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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 633, referente ao período de 20 a 26 de agosto de 2017. ***** Editor: Daslan Melo Lima ***** Timbaúba, Pernambuco, Brasil ***** Telefone: (81) 9.9612-0904 (Tim). ***** WhatsApp: +55 81 9.9612.0904 ***** E-mail: daslan@terra.com.br

sábado, 10 de março de 2012

NO COMPASSO DA PAIXÃO - Seleção de crônicas de Daslan Melo Lima

NO COMPASSO DA PAIXÃO
Seleção de crônicas de Daslan Melo Lima 

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COMETAM AMOR
Daslan Melo Lima


... Eu quero me enrolar nos teus cabelos,
abraçar teu corpo inteiro,
  morrer de amor, de amor me perder...

      Quando a canção “Moça”, na interpretação de Wando, explodiu nas paradas de sucesso de todo o Brasil, eu vivia mais uma das mil paixões platônicas que inundaram a minha vida. Fiquei triste com a morte dele, ocorrida na quarta-feira, 08, da mesma forma como fiquei triste quando partiram outros cantores românticos populares como Altemar Dutra, Alcides Gerardi, Anísio Silva, Nélson Gonçalves, Núbia Lafayette, Waldick Soriano...
     A propósito, outro dia,  um jovem leitor de PASSARELA CULTURAL perguntou-me o porquê de eu gostar de falar de coisas passadas em minhas crônicas.  Na condição de romântico assumido e sentimental incorrigível, vou responder agora com um trecho de outra música do Wando:

...Talvez hoje vocês me julguem assim,
um cara cansado, velho, mas não é nada disso.
 A verdade é que eu gosto de retornar  às minhas coisas antigas
 porque elas me fazem muito bem.
E vou dar um conselho pra vocês:
Cometam amor porque amor faz bem, ao espírito, ao coração...

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 VERÃO COM CARA DE INVERNO

Daslan Melo Lima

            
          A bela foto acima, clicada por Alexandre Gondim/JC Imagem, ilustrou a matéria "Verão com cara de inverno", na primeira página do caderno Cidades, doJornal do Commercio, Recife, edição de 24/01/2012. Um poema em forma de foto, mostrando o casario da Rua da Aurora e o Rio Capibaribe repleto de baronesas.
        Durante quatro anos da minha vida, a Rua da Aurora e o Rio Capibaribe foram testemunhas de alguns dos meus sonhos mais sonhados, quando eu passava para estudar no tradicional Ginásio Pernambucano. Eu estava no verão da minha vida, mas era um verão que muitas vezes ficava com cara de inverno, quando, confuso  e preocupado com que o futuro me reservava, sentava-me  às margens do Capibaribe sonhando com um verão permanente em minh'alma. 
       Na maturidade das nossas vidas podemos entender melhor as sábias lições da natureza. Verão e inverno dentro de nós. Verão e inverno fora de nós. Nem tudo é verão, canta o céu quando a chuva cai. Nem tudo é inverno, canta o céu quando o sol sai. 
       Assim Seja ! 

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 AI SE EU TE PEGO

Daslan Melo Lima

Nossa! Nossa! / Assim você me mata!  / Ai se eu te pego! / Ai, ai, se eu te pego! / Delícia! Delícia! / Assim você me mata! / Ai se eu te pego! / Ai, ai, se eu te pego!

      Peço perdão aos meus leitores mais conservadores, mas confesso que gosto da sensualidade que emana dos versos dessa música que atravessou as fronteiras brasileiras através da voz de Michel Teló. Os jovens de  hoje desconhecem a repressão sofrida pelos rapazes e moças da minha geração. Na minha juventude, garotos e garotas, principalmente os meninos, tinham de se policiar a todo momento, pois bastava um rebolado sutil, um leve balançar de quadris, para sermos estigmatizados como integrantes da juventude transviada.

Nossa! Nossa! / Assim você me mata!  / Ai se eu te pego! / Ai, ai, se eu te pego! /
                 Acredito que “Ai se eu te pego” vai ser uma das músicas mais tocadas do carnaval deste ano. Espero ouvi-la nos poucos e selecionados focos de folia em que irei comparecer, a fim de, com sabedoria, permitir que o garoto tímido que um dia eu fui entre na sintonia de outra realidade. Distanciado dos amores impossíveis e proibidos de ontem, e aberto para viver com equilíbrio os amores possíveis e permitidos de hoje, cantarei e dancarei a música do Michel Tolé.     

 Delícia! Delícia! / Assim você me mata! / Ai se eu te pego! / Ai, ai, se eu te pego!
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 DIANTE DO PORTO DE CABEDELO

Daslan Melo Lima


       Sou um homem de poucas viagens pelo Planeta Terra.  Sou um homem de muitas viagens para dentro de mim. 



      Diante do Porto de Cabedelo, Paraíba, tenho plena consciência que não preciso de nenhum navio. Os meus pensamentos podem me levar para qualquer mar. Estou preparado para administrar as tempestades dos meus mares interiores. 
    Aprendi a equilibrar a minha embarcação e sigo em frente, eterno aprendiz em todos os portos que Deus colocar na minha rota.
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Cabedelo-PB, janeiro de 2012.

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VELHO ANO NOVO
Daslan Melo Lima
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               Final de 2011. Sensação de algo morrendo em mim e ao redor de mim. 
Talvez seja por conta da última folha de dezembro que logo mais destacarei do calendário.
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               Final de 2011. Sensação de algo nascendo ao redor de mim. Talvez seja a vibração positiva do vento, ou os anjos invisíveis que estão dançando para saudar o novo ano.
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                Final de 2011. Morro um pouco com ele, como tantas vezes morri nos finais dos anos que se foram, para sempre se foram. 
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                 Final de 2011. Renascerei um pouco em 2012, como tantas vezes renasci nos inícios dos anos que se foram, para sempre se foram.
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ALGUMAS LÁGRIMAS CONTENTES

Daslan Melo Lima

          Ganhei vários presentes de Natal, entre eles um do meu amigo Dido Borges, de São Vicente Férrer-PE, um  cd de Clara Nunes (1942-1983), reprodução do vinil Claridade, de 1975, que tem a canção "Que Seja Bem Feliz", do Cartola (1908-1980). 

Se bom pra você for, / pode partir, amor. / E que seja feliz / e muito bem feliz. /// Que Deus e a natureza, / as aves nos seus ninhos, / as flores pela estrada / perfumem todos os caminhos.  /// Eu aqui ficarei. / Por você rezarei / todas as tardes /ao bater Ave-Maria. /// Que seja bem feliz / e leve-me na mente. / Que cresçam suas glórias / e as minhas lágrimas contentes.

         Muito mais que poesia, a canção é uma verdadeira oração. Imagine você saber que está perdendo um grande amor e, no lugar de ficar desesperado, pede  a Deus para que ele seja feliz e muito bem feliz.

      Um pouco de melancolia teima em se instalar em nossos corações nestas festividades de Natal e Ano Novo. Se isso acontecer, devido a certo alguém que um dia se foi, qualquer que tenha sido a circunstância, imagine que ele esteja feliz. Reze. Imagine que ele tem você na mente. Reze, peça a Deus que cresça suas glórias, ponha um sorriso no rosto e deixe escapar algumas lágrimas contentes.
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Timbaúba-PE, antevéspera do Natal de 2011
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Ouça Clara Nunes interpretando “Que seja bem feliz”,     http://www.youtube.com/watch?v=ZDUK_h5lDk4

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 UM PRESENTE DE NATAL PARA ROSA CALDAS

Daslan Melo Lima

          Lembro-me de um dezembro de um tempo que se foi, para sempre se foi.  Minha prima Rosa (Maria Rosângela Silva Caldas) chegou à minha casa e pediu-me que lhe desse de presente um livro infantil que fazia parte da minha coleção de publicações infantis. Tratava-se de Lady, de Walt Disney, que falava de uma linda cachorrinha rica, uma dama  que se apaixonava porTravesso, um vira-lata, um vagabundo. Eu gostava muito da Rosa, mas era incapaz de desfazer-me daquele livro mágico que tanto combinava com o Daslan-menino, romântico e sonhador.


 
       
          Na semana passada, encontrei em um “sebo” do Recife, um exemplar idêntico de Lady. Comprei o livro e enviei  ontem pelos Correios para a minha prima Rosa, que continua morando em São José da Laje-AL, a Princesa das  Fronteiras.

 

         Gostaria de viajar com o pensamento, acompanhado do silêncio e do vento, para estar ao lado de Rosa quando ela abrir o envelope, a fim de  testemunhar sua emoção. Mas  estarei aqui em Timbaúba-PE, a Princesa Serrana, relendo o meu exemplar de Lady no dia de Natal, para atender aos insistentes pedidos da criança que um dia fui.

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Timbaúba-PE, no 16º dia de dezembro de 2011, a um passo do Natal.

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IRMÃ VIDA, IRMÃ MORTE

Daslan Melo Lima

          Gosto muito da história de São Francisco de Assis (1182-1226) e do seuCântico do Sol, onde ele trata todas as coisas por irmãs: Irmã TerraIrmã Lua,Irmão Fogo...

          No Alto do Cruzeiro, em Macaparana, Pernambuco, na companhia doIrmão Sol e do Irmão Vento, sinto-me tão leve que tenho a impressão que posso voar como minhas Irmãs Aves.
             Ao lado do Irmão Silêncio, mergulho em mim caminhando lentamente ao redor da Capela dedicada ao Irmão São Francisco de Assis. As Irmãs Nuvens  são testemunhas das mil falhas que tenho como ser humano, mas também são testemunhas que todos os dias peço a DEUS para que Ele me faça um instrumento de sua Paz.
                     
