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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 629, referente ao período de 23 a 29 de julho de 2017. ***** Editor: Daslan Melo Lima ***** Timbaúba, Pernambuco, Brasil ***** Telefones: (81) 9.9612-0904 (Tim). ***** WhatsApp: +55 81 9.9612.0904 ***** E-mail: daslan@terra.com.br

sábado, 28 de julho de 2012

SESSÃO NOSTALGIA - GERVÁSIO BATISTA E INDALÉCIO WANDERLEY, OITO ANOS AO PÉ DAS MISSES


Daslan Melo Lima

PRÓLOGO


      Nas reportagens das famosas revistas O Cruzeiro e Manchete, que focalizavam em generosas reportagens os concursos de Misses, o nome do cearense Indalécio Wanderley (1928-2001) e do baiano Gervásio Batista sempre apareciam nos créditos das imagens. Indalécio Wanderley na O Cruzeiro e Gervásio Batista na Manchete. Não havia rivalidade entre os dois repórteres-fotográficos.Eles eram amigos e cada um se esforçava para que suas revistas aparecessem nas bancas da forma mais atraente possível.


      Na revista Manchete, de 25/07/1964, foi publicado um diálogo entre Gervásio  Batista e Indalécio Wanderley, dias antes de os mesmos embarcarem para Miami Beach, onde iriam fazer a cobertura do concurso Miss Universo. Transcrevo a referida matéria abaixo, na íntegra, conservando, inclusive,  a grafia da época, como forma de resgatar parte de um tempo que se foi. Na capa da citada Manchete, em foto de Gervásio Batista, as belas Ângela Teresa Vasconcelos, de blusa verde, Miss Paraná, Miss Brasil e semifinalista no Miss Universo 1964, e Vera Lúcia Couto Santos, Miss Guanabara, vice-Miss Brasil e terceira colocada no Miss Beleza Internacional 1964.  

                                 OITO ANOS AO PÉ DAS MISSES

Na foto, Ieda Maria Vargas (Miss Rio Grande do Sul, Miss Brasil e Miss Universo 1963), Indalécio  Wanderley e Gervásio Batista.

      Gervásio Batista e Indalécio Vanderlei são dois veteranos repórteres da imprensa brasileira – o primeiro de MANCHETE, o segundo de O Cruzeiro. Juntos, já realizaram cêrca de quinze coberturas de concursos internacionais de beleza, nos Estados Unidos e Europa. De passaporte carimbado para Miami, eles travaram antes do embarque um diálogo amigo sôbre o que têm feito e visto, nesses anos. Outro repórter gravou a conversa sem que eles soubessem.
INDALÉCIO – Para mim as coisas começaram em 1956. Um ano antes, devido ao sucesso de Marta Rocha, O Cruzeiro enviou um repórter a Long Beach, acompanhando a cearense Emília Correia Lima. Minha vez chegou com Maria José Cardoso.
GERVÁSIO – Eu comecei mais tarde. Mas comecei bem. Foi em 57. Teresinha Morango acabou repetindo Marta e a viagem valeu a pena. Mas não foi fácil. Você que esteve lá sabe como é duro.
INDALÉCIO – O primeiro drama foi enfrentar o desprestígio da imprensa brasileira nos Estados Unidos. Ninguém sabia onde o Brasil ficava. Eu me lembro que na hora de fotografar as misses nós sempre éramos colocados nos últimos lugares.
GERVÁSIO – Eu sofri o mesmo drama. E há um outro que você não citou:  o da remessa de material para o Brasil. Naquele tempo a VARIG ainda não tinha linha para Los Angeles. O jeito era pedir, quase de joelhos, aos passageiros que iam para Nova Iorque, que levassem nossos filmes. Dali em diante a VARIG resolvia o problema.
INDALÉCIO – Hoje as coisas são outras. Mas houve uma vez em que tive de mandar os filmes de helicópteros – senão O Cruzeiro seria “furado” pela MANCHETE...
GERVÁSIO - Bom, você sabe como são essas coisas. Amigos, amigos, revistas à parte.
INDALÉCIO – Não tenta fazer romance, Gervásio.  Você sabe que muitas vezes lutamos juntos, um dando cobertura ao outro.  Você já se esqueceu das nossas corridas pelas estradas dos Estados Unidos, quando infringimos todas as leis locais de trânsito para chegar a tempo? O que ia no carro de trás ficava de ôlho na polícia para avisar ao da frente.
GERVÁSIO – Mas valeu a pena. E você sabe, Indalécio, estou hoje convencido de que a ampla cobertura que a imprensa norte-anericana dá, atualmente, ao Concurso Miss Universo, se deve ao trabalho dos jornais e revistas brasileiros. Você se lembra quando, há alguns anos, os jornalistas dos Estados Unidos se espantavam com o número de brasileiros, entre repórteres e fotógrafos?
INDALÉCIO – É exato. Como é exato, também, que os norte-americanos são perfeitos em matéria de organizar festas. Tanto em Long Beach como em Miami, tudo funciona dentro do relógio. É uma coisa surpreendente, sobretudo para nós,  brasileiros, que temos a mania de improvisar tudo.
GERVÁSIO – Só uma coisa me desagrada nesses concursos. É a frieza do público. Não há nos Estados Unidos aquêle calor humano do Maracanãzinho, com palmas e vais, torcidas organizadas e gente gritando pela sua candidata.
INDALÉCIO – Eu também notei isso. O pessoal é um pouco frio. O público reage como se estivesse numa exposição de gado ou de automóveis.
GERVÁSIO – A única explicação talvez seja a duração exagerada do concurso. São quatorze dias. E as solenidades e desfiles cansam um pouco. O pessoal aqui no Rio fica pensando que nós estamos de beleza, comprando “muambas”, entre gente bonita. Mas a história é outra. É uma correria para todos os lados, enfrentando dificuldades que vão desde o grande número de misses ao regulamento do concurso, que dificulta o trabalho dos fotógrafos.
INDALÉCIO – Mas você sabe, Gervásio, a verdade é que eu gosto da coisa. A gente luta, acaba fazendo um bom trabalho e fica satisfeito quando a revista roda e todo o país admira o nosso trabalho. Pode ser uma vaidade tola. Mas é bom.
GERVÁSIO – Que é bom, é. Se não fosse, duvido que me pegassem a segunda vez.
INDALÉCIO – Eu acho, Gervásio, que em todas essas viagens nós só discordamos numa coisa: o nome da que deveria ganhar. Para mim, a môça mais bonita de todos esses concursos, até hoje, foi Linda Bement, Miss Universo de alguns anos atrás.
GERVÁSIO – Mas em compensação ficamos de acôrdo que a mais feia de todas foi a Miss Tailândia 62, uma que parecia o Garrincha.
INDALÉCIO – Agora temos a Ângela. Ela, realmente, é muito bonita. Leva, porém, a desvantagem de ser um tipo muito comum nos Estados Unidos. Não vai ser fácil.
GERVÁSIO – Fácil não vai ser. Mas Vera Lúcia, a nossa mulata, estará em Long Beach. E com ela a solução é simples: se não tirar o primeiro, pelo menos dará muito o que falar.
INDALÉCIO – O jeito é ver esses concursos de perto. Eu sigo daqui a uns dias. Você vai?
GERVÁSIO – Espero chegar lá primeiro que você...

