende a tua mão somente para mim.

Te esperarei, me encontrarás,/Eu voltarei contigo, contigo./ Se me perderás. /Talvez entenderás/Que quis bem a ti somente,/ E se tu quererás, / Me poderás procurar, / Estende a tua mão e eu virei.
 
EPÍLOGO
          Vanda Hingel, Miss Olaria 1967, um dia escreveu este poema:
Suba ao ponto mais alto e esquecido do morro / Mesmo que seja um montículo à toa. / Encare de novo a realidade / Sorria pela criança mais miseravelmente mendiga / E verá que sua queda / Foi um tombinho á toa.
          O mundo é cruel para as pessoas sensíveis. Viver ou morrer? Ficar ou pular? Vanda Hingel optou por pular, antes de disputar o título de Miss Guanabara 1967. 
          Que sua queda tenha sido um tombinho à toa em sua longa caminhada em busca da harmonia e da verdadeira Luz.

4 comentários:

Anônimo disse...

Gosto do seu Passarela.Lembro desse fato.Vanda era lindíssima e seria páreo duro para Vera Lúcia Castro.Talvez com um tipo mais bonequinha, arrebatasse o jurado.Abraços, Japão

DASLAN MELO LIMA disse...

Comentário de Muciolo Ferreira,jornalista, via e-mail.

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Daslan,

a morte prematura da Miss Olaria de 1967, a bela e inteligentíssima Vanda, foi o fato mais triste e marcante do Miss Brasil em todos os tempos do concurso. O motivo do suicídio continua envolto em mistério.

Minha família reside no Rio desde a década de 50 e na época foram várias as versões, segundo minhas tias e primas. Todavia, a mais corrente, e talvez mais próxima da realidade, diz respeito a uma forte depressão adquirida e motivada pelo fim do seu noivado meses antes de sua inscrição no Miss Guanabara.E que sua participação no concurso seria apenas um pretexto para chamar atenção do ex-noivo e conseguir uma possível reconciliação, o que não aconteceu. Mas são suposições. O fato é que a Vanda tinha sim todas as condições de bater a vencedora daquele ano, Vera Lúcia Castro - candidata do Clube Motel dos Bandeirantes, classificada apenas entre as oito finalistas do Miss Brasil, coisa rara para uma miss do Estado da Guanabara.

A Sessão Nostalgia valeu pela recordação de tão lamentável fato ocorrido no unverso das misses.
Uma boa semana a todos os leitores e em especial ao editor do blog.

Muciolo Ferreira
Recife-PE

Cleciopegasus disse...

Não conhecia a história de Vanda Hingel. Gostei muito do texto: grande sensibilidade sem pieguice. Grande abraço! Fica com Deus!

Cláudio Eufrausino,
jornalista - Caruaru-PE

Anônimo disse...

Voltei.para saber mais de Miss Olaria...Não lembrava q já tinha comentado aqui.Revendo a linda VLCastro,que pessoalmente,deveria ser lindíssima,reli tua história...Ela é tua,minha,Mucíolo,Clecio...pq faz parte de nossos corações.
Como sempre,teus textos são profundos.
Abraços,Japão