                             E assim, após renovar minha alma de Esperança e Fé,  estendo minhas mãos à Irmã Vida, consciente que um dia estenderei minhas mãos à Irmã Morte, rumo a uma nova missão em outra dimensão.
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EU NÃO VIREI MACACO

Daslan Melo Lima

          “Dizem que em sessenta nego vai virar macaco! / Olham vejam só que grande confusão! " Assim começava o frevo pernambucano “Operação Macaco” , de Nelson Ferreira e Sebastião Lopes, na interpretação de Nerize Paiva, muito tocado nas rádios durante um carnaval da minha infância alagoana em São José da Laje. Comentava-se que um “profeta” americano teria dito que quando chegasse o ano de 1960 todos os negros virariam macacos. Se fosse hoje, um assunto desse não teria credibilidade alguma na mídia, assim como a música, politicamente incorreta, jamais seria gravada.
          Meu pai, filho de uma negra com um homem branco, era mulato. Minha mãe era branca, filha de uma morena com um louro de olhos azuis. Meu pai era sapateiro e minha avó paterna ganhava a vida carregando lata d’água na cabeça, enquanto minha mãe vinha de uma família de melhores condições financeiras. Lembro-me de ter ouvido meu pai dizer a minha mãe: “Daslan é estudioso, mas a cor da pele vai atrapalhar a vida dele. Se ele fosse mais claro, ou se fossemos ricos, a história seria diferente.”
           Em São José da Laje havia duas famílias afrodescendentes ricas, os Martins e os Bernardo, pessoas finas que gozavam de grande prestígio na sociedade local. Dois integrantes de ambas as famílias foram colegas meus no Ginásio São José, José Bernardo e Antonieta Martins. Por parte dos meus companheiros de estudo, não sofri discriminação por causa da cor da minha pele, embora me sentisse inferior, por conta da precária condição econômica dos meus pais. Outra coisa, soava estranho ouvir expressões assim: Ele é um negro de alma branca... Negro quando não caga na entrada solta um peido na saída... A coisa está preta...
          Voltando ao frevo “Operação Macaco”, eis a letra completa da música:Dizem que em 60 nego vai virar macaco. / Ora vejam só que grande confusão. / Se for verdade essa Operação Macaco, / penca de banana vai custar um milhão. /// Quem mata um gato tem sete anos de azar. / Tem nego como o diabo fazendo tchuitchui. / Se for verdade o que diz o profeta, / o que seria de Pelé ou do Didi?/ Nego é gente igual a gente, / muito preto existe pra ninguém botar defeito. / Profeta toma jeito, / cuidado com a negrada, / se ela te pega vai dizendo, olha a papada.
          Os tempos mudaram. Barack Obama é negro e é presidente dos Estados Unidos. Leila Lopes, Miss Angola,  é negra e é Miss Universo.  Não sei até que ponto a cor da minha pele me fez perder algumas oportunidades, mas consegui o meu lugar ao sol. No entanto, o menino que um dia eu fui não esquece das lágrimas que derramava quando certa pessoa  gracejava:  “Lá vem ele ! O  rabo dele já está saindo! Daqui a uns dias,  ele vai virar macaco! “ 
            Na semana em que se celebra a consciência negra, o menino que um dia eu fui dar as mãos ao vento, olha para o céu, agradece a DEUS pelos encontros e desencontros da caminhada  e grita em silêncio: Que bom que tudo isso faz parte do passado ! Que bom que eu não virei macaco!

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DÚVIDAS E PROMESSAS DE AMOR

Daslan Melo Lima

          Eu tinha onze anos de idade quando mergulhei pela primeira vez em um poema romântico. Uma senhora trouxe um par de sapatos para  meu pai consertar embrulhado em folhas de uma revista e numa delas havia um pequeno poema chamado DÚVIDA, de autor desconhecido, que li e reli inúmeras vezes. 

  Estou ficando com medo / de que este nosso brinquedo / não seja simples assim. /// Junto a ti só te vejo / longe de te só revejo / as horas ainda sem fim. /// E se te vejo não rias / eu penso noites e dias / se também pensas em mim.

        Há dez anos, inspirado nos mistérios do amor-desamor, da ilusão-desilusão e dos encontros-desencontros, criei o poema chamado DÚVIDAS E PROMESSAS DE AMOR.

          Há mil dúvidas no ar / (Nem só as certezas pairam no  ar ) / Era verão de um tempo que se foi / (ou seria inverno de um tempo que não se foi?)  /// O menino que um dia eu fui /  (Será que um dia deixei mesmo de ser menino?) / ao folhear uma revista mergulhou  na beleza de um poema de amor. /// Há mil certezas no ar / (Nem só as dúvidas pairam no ar ) / É verão de um ano que também se permite ser inverno. / O homem que sou ( sem nunca deixar de ser  o menino que fui ) / ainda mergulha naquele poema decorado na infância / E embora nas tardes cinzas sinta a dor do desamor / abraça as manhãs ensolaradas que trazem dúvidas (e promessas) de amor.  

          A um passo de um novo ano, permito-me mergulhar nas dúvidas da caminhada e emergir de braços dados com as promessas que o amor ofereçe.

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Timbaúba-PE, no último sábado de novembro de 2011. 
         

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A ROSA DO AMOR


Daslan Melo Lima


          Por pudor, formação religiosa, temperamento ou bloqueios, há quem levante um muro altíssimo entre o amor e o prazer. O primeiro é visto como algo celeste, superior... O segundo como um sentimento terreno, inferior...  Mas ambos podem dividir o mesmo espaço. 
       Omar Khayam (1050-1123), poeta e astrônomo persa, disse um dia: “Se enxertaste em teu coração a rosa do amor, tua vida não foi inútil, quer tenhas buscado ouvir a voz de Deus, quer tenhas, sorridente, empunhado a taça do prazer.”  
         Não podemos sentir culpa se em certas ocasiões o prazer transborda em nossas taças, desde que a rosa do amor floresça em nossos corações. Quando o amor norteia nossas ações, não brincamos com os sentimentos de ninguém.  Quando o amor norteia nossas ações, as ciladas da paixão passam distante dos nossos corações. 
       Só uma coisa importa ao término da nossa missão no planeta Terra: ouvir um coral de anjos invisíveis cantar que nossas vidas não foram inúteis. 

         Assim Seja!
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Timbaúba-PE, no primeiro sábado do último mês de 2011.
                                                  
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 QUE SEJAS FELIZ, FELIZ, FELIZ...

Daslan Melo Lima

          Não há dúvida alguma de que é muito sofrido o término de uma relação amorosa.  É complicado quando não se tem estrutura emocional para encarar o fim de um relacionamento, onde as pessoas assistem o naufrágio dos sentimentos e dos sonhos envolvidos. E pior quando os dois ou um dos dois torna público as particularidades do casal e as ofensas mútuas chegam à justiça e à imprensa. 
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          Acho bonito quando as pessoas rompem uma relação de forma civilizada. A paixão acaba, o amor acaba, mas a amizade permanece. Quem expressou isso muito bem, através de "Que Sejas Feliz", uma música linda gravada por Carlos Alberto, foi a compositora mexicana Consuelo Velasquez (1924-2005).
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          Que sejas feliz, feliz, feliz... / É tudo o que peço em nossa despedida. / Não pode ser depois de haver te amado tanto. / Assim são essas coisas tão estranhas desta vida. /// Sempre irás contar comigo. / Que importa se chegou o fim do nosso amor. / Ficamos como amigos. / E em vez de despedirmos com rancores e com pranto, / Eu que te amei tanto, quero que sejas feliz, feliz, feliz...
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         Um dia um alguém disse para mim: “Valeu o tempo que passei com você, mas por força das circuntãncias é melhor pararmos por aqui.” Apesar do pranto que ameaçou cair dos meus olhos, pedi a DEUS em silêncio unicamente uma coisa : que dissipasse o rancor que ameçava se instalar em minh'alma. Os anjos invisíveis ao meu redor ajudaram-me a não compactuar com a raiva, o ódio e o rancor, sentimentos negativos e destruidores. Apertei a mão daquele alguém e com um sorriso nos olhos falei com toda sinceridade: “Quero que sejas feliz, feliz, feliz...”
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                SUÍTE PARA O FINAL DE MARÇO



       Tardes de março sob o reinado do intenso calor pernambucano. Saudades do sal,  do céu e do mar de Maceió, atenuadas por algumas imagens da Praia da Sereia que encontrei no Facebook da minha conterrânea Josenira Degroot.
       Fecho os olhos, enquanto uma lufada me faz pensar que estou no litoral alagoano.  Obrigado, amigo Vento, muito obrigado.  O que dizer sobre você, neste março que logo mais será passado?  "Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido", disse um dia Fernando Pessoa, enquanto João, no capítulo 3, versículo 8, afirma:  "... o vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito."



       Fecho os olhos, enquanto outra lufada me leva a dizer muito obrigado ao Dorival Caymmi,  autor de uma pérola da música popular brasileira que diz “Minha jangada vai sair pro mar, / vou trabalhar, meu bem querer. / Se Deus quiser quando eu voltar do mar, / um peixe bom eu vou trazer. / Meus companheiros também vão voltar / e a Deus do céu vamos agradecer.”
        Final do mês de São José. Pausa para agradecer a DEUS, por ele e por todos os meses que virão, norteados por nossa Fé.
      
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Daslan Melo Lima, no antepenúltimo dia de março de 2014, ouvindo “Suíte do Pescador", de Dorival Caymmi, www.youtube.com/watch?v=3zd0MJrSQxQ

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"O OUTONO É A PRIMAVERA DA VIDA "


          O vento pernambucano do primeiro dia do outono deixou em minha caminhada sabor da primavera da minha vida, sabor de infância.
      No tabuleiro de um vendedor que passava havia "doce japonês", guloseima similar a uma de nome “quebra-queixo”, que fazia a delícia do paladar do menino alagoano que um dia eu fui. Comprei um pedaço e peguei minha inseparável câmara para fotografar a mim mesmo, ou seja, “selfie”, para usar um termo virtual da moda.
          “O outono é a primavera do inverno”, disse um dia Henri de Toulouse Lautrec (1864-1901), célebre pintor francês. De bem com o Universo, saboreei o doce e continuei minha caminhada, feliz por ser um homem que chegou ao outono da vida aprendendo a administrar com sabedoria velhas emoções inacabadas.
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Daslan Melo Lima, no bairro de Araruna, Timbaúba, PE, em 20/03/2014

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NEM O MÊS DE MARÇO, NEM EU

      Faz 45 anos que uma tragédia natural destruiu parcialmente a cidade onde nasci. Na madrugada de 14/03/1969, enquanto todos dormiam, uma enchente no Rio Canhoto levou ruas e vidas para o Mar. 
        Eu já morava no Recife na época, mas só DEUS sabe o quanto sofri lendo as manchetes dos jornais e revistas. Uma delas foi como um soco no estômago, mais que isso, um soco n’alma, "E o rio sepultou São José da Laje", título de uma reportagem da revista “Fatos & Fotos”, de 03/04/1969. 
      Meu torrão natal nunca mais foi o mesmo depois daquele pesadelo, nem o mês de março, nem eu. – Daslan Melo Lima, março 2014

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A VOZ DE ANA


      Quando o destino fez Ana Melo Lima, minha Mãe, deixar São José da Laje, AL, para morar no Recife, nunca houve um ano sequer onde ela, no dia 19 de março, não amanhecesse cantando um velho hino religioso muito popular em nossa terra natal: “A princesa cristã das fronteiras, / nos anais de mil graças a flux , / comemora...”       
      Antes de começar o canto, dizia num misto de saudade e religiosidade: “Meu filho, você sabe que dia é hoje? É o dia de São José, padroeiro da nossa terra.” E com os olhos cheios d’água aumentava a voz ao cantar o estribilho: “Sê doçura, na paz, no abandono, / o amigo fiel de verdade. / Oh, José, da Igreja patrono, e patrono da nossa cidade!” 
      “Falta a voz de Ana cantando neste março de águas fechando o verão!”, grita em silêncio o quadro de São José que dei de presente a minha Mãe num março de um tempo que se foi, para sempre se foi. – Daslan Melo Lima, março 2014.