                                                DETALHES

       Houve alguns lapsos no texto publicado na Manchete. O nome correto da Miss Brasil 1955 é Emília Corrêa Lima (o Corrêa sem a letra i e com acento circunflexo na letra e), enquanto o do repórter da O Cruzeiro é Indalécio Wanderley (O Wanderley com w e y), já focalizado nesta secção por duas vezes. A primeira em 20/04/2008, SESSÃO NOSTALGIA - ELENICE BARRETO E INDALÉCIO WANDERLEY, A HISTÓRIA DE AMOR DA MISS CLUBE MILITAR 1955 COM O REPÓRTER DA REVISTA " O CRUZEIRO”, http://passarelacultural.blogspot.com.br/2008/04/sesso-nostalgia-elenice-barreto-e.html . A segunda vez em 27/04/2008, SESSÃO NOSTALGIA - MISSES, AS IMPRESSÕES DAS VIVÊNCIAS DE INDALÉCIO WANDERLEY,  http://passarelacultural.blogspot.com.br/2008/04/sesso-nostalgia-misses-as-impresses-das.html

      Gervásio Batista cita no texto a Miss Tailândia 1962, mas a observação que ele fez deve se referir à Miss de outro país, pois a Tailândia não mandou representante para o Miss Universo 1962. Gervásio Batista, citado como decano do fotojornalismo pela ABI, Associação Brasileira de Imprensa, e que hoje assina o nome como Gervásio Baptista, continua atuante, prestando serviços ao Supremo Tribunal Federal.

Os 67 anos de carreira do repórter fotográfico Gervásio Baptista foram comemorados no dia 27/04/2012 por admiradores e amigos de um dos profissionais da imagem mais respeitados e experiente em atividade na capital federal. Testemunha de fatos históricos relevantes do século 20, Gervásio recebeu homenagens em um coquetel e bate-bapo ocorrido na Galeria Olho de Águia, um dos espaços destinados à preservação da cultura brasileira e brasiliense que funciona em Taguatinga, cidade-satélite do Distrito Federal. (Foto de  Ivaldo Cavancante - Galeria Olho de Águia. Fonte: http://www.olhardireto.com.br, 02/05/2012).

Linda Bement, Miss Estados Unidos e Miss Universo 1960, a preferida de Indalécio Wanderley, fotografada por ele, na capa da revista O Cruzeiro, de 23/07/1960.

