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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 649, referente ao período de 11 a 17 de dezembro de 2017. ***** Grato por sua atenção.

sábado, 16 de julho de 2011

CRÔNICAS DE DASLAN MELO LIMA


 ATÉ CHEGAR AO CÉU

Daslan Melo Lima

            Na tarde de ontem, desenhei com carvão uma “academia” no meu quintal. O desenho remete a uma singela brincadeira da minha infância alagoana em São José da Laje, quando a meninada desconhecia televisão, computador, internet, orkut, vídeos-games...  Naquele tempo, a garotada desenhava nas calçadas, ou riscava nas ruas descalças, uma “academia”, sinônimo de diversão fácil, grátis, e, ao mesmo tempo, sem que pudéssemos imaginar, sinônimo de concentração e exercício físico.
         As “academias” eram compostas de dez “casas”, sendo a última, a de nº 10, chamada de “céu”.  As regras eram muito simples e objetivas. Pegávamos uma casca de banana dobrada ao meio e atirávamos para que caísse na “casa” numero 1, a mais próxima, depois vinha a  número 2,  e assim sucessivamente, até chegar ao “céu”.  Saíamos pulando numa perna só para apanhar a casca de banana e voltávamos para o ponto de início, no mesmo ritmo, a fim de recomeçar o ritual, tendo por objetivo a “casa” seguinte. Eu nem sempre chegava ao “céu”.        
      Na tarde de ontem, antes de sair para minha caminhada diária, deixei que o menino que um dia eu fui pulasse “academia”. Esforçei-me e consegui chegar até ao “céu”. E juntos, de bem com a vida, eu o menino que um dia fui fomos fazer nossa caminhada diária. 
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Timbaúba-PE, no último sábado de agosto de 2011.
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O SEGREDO DO MEU PÉ-DE-FERRO

Daslan Melo Lima
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               No meu tempo de criança, eu tinha vergonha da sala de visitas da minha casa. A sala principal, logo a sala principal, vivia repleta de dezenas de pares de calçados.  Motivo: Papai ganhava a vida consertando sapatos de todos os tipos e sua oficina funcionava dentro de casa.  Eu tinha inveja das casas da vizinhança, com suas salas decoradas com uma mesinha, cadeiras ao redor e outra mesinha num recanto com um rádio.
               Um velho pé de ferro, uma das ferramentas de Papai, decora hoje o ambiente da sala principal da minha casa. Às vezes, o espaço ao redor fica desorganizado, com coisas espalhadas por todos os lados.   Nessas horas, o menino que um dia eu fui tem a impressão que o velho pé de ferro pensa que os meus livros, revistas, cds, dvds  e jornais são sapatos, solas, graxa, martelos, alicates, couros e  pregos.
                O velho pé de ferro guarda um segredo meu. Ele sabe que o homem que hoje sou adoraria , por alguns minutos, retornar à casa da minha infância, entrar naquela sala de outrora, reencontrar o meu Pai, dar-lhe um abraço, um beijo e vim embora.
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NA ÉPOCA DA JOVEM GUARDA



Daslan Melo Lima


                Tenho um painel, uma colagem que fiz há muito tempo, com fotos extraídas de revistas, dos mais significativos cantores e cantoras do movimento musical Jovem Guarda.  Lá estão Antônio Marcos, Bobby De Carlo, Demetrius, Deny e Dino, Eduardo Araújo, Ed Wilson, Erasmo Carlos, George Freedman, Golden Boys, Jerry Adriani, Leno e Lilian... Ainda: Marcos Roberto, Martinha, Os Incríveis, Os Vips, Renato e seus Blue Caps... Também: Roberto Carlos, Ronnie Von, Rosemary, Sérgio Reis, Silvinha, Trio Esperança, Vanusa, Waldirene, Wanderley Cardoso...
               Não vivi aquele tempo como acho que deveria ter vivido.  Enquanto a maioria dos meus contemporâneos se permitia viver e cantar descontraidamente, sob o ritmo das músicas dos anos 60, eu vivia envolvido em crises existenciais, lutando para decifrar enigmas da vida e da morte. Em compensação, como “vingança”, guardei muita coisa daquele tempo (revistas, livros, discos...) como se tivesse roubado do Senhor Tempo preciosos momentos que o destino não permitiu que eu vivesse.
             Certa vez, um psicólogo me disse durante uma sessão de terapia a respeito desse assunto: “Você viveu aquele tempo de forma diferente, para dentro, introspectiva, mas viveu. Seus colegas viveram para fora, de forma extrovertida, mas você também viveu. E muito!”. Essa observação foi um bálsamo para as dores da minha alma. Apesar disso, eu sinto um pouco de inveja dos meus amigos da minha infância alagoana em São José da Laje. Acho que nenhum deles gastou tantas horas como gastei, atrás de respostas para perguntas sem respostas.
              Sofri. Chorei. Cresci. Hoje, quando tocam sucessos daquele tempo nas festas às quais compareço, tenho a impressão de que estou vivendo um sonho e agradeço a DEUS por ter sobrevivido aos  desencontros, desilusões e desamores. Se por um lado a melancolia invade minh'alma, o menino que um dia eu fui canta e dança com uma euforia incomum, como se quisesse se "vingar" da época da Jovem Guarda. Época complicada para mim, quando as circunstâncias do aprendizado da minha caminhada não permitiram que eu abrisse meu coração e soltasse a minha voz.
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ANTES DO VERÃO CHEGAR
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 Daslan Melo Lima


                Um homem desconhecido, de pés descalços e sem  agasalhos, dorme na calçada  de uma fria manhã no centro do Recife, capital de Pernambuco. Na parede da casa comercial, o outdoor mostra duas crianças felizes fazendo propaganda de uma grife. Pego minha câmara fotográfica e capto uma cena poética que seria linda se não fosse dramática. 
               Peço perdão a DEUS  pela minha impotência diante do quadro na minha frente. Sou mais uma das milhares de pessoas que passam diante do homem que dorme na calçada e nada faz para reverter a situação.
              Tomara meu DEUS, tomara, que ele esteja sonhando que é uma criança feliz, e que não acorde antes do verão chegar.


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UM FESTIVAL DE FANTASIAS


Daslan Melo Lima


                Recife, noite de um verão de um tempo que se foi. Sensação depressiva de estar me sentindo só na então  terceira maior cidade do Brasil.  Entrei amargurado  para rezar na  Igreja Matriz da Boa Vista e saí  de mãos dadas com a Esperança. Enquanto me dirigia à Praça Maciel Pinheiro, a fim de sentar-me em um banco para fazer a mim mesmo mil perguntas sem respostas, meus olhos se encontraram com os olhos de alguém. Vontade imensa de ficar na praça para sempre, meu corpo ao lado do corpo daquela paixão platônica. Quando se é muito jovem, a vida é um festival de fantasias.
                 
               Recife, manhã do inverno de 2011. Sensação boa de me sentir quase anônimo na nona maior cidade do Brasil. Entro tranqüilo para rezar na Igreja Matriz da Boa Vista e saio de mãos dadas com a Fé. Enquanto me dirijo à Praça Maciel Pinheiro, a fim de saborear mil respostas que a maturidade me deu, meus olhos se encontram com os olhos de alguém.  Vontade imensa de ficar na praça para sempre, meu corpo e minha alma com o corpo e a alma de mais uma paixão platônica.  Quando não se é mais  tão jovem, a vida ainda pode continuar oferecendo um festival de fantasias.
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