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PROMESSA DE VIDA 


      Nublada e chuvosa manhã de terça-feira, véspera do Dia de São José, para alegria de todos, inclusive do meu pé de manga rosa, com pinta de árvore de natal. 
       Enquanto chove lá fora, canto aquela música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, em dueto com o vento frio: 
      “São as águas de março fechando o verão. / É a promessa de vida no teu coração. / Pau, pedra, fim, caminho, / resto, toco, pouco, sozinho, / caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol. / São as águas de março fechando o verão. / É a promessa de vida no teu coração.” - Daslan Melo Lima, março 2014.

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ABACAXI COM FARINHA DE MANDIOCA


        Eis a minha opção singela e nutritiva para o meu almoço desta segunda-feira, abacaxi com farinha de mandioca, uma delícia! Quem foi que disse que as pessoas precisam de carne para sobreviver? 
       Roberto Carlos que me desculpe, mas se a Friboi me convidasse para fazer um comercial, acredito que embolsaria um vultoso cachê sem trair minhas convicções alimentares vegetarianas. Quando a câmara me focasse próximo ao pedaço de carne, ao lado estaria este prato, e aí eu diria:
 “Hum... Esta carne deve está uma delícia, afinal é Friboi, mas eu vou preferir meu abacaxi com farinha de mandioca." 
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- Daslan Melo Lima, Timbaúba, PE, 24/03/2014.


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NAS RETAS E CURVAS DA CAMINHADA


      Na ensolarada manhã pernambucana, os pés de eucalipto levam meus pensamentos para as margens do Rio Canhoto, na São José da Laje de um tempo que se foi. Nas imediações do Ginásio São José, o aroma dos pés de eucalipto, perto da Ponte do Limão, perfumavam meus sonhos de menino alagoano.  

O destino quis que o eucalipto nascesse na região da banana,
entre os municípios de São Vicente Férrer e Macaparana,
mas ele gostaria de ter nascido simples coqueiro à beira mar.
Por isso o vento ofertou curvas, altura e perfume para sua vida abençoar.


       No ensolarado domingo pernambucano, as curvas de um pé de eucalipto dirigem meus pensamentos para DEUS, a quem agradeço pela sabedoria acumulada nas retas e curvas da caminhada.
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Daslan Melo Lima,  em 09/03/2014, no Haras JF, do meu amigo Joaquim Francisco de Morais Andrade Filho, em São Vicente Férrer, PE, a quem dedico esta crônica, estensivo a Rute Brandão Morais AndradeAdriana Brandão Morais Cavalcanti e Elizabeth Muniz Falcão.

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AQUELA MARIA

 Daslan Melo Lima

                   Festa no Morro da Conceição, no bairro de Casa Amarela, Recife. Festa no bairro de Mocós, em Timbaúba. Dia de Oxum, orixá feminina das religiões afro-brasileiras.  Estas celebrações levam minh’alma aos versos de Flor D’Água, uma linda música gravada há anos pela Banda de Pau e Corda


 “Maria tomando banho / nas águas claras do rio. / Seu corpo jovem moreno / não sente o rigor do frio. 

///  
Boiando a flor d'água vai / embalando os sonhos seus / e eu olhando alimentando / os sonhos que são bem meus.  ///    Hei de casar com Maria / na Festa da Padroeira, / deixar morrendo de inveja / as moças namoradeiras.  ///  Já vejo o corpo moreno / de rendas brancas vestido / e botões de laranjeira / pondo o cabelo florido.  /// Maria, minha Maria, / vou dar-te tudo que tenho, / meus canaviais tão lindos, / minha senhora de engenho. ///  Hei de casar com Maria / na Festa da Padroeira, / deixar morrendo de inveja / as moças namoradeiras.” 



   Estava escrito que não tinha que ser. O destino sepultou rendas brancas,  botões de laranjeiras e fantasias. Não casei com aquela Maria na Festa da Padroeira, mas ganhei a simpatia dos sonhos seus. Estava escrito que não tinha que ser e não deixei morrendo de inveja as moças namoradeiras, mas ganhei a fidelidade dos sonhos meus.

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Timbaúba-PE, no oitavo dia do último mês de dezembro de 2012.


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É DEZEMBRO OUTRA VEZ


Daslan Melo Lima





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          Muitas vezes, tenho a impressão de que os movimentos de rotação e translação do nosso Planeta Terra estão muito rápidos. O que fazer diante dos mistérios da vida e da morte? Ter fé em DEUS, relaxar e dar a nossa parcela de contribuição para construir um mundo melhor.   
      Durante a maior parte do ano, meu pé de acácias amarelas se comporta com a maior discrição. Mas quando chega esta época, ele se desnuda sem pudor. Livra-se das folhas secas que até pouco tempo eram verdes e se veste generosamente de ouro. 
         Quantas lições a minha árvore de ouro ensina? Inúmeras. É com ela que minh'alma dissipa a ansiedade ao relembrar o Eclesiastes: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou... Tempo de chorar, e tempo de sorrir; tempo de prantear, e tempo de dançar...” 
           É dezembro outra vez. Assim Seja!
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Timbaúba-PE, 1º/12/2012
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DEIXANDO QUE SURJA O DIA

Daslan Melo Lima

          Seria amor, paixão, atração? Não! Definitivamente,não!   Imaturidade, fuga, ilusão? Sim! Definitivamente, sim! Apenas o Eu verdadeiro adormecido não se dava conta de que o espelho refletia uma fantasia. Foi quando registrei num caderno os meus sentimentos, codificados, misteriosos, nebulosos.  Foi quando escrevi um poema chamado “Verdade”.

Há uma palavra que falta ser dita / Há um sorriso que falta ser expressado /  Ainda se faz noite / Deixemos que surja o dia. /// Quando surgir o dia / e o sorriso for expressado / talvez o sol se esconda / e continue a chover. /// Por hoje há só noite / deixemos que surja o dia.

    Depois de muito silêncio, a palavra foi dita. Depois de muitas lágrimas, o sorriso foi expressado. O dia surgiu. O sol apareceu. 


    De vez em  quando, o Daslan de um tempo que se foi enfrenta um vendaval composto de amor, paixão, atração, imaturidade, fuga e ilusão. Como estou mais sábio, fico silenciosamente comigo, apenas comigo, tal como nesta noite, aguardando a calmaria, deixando que surja o dia.

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Timbaúba-PE, na última noite de novembro de 2012.


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AQUELA AJUDA DISCRETA, AQUELA RESERVA DE AMOR



          A empresária Solange Barros, natural de Limoeiro-PE, e radicada há anos em Timbaúba, construiu ao lado do esposo Flávio uma linda e sólida família a quem DEUS presenteou com três frutos: CássioVictor e Mirella. ***** A capa de PASSARELA CULTURAL desta semana rende tributo ao amor e à cumplicidade existente entre as mães e as filhas através da imagem de Solange e Mirella e de “Minha Filha”, poema de Ivone Boechat

Tanta ternura / guardada, acumulada, / na alegria, / na dor, / 24 horas e sempre / para o amor. / Uma filha é assim: / certeza de amparo, / de socorro, / de favor, / silenciosamente confiável. / Filha é aquele ombro amigo, / aquela ajuda discreta, aquela reserva de amor.”  

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Timbaúba-PE, 17/11/2012.

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"SEMPRE IMAGINEI QUE O PARAÍSO FOSSE UMA ESPÉCIE DE LIVROS"


Daslan Melo Lima




          "Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livros", disse um dia Jorge Luiz Borges (1899-1986), poeta e escritor argentino. 
       O espaço generoso da Livraria Cultura no Shopping RioMar é um paraíso. Nada mais emblemático do que a imensa escultura de madeira pendurada no teto, representando um dinossauro. 
       Em PASSARELA CULTURAL, como sempre, falo de sentimentos, cultura, beleza... Ouso dizer que este blog é uma revista on-line semanal, quase um livro virtual. E se ao visitá-lo você se sente bem, talvez eu esteja semeando por aqui um pouco do paraíso. 

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Timbaúba-PE, 17/11/2012

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ESSE CARA É ELE

Daslan Melo Lima
        
      Se a história da minha vida fosse transformada em filme ou novela, a maioria das canções gravadas por Roberto Carlos ocuparia a maior parte da trilha sonora. Desde a minha adolescência que as músicas cantadas por ele, tanto as de sua autoria em parceria com Erasmo Carlos, como as compostas por outros autores, vem marcando muitas fases da minha caminhada.
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      Quando as primeiras paixões platônicas começaram a me banhar de ilusão, os rádios tocavam "Meu Grande Bem". "Quem ouvir esta canção, / com certeza vai pensar,/ que eu tenho um coração / guardadinho pra rifar. /  Tenho quase um harém / e a todas quero amar,/  pode ser você, meu grande  bem. / Gosto do A. / Gosto do C. /  Gosto do M e do L também. / Se seu nome aqui está, / não espere venha já, / pode ser você meu grande bem."
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      Quando crises de desamor feriram minh’alma, senti-me confortado com “Detalhes”. "Não adianta nem tentar me esquecer / Durante muito tempo em sua vida eu vou viver./ Detalhes tão pequenos de nós dois / são coisas muito grande pra esquecer / e a toda hora vão estar presentes você vai ver." 
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     Em várias situações, não rezei, cantei “A Montanha”. "Eu vou seguir uma luz no lá no alto, / eu vou ouvir uma voz que me chama, /  eu vou subir a montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar.../ Por mais que eu sofra, obrigado, Senhor, mesmo que eu chore. / Obrigado,Senhor, por eu saber / que tudo isso me mostra o caminho que leva a Você..."
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       E eis que agora, a música mais tocada em todo o Brasil, "Esse cara sou eu", diz  o que eu tantas vezes gostaria de ter dito a certo alguém : "O cara que pensa em você toda hora / Que conta os segundos se você demora / Que está todo o tempo querendo te ver... /  Esse cara sou eu / O cara que ama você do seu jeito... / Te fala outras coisas... / O cara que sempre te espera sorrindo.../ Esse cara sou eu...”
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    Se a história da minha geração fosse transformada em filme ou novela,  a maioria das canções gravadas por ele, pelo "cara" Roberto Carlos, ocuparia a maior parte da trilha sonora. 
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Timbaúba-PE, 17/11/2012
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CHEIRO DE EMOÇÕES INACABADAS


Daslan Melo Lima

     Uma chuva abençoada caiu sobre Timbaúba na quinta-feira. Um cheiro gostoso de terra molhada se espalhou de norte a sul, de Mocós à Timbaubinha. Uma bênção para exorcizar o calor insuportável que estava fazendo. Parecia um sonho! Fui ao Facebook e compartilhei com meus amigos a minha satisfação. Vários responderam dizendo que adoravam cheiro de terra molhada, enquanto dois comentários de duas amigas calaram  fundo na minh’alma.
     Isabel Tereza disse: “Cheiro de infância, a terra molhada... Lembro de tomar banho nas bicas da rua inteira, pisar com força nas poças d'agua, abrir a boca para engolir  os pingos, e pedindo ao céu para  a chuvinha não afinar. Depois ouvia a voz pesada da minha mãe: - Pra dentro que se demorar mais vai adoecer!” Lucimere Andrade disse: “Adoro a chuva! Me lembra a infância. Aproveitava para fazer barquinho de papel e vê-lo ir embora.”
     Sei bem o que são esses sentimentos que a chuva evoca. Quando chove, o menino que eu fui se permite ficar sob a chuva, engolir pingos d'água e pisar com força nas poças. Mas uma coisa machuca meu coração e minhas lágrimas se confundem com a chuva. Não ouço mais minha mãe gritando: "Pra dentro, agora! Você vai adoecer!"
     Embora não soubesse fazer barquinhos de papel, pedia um deles a um colega e soltava na correnteza que se formava no meio-fio da calçada. Ainda sei na ponta da língua, um soneto do poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), decorado na adolescência: 
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Quando a chuva cessava e um vento fino / franzia a tarde tímida e lavada, / eu saía a brincar, pela calçada, / nos meus tempos felizes de menino. 
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Fazia, de papel, toda uma armada; / e, estendendo meu braço pequenino, / eu soltava os barquinhos, sem destino, / ao longo das sarjetas, na enxurrada... 
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Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles, / que não são barcos de ouro os meus ideais: /são feitos de papel, são como aqueles, 
/// 
perfeitamente, exatamente iguais... / - Que os meus barquinhos, lá se foram eles! / Foram-se embora e não voltaram mais!
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           Cheiro de chuva, cheiro de terra molhada, cheiro de emoções inacabadas.
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Timbaúba-PE, 10/11/2012.

