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sábado, 24 de novembro de 2012

SESSÃO NOSTALGIA – Márcia Gabrielle, Miss Brasil 1985, e Deise Nunes, Miss Brasil 1986, contam quase tudo


Por Daslan Melo Lima 

                                                              PRÓLOGO


          No início de abril de 1987, a revista Manchete circulou em todo o pais trazendo na capa duas Miss Brasil que tinham sido semifinalistas no Miss Universo dos dois anos anteriores, Márcia Gabrielle, Miss Mato Grosso 1985, e Deise Nunes, Miss Rio Grande do Sul 1986. A chamada de capa era bombástica, “Dois livros sensacionais – As Misses Contam Tudo”. Abaixo, os trechos curiosos daquela reportagem.


A FORÇA DA BELEZA ACIMA DOS DESENCANTOS: DEISE NUNES E MÁRCIA GABRIELLE VENCEM PELA IMAGEM, DESAFIANDO TUDO.


          Márcia Gabrielle deixa os cabelos sobre os ombros, caindo até os seios. Deise Nunes volta o rosto para trás. Sai luz pelos olhos, a beleza envolve a sala, a ideia é de uma alegria que jamais acaba. “E viveram felizes para sempre”, cantam, na janela, as fadas que saíram do conto. “Não é verdade”, contesta Márcia, Miss Brasil-85. “Vida de miss não é conto de fadas”, concorda Deise, Miss Brasil 86. Todos os segredos das duas vêm à tona, agora, em livros que serão editados dentro de pouco tempo. “Fui humilhada, enfrentei cantadas terríveis”, diz Márcia, no livro A Trajetória de Uma Miss, que está concluindo. “Nossa vida sempre foi um sufoco”, revela Ana Nunes, 35 anos, mãe de Deise, no livro Do Tanque a Paris, também em elaboração. O conto-não-de-fadas das misses prova: nem tudo é sonho no mundo da beleza. As duas misses sofreram discriminações de toda espécie. Márcia por sua origem, Deise por sua cor.
           Deise concorda plenamente com Márcia, em sua advertência contra a ingenuidade das meninas que vêem os concursos de miss como um contro de fadas. Os concursos, asseguram, são limpos – não há acertos, cambalachos, compra de juízes. Márcia não recebeu cantadas durante o concurso – elas só vieram depois. Mas Deise recebeu  durante e depois, e sabe de muita gente que recebeu também. “Reagi sempre com muita naturalidade”, conta, “mesmo porque não havia outro jeito. Eu podia engrossar, dizer ô cara, vê se te enxergas!, mas se fizesse assim o cara podia sair dizendo que eu tinha dado em cima, essa coisas, O jeito, então, era apelar para a diplomacia. O cara desistia sem fazer barulho. As meninas que entram no concurso devem agir assim, pois o que não não falta é mau caráter capaz de distorcer tudo. Aí a gente fica mal!”

MÁRCIA GABRIELLE: “FUI CANTADA, HUMILHADA, ME CHAMARAM DE COISA À-TOA, SUJEITINHA”


          Márcia Gabrielle nasceu e ainda vive numa área cercada de favelas, no subúrbio carioca  de Bonsucesso. “Só que sempre uma vida muito cercada de amor, sustentação. Tenho pais maravilhosos. Aqui mesmo, sempre recebi da vida muito mais que alguma meninas da Zona Sul”, consola-se. Há pouco tempo, Márcia esteve em Cuiabá, Mato Grosso. Um cronista local, furioso porque ela cobrou cachê para desfilar – como fazem todas as modelos, profissão que adotou – chamou-a de “sujeitinha”, coisa à toa” e coisas piores. Outro cronista insinuou, até, que ela andava atrás de dinheiro, via prostituição
.          Márcia sempre teve facilidade para escrever. “Desde pequena eu fazia meu diário”, ela conta. Hoje, ao escrever “A Trajetória de Uma Miss”, ela é ajudada pelo diário, que às vezes, no entanto, a espanta: “Redescubro pensamentos da infância que jamais seria capaz de supor novamente: “O que ela procura mostrar, no livro, é como uma menina simples, de subúrbio, conseguiu chegar a miss, o que teve de enfrentar na trajetória, o que tirou de proveito, o que foi de mais e menos alegre.“Estou de repente, na minha posição de mulher”, explica Márcia. “O grande sonho das meninas é a fama, é ser miss, coisas do gênero. Pensam que é conto de fadas e não é. Uma coisa que tento mostrar é que beleza só não basta. É preciso inteligência, cabeça boa. Cada uma vai passar por mil problemas e é preciso estar preparada para vencê-los. Meu livro é uma advertência nessa direção. Pois o grande aceno que sempre se recebe nessa trajetória é ser objeto. E objeto só é quem quer.”   
          Ela sai conosco para um pequeno giro pela favela da Maré. Gente olha admirada a alta e lindíssima figura que posa apara as fotos. Vai até uma ponte sobre um canal poluído, aponta os brracos. “Quando eu era menina, minha casa era dentro de uma favela. Agora não é mais favela, a casa é bonita, bem cuidada, como você vê. Mas as favelas estão em volta, a Maré, a Baixa do Sapateiro, que era domínio dos Imrãos Metralha – mataram um deles há pouco tempo, lenbra? No meu livro, eu falo também deste mundo.” O livro está quase pronto. Para publicar, ela precisa ainda de contato com os editores e, até, advogados, pois, embora as pessoas que a disciminaram e cantaram sejam apresentadas com nomes fictíticos, talvez alguém queira processá-la. “Estou preparda, tenho documetos, testemunhos, tudo”, adverte. Dá uma ideia das coisas que enfrentou: “Meu sonho é tirar meus pais daqui, Pois bem, este sonho já teria sido realizado há muito se eu cedesse ás preessões para fazer determinado tipo de coisa. Prometeram muito dinheiro. Mas se eu cedesse, estaria chorando agora sobre uma cama de ouro. Minha consciência seria meu carrasco. Prefiro continuar aqui, mas na minha paz.”
      Ao longo do livro, Márcia procura se colocar sobre os problemas existentes na atualidade. Exemplos: A mulher lutou pela liberação, mas o homem ainda interpreta mal , é preconceituoso  A profissão de prostituta é digna em seu contexto, indigno é o homem que passa cantadas. Nudismo, topless, homossexualismo, casamento, descasamento, amizade colorida, são coisas da privacidade de cada um. Quem sou eu para julgar? Da minha parte, sou cem por cento pelo casamento. Tenho um noivo, o Júnior, e ano que vem, se tudo der certo, caso com ele e vou pra Europa. Já temos convite para um trabalho lá. – E a a virgindade, Márcia? – Também é coisa da individualidade de cada um. Outro dia me perguntaram se eu sou virgem. Respondi que não vinha ao caso, é assunto meu.
        A mãe de Márcia, Dona Enedina, entra na sala. “O problema de muita gente é que vai ao santo em vez de ir a Deus”, sentencia. Márcia explica: “Isto é influência minha. Eu aprendi na Bíblia que a comunhão com Deus é direta. Depois de pensar um pouco: "Há muito tempo eu sabia que ia ser miss. Recebi uma revelação divina. É impressionante. Outro dia, em Manaus, uma profetisa da Assembleia de Deus falou tudo da minha vida sem que eu lhe contasse nada. Quando fui a Mato Grosso, todas as humilhações que passei lá me foram reveladas antecipadamente.” Suspira: “Sou evangélica por opção. Mas não pertenço a nenhuma igreja. Todas têm defeitos. E também sobre religião minha ideia é esta: cada um com a sua escolha.