   No dia 11 deste mês, recebi este e-mail: "Boa tarde, Daslan! Estamos preparando um especial sobre fotojornalismo, que será publicado na segunda edição da Revista de Jornalismo ESPM, produzida pela Escola Superior de Propaganda e Marketing em parceria com a Columbia Journalism Review. Neste especial, produzido por Cacalo Kfouri, estamos citando o trabalho de Indalécio Wanderley. Vi em seu blog - Passarela Cultural - que tem uma série de matérias sobre esse grande profissional. Dessa forma, gostaria de solicitar uma foto dele (estamos publicando a foto de todos os fotógrafos citados na matéria) e outra de uma miss fotografada por ele para ilustrar essa reportagem. Anexo duas imagens que podem servir de referência. Obs. na sua resposta, por favor, mande seu endereço para que possamos enviar um exemplar da revista com essa reportagem especial. Estamos fechando a revista amanhã. Aguardo um retorno o mais breve possível. Um abraço, Anna Gabriela Araujo - Revista da ESPM."
          Eis a minha resposta imediata:  "Anna Gabriela, boa noite. É uma satisfação colaborar com esse seu trabalho tão significativo. Nos anexos, duas fotos. 
Uma mostra INDALÉCIO WANDERLEY em primeiro plano, tendo ao fundo pequenas imagens dele em sua atividade jornalística, postada na O CRUZEIRO, de 05/05/1956. 
A outra, feita pelo grande Indalécio, mostra ANA MARIA COSTA CALDAS, Miss Pernambuco 1964, em duas poses, publicada na O CRUZEIRO, de 08/08/1964. Espero que atendam o seu interesse. O material faz parte do meu acervo sobre Misses e assuntos dos anos 1950-1960-1970,  composto de dezenas de revistas O CRUZEIRO, MANCHETE , FATOS & FOTOS, MUNDO ILUSTRADO  e outras. Abaixo, meu endereço completo e telefones para contato. Um abraço. DASLAN MELO LIMA"

EPÍLOGO
       Quando estou revendo as matérias sobre misses em O CRUZEIRO e MANCHETE, fico imaginando como era difícil  o trabalho do pessoal, num tempo onde não havia câmaras fotográficas digitais, celulares, computadores, internet... Sei que nem tudo era glamour na vida dos jornalistas e fotógrafos, mas quem me dera entrar no túnel do tempo e ao lado de Gervásio Batista, digo, Gervásio Baptista,  e Indalécio Vanderley fotografar algumas das mais belas mulheres do mundo nas passarelas dos anos 1950 e 1960.  

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6 comentários:

Roberto Macedo disse...

Daslan,

Parabéns, mais uma vez, pela excelente matéria. O filho de Gervásio, Aristides, é fotógrafo aqui em Salvador, atuando no jornal A Tarde. De vez em quando, quando nos encontramos, pergunto pelo pai dele.

Um abraço,

Roberto

Anônimo disse...

Que bom esta matéria sobre Indalécio Wanderley e Gervásio Baptista, dois ícones do fotojornalismo brasileiro.
Podemos dizer que é um documento histórico que veio à tona para enriquecer as pesquisas do Google/Internet.

Thereza G. Alcântara
Niterói

DASLAN MELO LIMA disse...

Comentário de Cleto Costa Assumpção, de Blumenau-SC, via e-mail
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Acabei de ler não apenas esta, mas as outras matérias focalizando Indalécio Wanderley neste blog. Foi muito interessante saber mais sobre a vida deste ícone do fotojornalismo brasileiro.

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Anônimo disse...

Indalécio e Gervásio foram premiados por Deus em vir ao mundo para conviver com algumas das mulheres mais bontas do universo durante três meses de cada ano. Parabéns Daslan.

muciolo ferreira

Anônimo disse...

Achei simplesmente maravilhosa, nota mil, sua matéria sobre Gervásio Batista e Indalécio Wanderley. São dois jornalistas a quem devemos nosso maior reconhecimento e admiração, por sua magníficas reportagens nos anos dourados dos certames de miss.

Eu tive a imensa satisfação de me deliciar com essas suas fotos e textos veiculados em O Cruzeiro e em Manchete, duas revistas que marcaram época em nosso país. Os dois fazem parte de um tempo em que, também no meio jornalístico, ainda não havia sido inoculado o veneno invejoso das feministas contra suas mais belas congêneres.

Indalécio e Gervásio cobriam um concurso de beleza com mesmo interesse, entusiasmo e naturalidade com que eram capazes de cobrir as performances das atletas em suas disputas olímpicas ou mundiais, de fotografar modelos em estúdios ou manequins em seus desfiles fashion nacionais ou internacionais.

É de repórteres como eles, destituídos de grilos contra as misses, que precisamos para fazerem a cobertura dos concursos de beleza atuais.

Silveira/Pel

Joao Cordeiro disse...

sensacional esta reportagem destes ícones da comunicação brasileira dos anos 60. Parabéns Daslan