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LICENÇA PARA SONHAR


Daslan Melo Lima

        Eu nunca fui uma pessoa prática, objetiva, dotada de raciocínio rápido. Sempre necessitei ter mais um pouco de tempo para me situar diante de algumas circunstâncias. Sei que a vida em muitas ocasiões requer que sejamos rápidos, mas durante minha caminhada vi muita gente se dar mal exatamente por não ter se permitido parar e refletir melhor antes de agir.
     Relendo Fernando Pessoa (1888-1935), poeta e ensaísta português, mergulhei neste texto: “A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que é o homem de ação.”    
      No passado, em alguns momentos de minha vida profissional, fui penalizado por agir menos e sonhar mais. Mas lá na frente, graças a DEUS, eu fui  premiado exatamente por ter sonhado mais e agido menos. E agora, com licença, sou um homem de ação, vou sonhar. 

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Timbaúba-PE, 10/11/ 

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EU E A LUA 

Daslan Melo Lima


             Apaixonei-me em criança por ela, a Lua, linda, majestosa, enfeitando o céu de São José da Laje e iluminando de prata as pedras cinzas do Rio Canhoto. No meu tempo de menino, a energia elétrica era precária no interior de Alagoas. As lâmpadas pareciam duas brasas prestes a se apagar. Sem televisão, sem internet, sem computador, tudo em volta era um convite para o recolhimento, conversas nas calçadas, adultos contando histórias de trancoso, pessoas lendo folhetos de cordel sob a luz de candeeiros, crianças brincando de roda...

       Nas noites enluaradas, a Lua era a deusa das ruas e levava meu coração e minh’alma para um território imaginário de mágicas ilusões onde todos os meus sonhos aconteciam.


      Na quinta-feira, 25, quando do apagão que atingiu o norte e nordeste, fui para o quintal da minha casa conversar com a Lua, enquanto lá fora um silêncio amigo, sábio, conveniente e oportuno inundava a rua.

     Por alguns minutos, enquanto fotografava minha paixão antiga, tive a impressão de ouvir o vento repreender o menino que um dia eu fui por nunca mais ter dado atenção à Lua.

   Aprendi uma lição com o apagão. Ele me ensinou que a Lua não mudou nada. Ela continua à minha disposição para levar meu coração e minh’alma para um território imaginário de mágicas ilusões onde ainda há espaço para todos os meus sonhos.

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Timbaúba-PE, 27/10/2012



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UM SÁBADO PARA RECORDAR

Daslan Melo Lima      

      Durante a versão timbaubense da festa "Um Sábado em Timbaúba", promovida por Rogério Falcão, na AABB, no dia 29/09/2012, fui homenageado com uma placa com os seguintes dizeres: “Daslan – Fundador do blog PASSARELA CULTURAL que enaltece o nome de Timbaúba e do Grupo Matutos de Timbaúba divulgando todos os eventos sociais e culturais para o Brasil e exterior - Nossa eterna gratidão! – Timbaúba, 29/09/2012 - Rogério Falcão e Grupo Matutos de Timbaúba.” 

      Na foto ao lado, o Sr. Enicênio, representante do Grupo Matutos de Timbaúba dos Mocós,  posa ao meu lado com a placa que me foi concedida. Sensibilizado com a distinção, pronunciei as seguintes palavras:

       Sou grato a DEUS pelas circunstâncias da minha caminhada que me conduziram até aqui, pelos momentos doces, amargos e agridoces, pois a vida é feita da mistura de tudo isso. Cheguei a Timbaúba em 1985 para trabalhar no BNB, Banco do Nordeste do Brasil, e fui ficando. Meu coração está dividido entre duas princesas, a pernambucana Timbaúba, Princesa Serrana, e a alagoana São José da Laje, Princesa das Fronteiras.
      Há uma relação mística e mágica entre a minha pernambucana terra adotiva e a minha alagoana terra natal. O maior benfeitor de São José da Laje foi o timbaubense Cel. Carlos Lyra, que migrou para Alagoas no início do século passado e lá, na cidade onde nasci, entre outras obras, fundou a Usina Serra Grande e construiu a Igreja Matriz, um dos mais belos templos católicos do Brasil. Em São José da Laje repousam os restos mortais do poeta timbaubense João Pinheiro de Andrade Lyra, neto de Carlos Lyra e sobrinho-neto do jornalista Jader de Andrade, o maior ícone cultural timbaubense.   Há uma semelhança entre as topografias de ambas as cidades. Lá, o Rio Canhoto e os morros. Aqui, o Rio Capibaribe-Mirim e os altos.
      Muito grato ao Rogério Falcão e ao Grupo Matutos de Timbaúba por esta homenagem. Muito obrigado a todos aqui presentes. Guardarei esta placa no meu coração e no arquivo azul das coisas que me são caras.  Divido esta honraria com as pedras do Rio Canhoto de São José da Laje, ouvintes silenciosas das minhas primeiras mágoas, cúmplices dos meus primeiros versos, berço da minha poesia e das minhas crônicas. Também divido esta honraria com todas as pessoas que dão a sua parcela de contribuição para a construção de um mundo melhor, e com o vento que nesta noite fria sopra entre os altos de Timbaúba dos Mocós, Princesa Serrana de todos nós.

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VENTO, ÁGUA E SILÊNCIO

Daslan Melo Lima

             Cecília Meireles disse um dia: "Um poeta é sempre irmão do vento e da água: deixa seu ritmo por onde passa".
        Eu acrescentaria o silêncio na citação de Cecília Meireles. Dessa forma, a frase ficaria assim: "Um poeta é sempre irmão do vento,  da água e do silêncio: deixa seu ritmo por onde passa."
         Eu tenho três irmãos fantásticos: o vento, a água e o silêncio. O vento  é símbolo do poder divino, criador e vivificador, e   lembra o caráter efêmero e frágil da minha condição humana. A água está sempre associada ao nascimento e renascimento. Quanto ao  silêncio, ele  existia antes da  Criação e sobreviverá ao fim dos tempos.
         Como eu adoraria poder me alimentar apenas nestas três fontes: vento, água e silêncio. Como eu adoraria compartilhar com todos os meus companheiros de caminhada, passageiros desta estação Planeta Terra, estas três fontes que nesta madrugada me alimentam: vento, água e silêncio.
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Timbaúba-PE, na madrugada do penúltimo domingo de outubro de 2012.


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MINHA CANÇÃO DE OUTUBRO


Daslan Melo Lima

          Aqui estou para louvar o décimo mês do ano, um mês muito especial para mim, pois foi na tarde de um 17 de outubro que nasci. Durante muito tempo, a minha relação com outubro foi marcada por conflitos. Envolvido com os mistérios da vida e da morte e com mil perguntas sem respostas, eu não via sentido celebrar aniversário.  Mudei com o tempo, graças a DEUS, para surpresa, alegria e felicidade do menino introspectivo que sempre fui. 
           E porque é outubro, volto a cantar a canção que fiz em parceria com alguns anjos invisíveis, o silêncio e o vento.  
  
MINHA CANÇÃO DE OUTUBRO

Daslan Melo Lima
  
Seja bem-vindo, meu amado mês de outubro.
Pode contar meus desamores e desilusões.
Com o silêncio e o vento, aprendi a lhe amar,
mesmo com a  ausência de amores e ilusões.

Seja bem-vindo, meu amado mês de outubro.
Foi com você que vim cunprir uma jornada.
Atravessei tempestades, sonhos e pesadelos,
até amadurecer com as lições da caminhada.

Seja bem-vindo, meu amado mês de outubro.
Há fé em minhas mãos de esperança.
Ajuda-me a espalhar sabedoria ao nosso redor,
até que o abismo seja diluído em lembrança.

Seja bem-vindo, meu amado mês de outubro.
Por um mundo melhor colabora o meu coração.
 E Deus colocou este sorriso no meu rosto
para com  harmonia cantar esta canção.


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Timbaúba-PE, 13/10/2012

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DIA E NOITE, NOITE E DIA

Daslan Melo Lima


    Se uma vida a dois fosse só poesia, era comigo que tu estarias, dia e noite, noite e dia.

    Quando fossemos acordados pela manhã ensolarada, em parceria com os raios de sol comporíamos uma canção. Quando fossemos surpreendidos pela noite chuvosa, em parceria com os pingos da chuva comporíamos uma oração.
    Se uma vida a dois fosse só poesia, era comigo que tu estarias, dia e noite, noite e dia.

    E quando chegasse o natal, a criança que existe em mim dançaria pastoril com a criança que existe em ti. E quando chegasse o carnaval, a extroversão adormecida em mim dançaria  frevo com a extroversão que habita em ti.
    Se uma vida a dois fosse só poesia, era comigo que tu estarias, dia e noite,  noite e dia.

    De outra realidade, todavia, é feita a minha vida, a  tua vida, as manhãs,  as noites, o natal e o carnaval. E cada um em sua caminhada tem de administrar a fantasia.
    Se uma vida a dois fosse só poesia, eu e tu juntos estaríamos, dia e noite, noite e dia.

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Timbaúba-PE, 29/09/2012


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VOANDO NOS BARCOS

Daslan Melo Lima

      Um amigo compartilhou em minha página no Facebook uma imagem nostálgica que me levou a um tempo mágico onde minha imaginação tinha mais asas do que hoje. Trata-se de uma foto com aqueles brinquedos que na minha infância alagoana o pessoal chamava “barcos”.


     Eu ficava observando os garotos e garotas se divertindo e admirava a coragem de quem tinha coragem de nos "barcos" entrar e praticamente voar. Tentei uma vez disfarçar meu medo, mas não houve jeito. Em um deles sentei, mas logo me levantei.
     Há uma pendência emocional em minha vida. Nunca fui um daqueles meninos que nos "barcos" voava. Tento me conformar por imaginar que nenhum deles chegava ao ponto em que eu chegava na minha fantasia de criança. Mesmo sem voar nos barcos, eu atingia as estrelas, eles não.
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Timbaúba-PE, 21/09/2012.