         DEISE E ANA: “SOFREMOS HORRORES COM A DISCRIMINAÇÃO RACIAL”



          Deise Nunes, filha de mãe solteira, cresceu com ela na casa de uma família no bairro de Petrópolis,  Porto Alegre. “Para viver, eu sempre lavei roupa. Lavando roupa, eu ajudei Deise a ser miss”, informa Ana, a mãe. Quando se fez Rainha das Piscinas (Porto Alegre, 1984), Deise enfureceu tanto os racistas que o concurso acabou. “É o fim do mundo esta crioula participar.” Que absurdo uma negrinha ganhar”  - eram frases que Deise ouvia pelas ruas.
          Ana Nunes, mãe de Deise diz: “No meu livro, Do Tanque a Paris, eu conto como conseguimos chegar onde estamos. Primeiro a vida dura, como lavadeira, e depois a Deise já em passarelas no exterior.” Aos 17 anos, um sobrinho do dono da casa engravidou-a. “Ele nunca quis saber da gente”, desabafa. Nisso tudo, o que nunca lhe faltou foi vontade de vencer. E, se houve profetisas evangélicas para falar do êxito de Márcia, Ana foi profética em relação a Deise, assim que o parto se completou:  “Olha só, esta é a minha Miss Brasil”, disse, acarinhando Deise bebê.
          A profecia começou a se cumprir em 1977, quando Deise, aos 9 anos, foi eleita Miss Simpatia do seu colégio. Em 83, foi primeira princesa em outro colégio. A vencedora adoeceu e ela foi representar o colégio no concurso Miss Unespa (União dos Estudantes Secundários em Porto Alegre) e ganhou a coroa.  Repetiu o feito em 1983, no Miss Mulata do Rio Grande do Sul, e, em 1984, foi eleita Rainha das Piscinas do Internacional, para desespero dos brancos. A grande consagração viria em 1986, quando ganhou os concursos de Miss Canela, Miss Rio Grande do Sul , e, afinal, Miss Brasil.
          Desde sua vitória, Deise vem trabalhando como modelo fotográfico e de desfile, para diversas casas. Ela nasceu na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, “onde me deram um tratamento maravilhoso”, conta Ana. Por isto, fez há poucos dias um comercial, de graça, e, favor da campanha Bônus da Vida, da Santa Casa. Sem contos, nem fadas, com sonhos muito bem reais: trabalhando para a vida.
      
                                               EPÍLOGO

          O livro escrito por Ana Nunes, mãe de Deise, foi lançado há alguns anos. Eu tenho um exemplar do mesmo. Quanto ao da Márcia Gabrielle, deve ter ficado apenas na intenção, pois não é do meu conhecimento que a Miss Brasil 1985 tenha lançado seu livro. Vinte e cinco anos depois, sofrendo preconceitos ou cantadas, centenas de jovens sonhadores deste imenso país-continente ainda sonham com o título de Miss Brasil. 

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Um comentário:

Anônimo disse...

A merecida vitória de Deise, em 1986, foi um grande tapa na cara da sociedade gaúcha, mostrando que o RS é formado por várias etnias e não apenas brancos europeus. Linda, segura e excelente representante, não foi à toa que chegou ao sexto lugar no Miss Universo. Parabéns, Deise Nunes! Mas, a propósito, quando teremos mais uma Miss Brasil negra??