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EM NOME DAQUELE RETIRO E DAQUELE CARNAVAL DE 1943

Daslan Melo Lima
          Um dos meus programas culturais preferidos é visitar os “sebos” do centro do Recife,  onde encontro ótimos livros antigos. Sempre compro algum, às vezes vários, quase sempre livros dos quais nunca ou pouco ouvi falar, mas que têm muito a me ensinar. Adoro quando encontro entre suas páginas anotações dos seus antigos donos que me provocam muitas indagações e inspirações.   
       Comprei ontem o livro À Procura do Senhor, de Ludovic Giraud, edição de 1953 da Livraria Agir Editora, onde encontrei uma foto de Santa Teresinha do Menino Jesus em cujo verso, imagem à esquerda,  estava impresso: 

"Quem quiser ser amigo do mundo constitue-se inimigo de Deus " Tg. 4,4. _____ LEMBRANÇA do retiro e Páschoa das Moças no carnaval de 1943, pregado pelo Pe, José Pereira Neto, no colégio Nossa Senhora do Carmo, paróquia de Nova Cruz.  ____  “Espírito Divino, regai o que em mim é árido, curai o que é enfermo”

      Fecho os olhos e fico a imaginar quem seriam aquelas moças católicas que preferiram um retiro ao carnaval. Vou ao Google pesquisar sobre a folia de um ano em que eu ainda não tinha nascido e descubro a poesia de Hermes Fontes (1888-1930). A adaptação do seu poema Luar de Paquetá, com música de Freire Junior (1881-1956), gravado em ritmo de marcha-rancho, foi o grande sucesso do carnaval de 1943, nas vozes de Dircinha Batista (1922-1999) e Deo (1914-1971), imagem à direita. O poema é este:
Nestas noites olorosas / Quando o mar, desfeito em rosas, / Se desfolha à lua cheia / Lembra a ilha um ninho oculto / Onde o amor celebra em culto / Todo encanto que o rodeia / Nos canteiros ondulantes / As nereidas incessantes / Abrem lírios ao luar / A água em prece borborinha / E em redor da capelinha / vai rezando o verbo amar. /////  
Jardim de afetos / Pombal de amores / Humildes tetos / De pescadores / Se a lua brilha /  Que bem nos dá / Amar na ilha / de Paquetá /////  
Pensamento de quem ama, / Hóstia azul, fervendo em chama,/ Entre lábios separados.../ Pensamento de quem ama / Leva o meu radiograma / Ao jardim dos namorados / Onde é esse paraíso / O caminho que idealizo / Na ascensão para esse altar / Paquetá é um céu profundo / Que começa neste mundo / Mas não sabe onde acabar... ///// 
Sobre o mar de azul rendado, / Que é toalha de um noivado / Surge a ilha - taça erguida. / E o luar - vinho dourado / Enche a taça do passado / Que embriaga a nossa vida! / Ai, que filtro milagroso, / Para a mágoa e para o gozo / Para a eterna inspiração! / O luar, na mocidade, / Abre as rosas da saudade / Dentro em nosso coração.
       Diante da poesia de Hermes Fontes, eu fico a perguntar: Será que aquelas moças não poderiam conciliar o retiro, a fé e a religião com o carnaval?  Parece que ouço vozes invisíveis ao meu lado dizendo que Sim. Acessamos  o Yotubbe , http://www.youtube.com/watch?v=5tiL6e3g9SY . Uma doce e mística nostalgia se derrama na tarde timbaubense, e em nome daquele retiro e daquele carnaval de 1943 cantamos juntos Luar de Paquetá.
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Timbaúba-PE, 15/09/2012.
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JOÃO E MARIA, 
O QUE É QUE A VIDA VAI FAZER DE MIM?

Daslan Melo Lima
      Preciso trazer mais para perto de mim a criança que um dia eu fui, a fim de entender melhor a sutileza de certas coisas lindas, tais como a valsa “João e Maria”, de Sivuca (1930-2006) e Chico Buarque de Holanda.
Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês
      Nas sessões da tarde do único cinema da cidade onde nasci, os cowboys americanos pareciam voar em cima dos seus cavalos.Eu ficava tão concentrado que de repente quase que eu não era eu, era Rocky LaneRoy RogersRex Allen...   
Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz
E pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar e era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
      Não havia televisão. A iluminação pública era muito fraca e as lâmpadas nos postes pareciam duas brasas prestes a se apagar. Todos dormiam mais cedo e a felicidade parecia ser uma coisa não muito distante.
Não, não fuja não, finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
     As crianças brincavam de roda e a maldade era coisa para quem já tinha 18 anos de idade e podia  assistir aos filmes de Brigitte Bardot.  
Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
      Trago sempre para perto de mim o menino alagoano de São José da Laje que um dia eu fui, a fim de exercitar a humildade na minha caminhada. É ele que faz o vento semear fé e esperança em minh'alma quando o homem que sou ainda pergunta: O que é que a vida vai fazer de mim?
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Timbaúba-PE, 08/09/2012
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Uma das melhores interpretações de "João e Maria" é a de Glória Pires e Lauro Corona (19571989), exibida no Fantástico, na TV Globo, em 1978, na época em que os dois atores faziam sucesso como par romântico na novela Dancin Days, de Gilberto Braga. Vale a pena conferir, http://www.youtube.com/watch?v=3rgzivEjPZU&feature=related

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TODOS OS SÁBADOS DE PRESENTE 

Daslan Melo Lima

      Foi numa manhã de sábado como esta que me dei alta de cinco anos de terapia. Quando algo em minh’alma, mais forte do que o meu coração, entendeu que eu estava pronto para caminhar convivendo com os mistérios da vida e da morte, senti-me maduro para administrar minhas ilusões e desilusões, meus sonhos e pesadelos... No início da sessão, quando o terapeuta perguntou-me como eu estava , dei minha resposta  em forma de poesia:

Estou emergindo de intensos conflitos em meu coração. Nos mergulhos intensos eu me despedacei. Pedaços juntei, desencantei, encantei. Agora eu quero urgente todos os sábados de presente. Que venham com contrastes, trazendo amores e desamores. Corpo e alma libertos estarão abertos para beijar os amores, para entender os desamores. Vou me dar urgente todos os sábados (e todos os dias) de presente.

       Depois de tantos sábados que já me dei de presente, o menino que um dia eu fui às vezes sente-se frágil diante de fantasmas que tentam povoar os meus dias. Mas quando isso acontece, fecho os olhos, respiro fundo, ouço o silêncio e ao lado do vento aplaudo a harmonia que hoje existe entre os meus anjos e os meus demônios. 
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Timbaúba-PE, 1º/09/2012.


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A GALERIA DO AMOR

Daslan Melo Lima
      Outro dia, um amigo muito querido postou na sua página no Facebook um vídeo do Youtube onde Agnaldo Timóteo canta A Galeria do Amor, uma das minhas canções românticas preferidas, composta pelo próprio Agnaldo, inspirada num passeio que o cantor fez há alguns anos pela Galeria Alaska, famoso ponto de encontro carioca de garotos e garotas de programa. As palavras carência, amor, paixão, sexo, atração, solidão, amor, desamor, ilusão e desilusão caminham juntas. Elas se entrelaçam e cada uma tem o seu impacto emocional. Pelo drama que a letra da música do Agnaldo Timóteo expõe,  talvez o título mais  adequado para ela fosse  Galeria das Ilusões, porque Amor, na verdadeira acepção da palavra, é outra coisa.
Numa noite de insônia saí / procurando emoções diferentes. / E depois de algum tempo parei, / curioso por certo ambiente. / Onde muitos tentavam encontrar / o amor numa troca de olhar./// 
Na galeria do amor é assim, / muita gente a procura de gente. / A galeria do amor é assim, / um lugar de emoções diferentes, / onde gente que é gente se entende, / onde pode se amar livremente. /// 
Numa noite de insônia saí / e encontrei o lugar que buscava. / A galeria do amor me acolheu, / bem melhor do eu mesmo esperava. / Hoje eu tenho pra onde fugir / quando a insônia se apossa de mim. /// 
Na galeria do amor é assim, / muita gente a procura de gente. / A galeria do amor é assim, / um lugar de emoções diferentes,/ onde gente que é gente se entende. / onde pode se amar livremente. / Onde gente que é gente se entende. / Onde pode se amar livremente.


   Galeria do Amor ou das ilusões, pouco importa, pois considero essa música do Agnaldo Timóteo um grito diante da solidão, da carência, do desamor...  “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, diz um trecho da música Dom de Iludir, do Caetano Veloso. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o qué é”, repetem comigo o silêncio, o vento, o frio e a chuva deste último sábado de agosto de 2012. 
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Para conferir um vídeo do Agnaldo Timóteo cantando A Galeria do Amor, clique http://www.youtube.com/watch?v=zsQdH4JA37M&feature=related

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JEAN BOGHICI E O GATO QUE MORREU

Daslan Melo Lima

      Na segunda-feira, 13, em torno das 18 horas, um incêndio no apartamento de Jean Boghici, 84 anos, romeno radicado no Brasil desde 1949, um dos maiores  colecionadores de arte do país, destruiu parte do acervo do seu apartamento no Rio de Janeiro,  Ele sofreu uma perda incalculável, impossível de avaliar em termos financeiros, quando  pinturas  valiosíssimas como Samba, de Di Cavalcanti, e Floresta Tropical, de Guignard, viraram cinzas.
      Ao tomar conhecimento da fatalidade, Jean Boghici  surpreendeu a todos ao dizer repetidas vezes, e com a voz embargada, que a maior perda não foi os quadros  valiosos de sua coleção, mas a morte da sua gata Pretinha, que morreu atingida pelas chamas. Ele disse chorando: "Estou muito chateado, mas não é por causa do quadro não. É por causa do meu gato, que morreu. Ficava ao lado da minha cama; isso é o que me dói. Não quero saber de quadro, meu gato morreu". Depois, demonstrando uma força fantástica diante da adversidade, disse que ia se vingar do acidente fazendo uma bela exposição: "Queimou, qual o problema? Vai ficar tudo bom de novo. Já tive esse problema na década de 1970, perdi vários quadros e fiquei doente praticamente. Na época, fiz uma bela exposição e foi uma vingança contra o destino. Vamos fazer exposição muito bonita para me vingar."
    Neste agosto, o mês que, infelizmente rima com desgosto, devido à fama que  tem de azarado, vai ficar o exemplo de humildade, humanidade e despojamento de Jean Boghici. Vai ficar o seu exemplo de resignação e otimismo.Vai ficar a sua declaração emocionante: "Estou muito chateado, mas não é por causa do quadro não. É por causa do meu gato, que morreu. Ficava ao lado da minha cama; isso é o que me dói. Não quero saber de quadro, meu gato morreu".

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QUANDO SETEMBRO VIER

Daslan Melo Lima

          
      Robert Tablot, proprietário de uma luxuosa vila italiana, passa o ano todo fora do país e só retorna nos meses de setembro. Quando ele aparece de surpresa, em pleno mês de julho, fica surpreendido com uma série de situações inusitadas. Lisa, sua namorada, cansada de esperar por ele, está de casamento marcado com outro. Enquanto isso, o administrador da sua propriedade alugou o imóvel para hospedar um grupo de garotas americanas, entre elas  Sandy , adolescente sonhadora paquerada por Tony.  Eis aí o fio condutor de “Quando Setembro Vier” (Come September), de Roberto Mulligan (1925-2008), deliciosa comédia romântica dos anos 60 protagonizada por quatro ídolos inesquecíveis da minha geração, Bobby Darin (1936-1973), Gina Lollobrigida, Rock Hudson (1925-1985)  e Sandra Dee (1942-2005). 
              
      Gosto da sonoridade do nome do nono mês do ano, se-tem-bro. O vento e o silêncio são testemunhas de que  sou vítima de um mal incurável, progressivo e irreversível: sofro de romantismo. Adoro rever “Quando Setembro Vier”, antes de setembro chegar. Revejo meus ídolos, lindos e cheios de vida, crio coragem e “viajo” com eles de lambreta através de lindas paisagens italianas.  Sou um dos amigos de Bobby Darin e danço com a turma quando ele canta “Multiplication” (vide http://www.youtube.com/watch?v=YwRKzIXdVLc&feature=related). Por pouco não saio do corpo para ficar no filme, para sempre, mas o tempo e a realidade me chamam. Preciso estar com minhas emoções sob controle, quando setembro vier.   
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Timbaúba-PE, 11 de agosto de 2012, faltando dois sábados para setembro chegar.


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É AGOSTO OUTRA VEZ


Daslan Melo Lima

      Fatalidades e tragédias acontecem em qualquer mês do ano, mas é  Agosto que leva a fama de azarado. Diz uma lenda que no oitavo mês do ano um dragão imenso passava pelo céu cuspindo fogo assustando as pessoas. Quanto ao fato deste mês ser conhecido como “o mês do cachorro louco”, o que acontece é que as cadelas entram no cio duas vezes por ano, uma delas em Agosto, quando os machos ficam enlouquecidos na disputa da atenção das fêmeas. Os cães brigam entre eles e o contato favorece a disseminação do vírus da raiva, doença infecciosa transmitida pela saliva do animal.
    Porque é Agosto, em Timbaúba reina um friozinho gostoso e ventos generosos contornam os morros fazendo a festa da garotada que solta pipas. É uma pena que Agosto seja um nome que, infelizmente, rima com desgosto.
       Porque sou um homem de muita fé em DEUS, não tenho receio algum de Agosto. Sereno e otimista, visto um casaco de frio na tarde que morre (e na noite que nasce) e saio para minha caminhada com meu cachorro cantarolando em silêncio uma velha canção gravada por Fernando Mendes.
Não adianta um pé de coelho no bolso traseiro, / nem mesmo a tal ferradura suspensa atrás da porta, / ou um astral bem maior que o da noite passada, / pois toda sorte tem quem acredita nela. ///// Não é preciso dizer que dará recompensa. / Não faça isso há muitos que gostam de criticar. / Esperam a sorte sentados sem sair do lugar, / mas toda sorte tem quem acredita nela. ///// Não adianta ir à igreja rezar e fazer tudo errado. / Você quer a frente das coisas olhando de lado. / O céu que te cobre não cobra a luz da manhã. / Desperte pra vida, acredite, a sorte é irmã.
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Timbaúba-PE, na tarde do terceiro dia de agosto de 2012.

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A POMBA E O CLIQUE 

Daslan Melo Lima

  A pomba branca simboliza paz entre as nações. Quando ela trouxe para Noé o ramo de oliveira após o dilúvio, aquele gesto simbolizou a paz entre Deus e os homens. A ave também é um dos símbolos do Espírito Santo, sob a ótica da interpretação bíblica. E foi uma pomba branca que deixou muita gente emocionada ao pousar sobre o caixão do cardeal Dom Eugenio Sales, no dia 10 deste mês, durante o velório do estimado religioso, realizado na Catedral Metropolitana de São Sebastião, no Rio de Janeiro. Os meios de comunicação mostraram cenas inesquecíveis envolvendo o velório e a pomba.
       A ideia de soltar a ave para homenagear Dom Eugenio Sales partiu de Gilberto de Almeida, assessor da presidência da Cruz Vermelha do Rio de Janeiro. A pomba, que  não recebeu nenhum tipo de treinamento,  após sobrevoar ligeiramente pelo local, posou sobre o caixão de dom Eugênio e lá ficou a maior parte do tempo até alçar voo e não mais ser vista por ninguém.
        Muita gente entendeu que a cena foi um sinal de DEUS. Sobre isso, eu não tenho dúvida alguma. Não basta um clique para você entrar na Internet e ter em segundos um mundo fantástico de informações? Basta um clique sutil do Arquiteto do Universo para que uma simples pomba branca se torne o centro das atenções, levando as pessoas a fazerem uma pausa para refletir sobre os mistérios da vida e da morte, tal como agora estou fazendo.
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Timbaúba-PE, no último sábado de julho de 2012.
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SANTO ANJO DO SENHOR, MEU ZELOSO E GUARDADOR

Daslan Melo Lima

      Quando criança, depois do Sinal da Cruz e do Pai Nosso, a terceira oração que minha mãe me ensinou foi a do Anjo da Guarda 
Santo Anjo do Senhor, meu zeloso e guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege e guarde, governe e ilumine. Amém.
       Cresci acreditando que um anjo seguia todos os meus passos e caso eu fizesse alguma coisa que desagradasse a Deus o anjo se afastaria de mim. Em muitas ocasiões, tive a nítida impressão de estar sendo seguido por um anjo o tempo todo. Cresci e  deixei de rezar para ele, mas há uns 15 anos mais ou menos, fiz as pazes com o meu Anjo da Guarda.
      Não tenho problema nenhum de assumir que acredito em anjos, principalmente no Anjo da Guarda. Os anjos nos quais acredito não possuem asas e se expressam através dos atos bons e das atitudes positivas das pessoas que o destino coloca em nossos caminhos e  que acabam marcando as nossas vidas para sempre. Anjos são pessoas que ouvem nossas mágoas, dão  conselhos, levantam a nossa auto-estima, etc.
      Outrora, no meu tempo de criança, eu rezava a oração do Anjo da Guarda pela manhã e à noite. Hoje, o menino que um dia eu fui, não escolhe hora para rezar. A qualquer momento, como agora, em silêncio, eu me permito rezar.  Vamos rezar comigo? 
Santo Anjo do Senhor, meu zeloso e guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege e guarde, governe e ilumine. Amém.
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Timbaúba-PE, 28/07/2012

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MINHA PAIXÃO RUBRO-NEGRA

Daslan Melo Lima   

      Paixões são paixões, não se explicam. Entre as minhas paixões, por ordem alfabética, estão: antiguidades, fotografias, misses e poesia. Mas tem uma que aparece pouco em minha biografia: o Sport Club do Recife. Pouquíssimas vezes fui a um estádio assistir uma partida de futebol, mas no domingo, 08, lá fui eu para a Ilha do Retiro, vestido numa camisa rubro-negra. 
      O jogo começou às 18h30min, mas às 17 horas eu já estava nas arquibancadas. Diante de centenas de pessoas vestidas com blusas rubro-negras, senti a sensação de que minha alma tinha se multiplicado. Sensação gostosa de me sentir parte de uma multidão que tinha um mesmo objetivo naquela noite dominical:  ver o Sport Club do Recife golear o Corinthians, que na quarta-feira anterior, 05, tinha vencido o Boca Juniors e se sagrado campeão da Taça Libertadores da América.  
     A partida do Sport X Corinthians, válida para o Campeonato Brasileiro, foi emocionante.  Entendo pouco de futebol, mas percebi claramente que o  Sport perdeu a oportunidade de fazer 4 gols no primeiro tempo. E tem mais: no meu entender, o goleiro Magrão, do Sport, é um dos maiores goleiros  brasileiros. E o jogador Romarinho, do Corinthians, tem tudo para ser um dos mais competentes craques do Brasil. 
     Observei como é estranho e inconstante o entusiasmo de  um torcedor. A mesma emoção que o leva a elogiar é a mesma que o leva a maltratar seu clube. Perto de mim, um senhor gritava: “Isto é que é um clube da po...! O Sport é a seleção brasileira!" Mas quando um atleta rubro-negro perdia uma jogada,  o mesmo senhor, mostrando-se muito exigente, xingava: "Ora po... ! Filho da pu.. ! Isso é clube de ra......!”  

Na Ilha do Retiro, satisfeito com o empate do meu Sport Club diante do Corinthians, ergui para o alto o leãozinho de pelúcia e me conscientizei de que devo abrir mais espaço em minha vida para esta paixão rubro-negra.  

     No segundo tempo, fiquei pensando como seria bom se algum jogador chutasse bem forte e a bola caísse ao meu lado.  Eu levaria ela para casa como um troféu! E aí... O impossível aconteceu. Vinte e oito mil pessoas estavam no campo. E de repente, lá veio a bola voando para cima de mim e passou pela minha cabeça. Lá de trás, alguém mandou de volta e ela caiu justamente em meu colo. Pensei em ficar com o meu troféu,  mas o bom senso e o politicamente correto prevaleceu.  Devolvi a bola e lá se foi ela em direção ao campo.
      Quando faltavam poucos minutos para terminar o segundo tempo, e o Sport perdia por 1 x 0, pensei em me retirar, mas não tive coragem  de abandonar o estádio, mesmo vendo dezenas de rubronegros saindo chateados. De repente, aos 44 minutos do segundo tempo... GOL do Sport! 
      Vou dar ao Sport Club do Recife mais espaço em minha vida. Quero retornar outras vezes aos estádios para, perdendo ou ganhando, unir minha voz a outras milhares de vozes e cantar o nosso hino de guerra:  Pelo Sport nada? / Tudo! / Pelo Sport nada? / Tudo! / Então como é, como vai ser e como sempre será? /  Cazá! Cazá! Cazá, Cazá, Cazá! / A turma é mesmo boa! / É mesmo da fuzarca! / Sport! Sport! Sport!
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Timbaúba-PE, 14/07/2012 

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FOTOS E SONHOS

Daslan Melo Lima

      Houve um tempo em que tirar retrato não era uma coisa comum. Fotografia era um luxo. Eu tinha uma máquina fotográfica e era complicado  selecionar o que deveria ser fotografado, a fim de o filme (suficiente para 36 fotos, no máximo)  não acabar logo. Ninguém sabia como ficariam as imagens, só depois que fossem reveladas.
     Tirar fotografias hoje é uma coisa comum.  Basta pegar  uma  câmara digital.  Clicou, não ficou boa, apaga-se. Em seguida, é só postar as melhores em um álbum virtual ou compartilhá-las com amigos e parentes no Orkut ou Facebook, diferente  daquele ritual de guardá-las em um álbum ou  caixa. 
     Sinto saudades de vários momentos  maravilhosos em que não houve condições de deixá-los registrados porque o filme da minha máquina tinha acabado. Ainda bem que aqueles instantes, fotografados por minha alma,  ainda estão preservados nos meus sonhos.
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Timbaúba-PE, 07/07/2012.

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 A CHUVA CAIU DENTRO DE MIM

Daslan Melo Lima 


A chuva caiu
Caiu lá no serra
Lavou o meu rosto
Molhou toda a terra
A chuva caiu
dentro de mim tambem
Lavou meus pecados
Me fez querer bem


      Com sua voz linda, Tereza Melquiades, afilhada da minha mãe, cantava uma bela canção enquanto lavava roupa no Rio Canhoto. Eu era apenas um menino e estava na primavera da vida, mas a minh’alma ,  tentando em vão decifrar os  mistérios da vida e da morte, era velha e vivia no inverno. E se o rio virasse mar e acabasse com São José da Laje? E se... (?) E se... (?) E se... (?). Indiferente às minhas crises existenciais, o tempo passava, a infância era atropelada, Tereza cantava e eu me angustiava. 
Inverno que vem
Inverno que vai
Só sei que o amor
do meu peito não sai
O amor que eu lhe dei
você desprezou
Fugiu, foi embora
Só tristeza deixou


      Com  todas as  suas consequências, a chuva da nossa caminhada  termina por fazer um bem imenso às nossas almas, agregando boas doses de sabedoria para encararmos as pedras do dia a dia. DEUS sabe o que faz. Eu que o diga, afinal... 
A chuva caiu
dentro de mim tambem
Lavou meus pecados
Me fez querer bem
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Timbaúba-PE, na última tarde cinza de junho de 2012, ouvindo Ângela Maria cantar “A Chuva Caiu”, de Tom Jobim (1927-1994)  e Luiz Bonfá (1922-2001), http://www.youtube.com/watch?v=17FOCAjMQrA

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VIVA SÃO JOÃO 

Daslan Melo Lima 


Para brincar um bom São João, na minha opinião, 
basta decorar o ambiente com bandeirinhas coloridas 
e contratar um conjunto pé-de-serra 
para tocar alguns forrós de  Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. 

E  cair na animação com alma e coração. 
Tudo tão simples, e, por isso mesmo, tão nordestino, 
tão São João.  
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Timbaúba-PE, 23/06/2012


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UM SÃO JOÃO FORA DE ÉPOCA

Daslan Melo Lima

      Naquele chuvoso mês de junho de um tempo que se foi, ganhei de um tio uns pacotes de “traques”, a mais simples e inofensiva brincadeira de São João, ideal para crianças por não apresentar perigos como as “bombas” e os “buscapés”.  Gastei uma caixinha de "traques" e tive a ideia de guardar as restantes para brincar quando ninguém mais falasse de São João em São José da Laje, a cidadezinha alagoana onde nasci. Dois ou três meses depois, eu fiz o meu São João fora de época,  sozinho, sem fogueiras, sem milho assado, sem pamonhas, sem quadrilhas, sem amigos... Apenas eu e  o estalar dos “traques”.

   Lá na frente, muito tempo depois, entendi que a  beleza de certas coisas  reside no fato de  compartilhar as emoções com as pessoas que o destino colocou em nossa caminhada, mesmo que depois haja decepção e a vida conspire para restar só você  e as recordações. Se um dia o eco dos fogos de artifícios doer na alma e a fogueira da ilusão não mais acender, restou você acompanhado de  duas conquistas fantásticas:  a sabedoria e o crescimento espiritual.
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Timbaúba-PE, 23/06/2012
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JÁ NÃO POSSO FALAR CONTIGO, A NÃO SER EM SILÊNCIO

Daslan Melo Lima

          No ônibus lotado, rumo a mais um dia de trabalho, naquele ano de um tempo que se foi, meus olhos e meu coração despertaram para uma frase escrita no muro de um imóvel  na Av. Caxangá, no bairro da Madalena, Recife: “Joli: já não posso falar contigo, a não ser em silêncio”. Isso foi depois, muito depois, de eu ter lido no mesmo local aquele apelo que foi motivo da minha crônica da semana passada, “Joli: devolva minha sombra que saiu para te encontrar”. 
          “Já não posso falar contigo, a não ser em silêncio”. Profunda, dramática e poética frase que jamais esqueci, embora na época, por ser muito jovem, eu não me dava conta do quanto tem de divino e místico nesta nobre e abençoada palavra chamada silêncio.
      Quantos de nós já fechamos os olhos e em pensamentos falamos em silêncio com certo alguém  - presente ou ausente - que marcou as nossas vidas ou que amamos em segredo? Aposto que, em várias ocasiões, fomos compreendidos, quando havia aproximação e cumplicidade dos sentimentos. Aposto que, em várias circunstâncias, fomos incompreendidos, quando o eco dos nossos gritos silenciosos se perdeu no vazio antes de encontrar o alvo do nosso amor (ou da nossa paixão).  
      Quem era Joli? Nunca soube. Não saberei jamais. Que a história de Joli tenha tido um final feliz. Isso é tudo que desejei a ele (ou a ela) durante todos estes anos, em silêncio
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16/06/2012
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  DEVOLVA MINHA SOMBRA QUE SAIU PARA TE ENCONTRAR

Daslan Melo Lima

.....Uma vez, no final da década de 1970, ao passar pela Avenida Caxangá, no bairro da Madalena, no Recife,  vi um muro pixado com a seguinte frase: “Joli, devolva a minha sombra que saiu para te encontrar.” Profunda, sofrida e poética frase que jamais esqueci.
.....Quantos de nós já fechamos os olhos e em pensamentos fomos atrás de certo alguém que marcou as nossas vidas?
.....Quantos de nós já fechamos os olhos e em pensamentos fomos atrás de  certo alguém que amamos em segredo?
.....Quem era Joli? Quem escreveu aquela frase? Torço até hoje para que o final tenha sido feliz. 
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.....Ninguém merece perder sua sombra que saiu para encontrar um amor, uma paixão, uma ilusão, uma desilusão...  
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09/06/2012
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EM NOME DAS FLORES BRANCAS E LILASES

Daslan Melo Lima

          Caminho sem pressa na fria tarde de Cachoeira Paulista, São Paulo. Faço pausa para uma foto para registrar o cenário que despertou a minha atenção: as flores brancas e lilases que pertencem a uma única árvore, uma sábia lição da natureza de como as diferenças podem viver em harmonia.
         Em seguida, peço a alguém que passa que me fotografe destacando as flores ao lado. Após os cliques, confiro as imagens e noto que o visor da minha câmara também mostra personagens anônimos que acabaram saindo comigo na foto: uma senhora que empurra um carrinho de bebê acompanhada de outras pessoas que devem ser da sua família. Não sei quem são.  Não saberei jamais.   
     Sei apenas que vou rezar daqui a pouco para  que o planeta Terra esteja melhor quando este bebê tiver a minha idade. Vou rezar para que os homens de um tempo que virá possam viver em perfeita harmonia, em nome das flores brancas e lilases da tarde fria.
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Timbaúba-PE, 02/06/2012, treze dias após ter retornado de uma viagem à Canção Nova, em Cachoeira Paulista-SP.

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UM DIA O FRUTO VEM

Daslan Melo Lima

     Durante o recente show que assisti do Padre João Carlos, uma música dele calou profundamente em minh’alma, “Viagem”:  

Por todos os caminhos, eu não vou sozinho, vou de norte a sul. / Vou avisando o povo que um tempo novo já começou. / Navego nessas águas enfrentando mares de perigos mil, / e veio a tempestade mantendo a calma, sobrevivi.
.....
E a palavra vai. / E a palavra vem. / E a palavra cai. / Se o terreno é bom um dia o fruto vem.
.....
Eu sigo cavalgando, vou anunciando, eu vou levar a fé. / Em todas as cidades chegue a verdade de Nazaré.  / Amigo, não demore pois chegou a hora, o trem já vai partir./
Em cada estação, uma emoção de prosseguir.
.....
E a palavra vai. / E a palavra vem. / E a palavra cai. / Se o terreno é bom um dia o fruto vem.
.....
Depressa vou voando em nuvens flutuando logo eu chego lá. / Tem pressa essa gente, mas a semente eu vou plantar. / E segue essa mensagem na grande viagem, não sossega não. / Quer lhe bater à porta e fazer morada no seu coração.
.....
E a palavra vai. / E a palavra vem. / E a palavra cai, se o terreno é bom um dia o fruto vem.
.....
     A canção do Padre João Carlos mexeu com meus sentimentos no que diz respeito à missão de usar a palavra para propagar o bem e a religiosidade, independente de religião, pois aprendi a administrar a mistura das coisas boas e positivas que encontrei no catolicismo, no protestantismo, no espiritismo, no budismo, etc. 
    Não há dinheiro no mundo que supere a minha emoção  quando alguém diz que se emocionou com algo que escrevi.  
    E a palavra vai. / E a palavra vem. / E a palavra cai, se o terreno é bom um dia o fruto vem.
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Timbaúba-PE, no 26º dia de maio de 2012, oito dias após ter escutado  o Padre João Carlos cantar "Viagem".  Para ouvir a música no Youtube, clique neste link www.youtube.com/watch?v=O_d7DaLczSU

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ABENÇOADO FRIO

Daslan Melo Lima

     Chove lá fora, uma chuva leve para amenizar o calor timbaubense. Parece que os anjos lá nas nuvens estão espalhando água com cautela para não causar danos aqui embaixo. 
       Sinto frio, diferente daquele que conheci recentemente em São Paulo, durante uma tarde na cidade de Campos do Jordão, quando tive a sensação  de que o frio era uma faca fina que sutilmente penetrava na minha carne em direção aos ossos. Foi quando prometi a mim mesmo que quando voltasse a Pernambuco jamais me queixaria do calor do meu nordeste. 
       Enquanto os anjos continuam espalhando água, aguardo o sono louvando este abençoado frio que alimenta alguns sonhos adormecidos em minh'alma.

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Timbaúba-PE, na 21ª  noite de maio de 2012.
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SÓ RESTOU A SAUDADE


Daslan Melo Lima

    Durante a realização de um evento, encontrei uma ex-figura amada.  Poucos metros separavam nossos corpos, mas mil quilômetros separavam nossas almas. Trocamos um rápido cumprimento formal e percebi que ela seria incapaz de fixar por mais tempo os seus olhos nos meus. Foi do seu coração que um dia saiu a dose letal de incompreensão que me fez morrer para as ilusões e renascer mais sábio para administrar as desilusões.

   Gostaria que aquela ex-figura amada lesse essa crônica e tomasse consciência que é sobre ela que estou falando. Quisera que soubesse que de tudo que vivemos só restou a saudade do grande amor que lhe dediquei. E hoje, graças a Deus, nada retrata tão bem o sentimento que inunda minh’alma como os versos da música “Só ficou a saudade”, de Dolores Duran.  

O meu amor por você, que há tanto tempo nasceu,
ao ver que foi desprezado, há muito tempo morreu.
Só ficou, é bem verdade, a saudade já se vê,
ficou somente a saudade do meu amor por você.

Quando por mim você passa desvia logo o olhar,
fingindo que tem remorso da dor que me fez passar.
Não finja mais eu lhe peço, pois fingimento, pra que?
Se só ficou a saudade do meu amor por você.

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Timbaúba-PE, na ensolarada manhã do último sábado de abril de 2012. 

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 APRENDIZ DE PORTEIRAS

Daslan Melo Lima


         Quando várias portas não estavam abertas,
         um mar inundava minha alma de melancolia,
           até que os ventos apontaram oportunidades,
            quando janelas se abriram antes do meio dia.

                Calei-me impotente diante de fechados portões,
                  por incompetência para administrar as emoções.
                   E hoje -  professor de portas, janelas e portões -
                         sou eterno aprendiz de porteiras, abertas ou não.     

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Em Macaparana-PE, diante de uma porteira no distrito de Piraúa,  ao me lembrar de alguns Não ( e  Sim) que o destino  reservou para mim.  
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UMA CARTA, QUALQUER DIA

Daslan Melo Lima

..........Houve um tempo em que as pessoas pegavam papel e caneta e escreviam cartas para parentes e amigos. Depois havia aquele ritual de colocar a mensagem num envelope, ir aos Correios, postar as correspondências, ficar na expectativa de receber a resposta, ver o carteiro chegar,  abrir o envelope...
..........Em tempo de internet, ouso dizer que as vezes estranho a frieza do mundo virtual e sinto um pouco de saudades daquele tempo.
..........Que hoje existe praticidade e rapidez nas comunicações entre as pessoas, não resta dúvida alguma, mas a frieza reina no universo dos computadores. Estranho muito quando alguém é meu amigo no  Facebook ou no Orkut e passa por mim como se não me conhecesse. 
         Qualquer dia, pegarei papel e caneta e escreverei uma carta para mim mesmo, só para recordar o ritual de um tempo que se foi. Qualquer dia, irei excluir alguns "amigos" virtuais e mandarei cartas explicando o motivo, qualquer dia.
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Timbaúba-PE, 14/04/2012

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AS BATIDAS DO MEU CORAÇÃO

Daslan Melo Lima


..........Ponho minha mão direita sobre o meu peito esquerdo para sentir as batidas do meu coração. Aparentemente, graças a Deus, não tenho nenhum problema físico que afete meu coração. Chego ao outono da minha caminhada no Planeta Terra sem nunca ter precisado consultar um cardiologista.
 ..........Ponho minha mão direita sobre o meu peito para sentir as queixas do meu coração. Como trago na minh’alma  marcas de desilusões e pesadelos, sinto que preciso consultar um cardiologista. Embora acredite que meu coração esteja muito bem, tenho consciência que não devo  nunca mais sobrecarregá-lo de ilusões.
..........Quero alimentar o meu coração de sonhos doces e leves, iguais àqueles de um tempo que se foi, onde eu não me preocupava em colocar a mão direita sobre meu peito esquerdo para sentir as batidas do meu coração. 
..........
Timbaúba-PE, no penúltimo sábado de março de 2012, ao meditar sobre a idade do meu coração. Não sei se ele é mais velho ou mais novo do que minh'alma.
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 COMO NOS VELHOS TEMPOS

Daslan Melo Lima


     
     Nesta cinza tarde do nordeste brasileiro, enquanto muitas cidades  sofrem com a falta d'água, chove em Timbaúba, Pernambuco. É como se uma parte da região mais sofrida do Brasil  chorasse por ele, Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, o cearense Chico Anysio. Na minha condição de romântico incorrigível e de sentimental incurável, não vou falar  aqui do humorista que nos deu tanta alegria, apenas ligeiramente destacarei um lado pouco divulgado de Chico Anysio: o de compositor. 

     Gosto muito de sua composição “Rio Antigo“, que tem o subtítulo  “Como Nos Velhos Tempos” , um poético e nostálgico retrato de um Chico Anysio romântico e sentimental. E enquanto você mergulha na essência   dessa canção, vou lá fora deixar minhas lágrimas rolarem ao som dos pingos da chuva. Nesta tarde,  como nos velhos tempos de mim, estou tentando decifrar os mistérios da vida e da morte.    
 .....
RIO ANTIGO (COMO NOS VELHOS TEMPOS), de Chyco Anísio e Nonato Buzar

Quero um bate-papo na esquina. / Eu quero o Rio antigo com crianças na calçada, / brincando sem perigo, sem metrô e sem frescão, / o ontem no amanhã. / É que pego o bonde 12 de Ipanema / pra ver o Oscarito e o Grande Otelo no cinema, / domingo no Rian. / Me deixa eu querer mais, mais paz.
 .....
Um pregão de garrafeiro. / Zizinho no gramado. / Eu quero um samba sincopado,/ taioba, bagageiro / e o desafinado que o Jobim sacou. / Quero o programa de calouros
com Ary Barroso.  / O Lamartine me ensinando um "lá, lá, lá, lá, lá", gostoso. / Quero o Café Nice de onde o samba vem. / Quero a Cinelândia estreando "E o Vento Levou". / Um velho samba do Ataulfo que ninguém jamais gravou. / PRK 30 que valia 100, como nos velhos tempos.
 .....
Um carnaval com serpentinas. / Eu quero a Copa Roca de Brasil e Argentina. / “Os Anjos do Inferno”, “4 Ases e Um Coringa”. / Eu quero, eu quero porque é bom. / É que pego no meu rádio uma novela, / depois eu vou à Lapa, faço um lanche no Capela. / Mais tarde eu e ela, pros lados do Hotel Leblon.
.....
Um som de fossa da Dolores. / Uma valsa do Orestes, "zum-zum-zum" dos Cafajestes,/
um bife lá no Lamas / Cidade sem aterro, como Deus criou. / Quero o chá dançante lá no clube / com Waldir Calmon. / Trio de Ouro com a Dalva, Estrela Dalva do Brasil/
Quero o Sérgio Porto e seu bom humor. / Eu quero ver o show do Walter Pinto com mulheres mil. /O Rio aceso em lampiões e
 violões, /  que quem não viu não pode entender o  que é paz e amor.
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Timbaúba-PE, Nordeste do Brasil, na tarde de 24/03/2012, um dia após DEUS ter convocado Chico Anyisio para uma nova missão em outra dimensão.
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Para ouvir Alcione cantando Rio Antigo (Como Nos Velhos Tempos) clique neste link, http://www.youtube.com/watch?v=wxbU_Wl_kS0

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 EU NÃO DEVIA ESPERAR E AINDA ESPERO

Daslan Melo Lima

.....Quase meia-noite neste lado de cá da América do Sul. Abençoado silêncio que domina o bairro de Timbaubinha, zona norte de Timbaúba, Pernambuco, nordeste do Brasil. Só os meus pensamentos silenciosos teimam tirar o silêncio do silêncio. Daqui a pouco terei um sono de paz, pois minha consciência está tranqüila, no entanto, não terei um  sono gostoso, intenso e profundo como gostaria.    

.....Penso em mil coisas enquanto o sono está a caminho: um terremoto poderá sacudir o Japão a qualquer momento;  pessoas foram se deitar com fome; jovens perdem a vida por causa das drogas e da violência, etc. 

.....Quase meia-noite neste lado de cá da América do Sul. Abençoado seja este silêncio que domina o bairro onde moro. Mas enquanto o sono está a caminho, eu canto  em silêncio Noite de Paz, uma canção da autoria de Dolores Duran que diz ao meu DEUS tudo aquilo que gostaria de dizer a ELE neste momento.

Dá-me, Senhor
uma noite sem pensar.
Dá-me Senhor
uma noite bem comum.
Uma só noite em que eu possa descansar
sem esperança e sem sonho nenhum.
Por uma só noite assim posso trocar
o que eu tiver de mais puro e mais sincero.
Uma só noite de paz pra não lembrar
Que eu não devia esperar e ainda espero.
_____
Timbaúba (PE), na 16ª noite de março de 2012.

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Para ouvir Noite de Paz no Youtubee, nas vozes de Altemar Dutra, Maysa e Nana Caymmi, clique nos links a seguir:
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 HISTORINHAS SEMANAIS
 
Daslan Melo Lima


.....“Porque você só compra Historinhas Semanais?" A pergunta partiu de um colega de infância, o Ladorvane Cabral, filho do Sr. Lindolfo Gomes Cabral, proprietário do Foto Cabral e da única banca de revistas de São José da Laje, a cidade alagoana onde nasci. A pergunta era pertinente, pois os meninos da nossa idade já estavam lendo gibis de Rocky Lane, Roy Rogers, Zorro, etc. , mas eu continuava adorando aquelas revistinhas infantis.  
 .....
 .....
.....Qual o motivo da minha predileção por aquelas Historinhas Semanais?  Decorrido tanto tempo, não tenho receio algum de responder. Eu queria que a infância ficasse comigo por mais tempo, pois sabia que logo mais seria um adulto e isso me angustiava.  Assustava-me o rito de passagem de menino-adolescente para homem, alvo das  cobranças e responsabilidades que se esperam de um adulto.  Eu não queria crescer, tal como na lenda do Peter Pan.
.....De vez em quando, releio aquelas revistinhas guardadas com tanto carinho e nelas reencontro o menino que fui.  Alguns fantasmas da minha infância fazem parte do passado, graças a Deus, mas são nelas, nas Historinhas Semanais, que reencontro uma das fontes mágicas para reabastecer meus sonhos e renovar minh'alma.

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5 comentários:

Anônimo disse...

Conservar recordações do tempo de criança, não deixar de ser menino, não deixar de sonhar... são coisas dos sábios e dos poetas como você.

Adoro tudo que vc escreve!

Judite/Recife

Anônimo disse...

Fantástico Daslan, fantástico... Abraços!!

Jailson Correia

Milhões de Quadrinhos disse...

E eu,agora comecei a coleção...

Consultora em Educação disse...

Pinheirinho

Ivone Boechat

O pinheirinho guarda
segredos, saudades,
esconde medos,
abriga esperanças,
acende lembranças,
enredo de muitas
idades;
no pinheiro, há lágrimas
perdidas,
pedidos pendurados
por carências,
adiados,
na efervescência
da vida;
o pinheirinho
é você mesmo,
erguido,
cheio de fantasias,
sofrido... enfeitado,
ignorando maldades,
acendendo esperança,
apagando falsidades.

Consultora em Educação disse...

Minha filha

Ivone Boechat (autora)

Tanta ternura
guardada, acumulada,
na alegria,
na dor,
24 horas e sempre
para o amor;
uma filha é assim:
certeza de amparo,
de socorro,
de favor,
silenciosamente
confiável,
filha é aquele ombro amigo,
aquela ajuda discreta,
aquela reserva de amor.

Publicado no Amanhecer 3ª.edição Reproarte 2004 RJ