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sábado, 20 de abril de 2013

SESSÃO NOSTALGIA – Confissões de Ieda Maria Vargas, Miss Universo 1963


Por Daslan Melo Lima

PRÓLOGO

         
Timbaúba, Pernambuco, nordeste do Brasil, final da tarde do terceiro domingo de abril de 2013. 
Chove lá fora, pouco, mas chove. Para quem nasceu numa região castigada pela seca e o sol inclemente, a chuva que lá fora cai tem um gosto maravilhoso de festa. E tendo como fundo musical o  som dos pingos d’água , vou resgatar mais um documento referente às grandes misses do passado. Em minhas mãos, a revista Cláudia, abril de 1968, Ano VIII, nº 79, Editora Abril. Vou transcrever uma interessante matéria daquela publicação escrita na primeira pessoa por Ieda Maria Vargas, Miss Rio Grande do Sul, Miss Brasil e Miss Universo 1963. Detalhe: na revista, o nome Ieda está escrito com a letra Y


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Encontro acidental põe frente a frente o especialista e a “perturbadora” de corações: Miss Universo 63 X Dr. Christian Barnard.

YEDA VARGAS E A IMPORTÂNCIA DOS AUTÓGRAFOS

          Foi numa das minhas primeiras viagens depois de ter sido eleita Miss Universo. Estávamos em Lima, meus pais e eu, acompanhados por minha amiga Miss Peru: era a noite em que se comemorava o aniversário da independência do Peru. Um rapaz simpático se aproximou e me pediu um autógrafo. Disse-me que era a primeira vez que falava com uma brasileira. Perguntei de onde ele era. E a resposta: “Capetown, South Africa.” Eu ri, dizendo que era também a primeira vez que conversava com um africano. Naquela noite meu autógrafo  saiu assim:  Ao Dr Christian Barnard, Yeda Maria Vargas, Miss Universo.
          Imagine meu susto quando, há uns dois meses, vi seu retrato nos jornais. Fiquei muito emocionada. Creio que fui das poucas pessoas que tiveram o privilégio de conhecer pessoalmente um homem predestinado a abrir novos rumos para a ciência. Realmente é uma sensação estranha. Como se eu tivesse conhecido Galileu, Newton, Einstein ou Freud, enfim qualquer  uma das figuras famosas que a gente estuda na escola. Já me imagino contando para meus filhos: “Esse aqui eu conheci pessoalmente. Naquele tempo era ele que me pedia autógrafos...”
          Nada entendo de medicina mas acredito que ainda há muita coisas a se fazer nesse campo. Daqui a alguns anos, falar em transplantes vai ser coisa corriqueira. E o mais gozado var ser a dificuldade dos juízes nos concursos de beleza. Vão ter que regulamentar novamente todos os concursos, e uma proibição terá que ser feita: “É expressamente proibida a inscrição de candidatas que se tenham submetido a transplante de olhos, pernas ou qualquer outro que tenha alterado sua beleza original.”

Se eu fosse uma mulher feia minha vida teria sido a mesma coisa

          É claro que eu não teria o titulo de Miss Universo, mas seria essa a única diferença. Beleza não é só físico. Uma escultura não é  considerada obra de arte apenas por ser bonita. É seu valor artístico que a torna mais ou menos bonita. O importante é a personalidade das pessoas. Se eu não fosse bonita, não teria sido Miss Universo, nem tampouco teria viajado. Não teria conhecido outros países e outros povos. Não teria adquirido a visão que adquiri. Sei de tudo isso. Mas eu teria estruturado minha personalidade em torno de outras experiências. O resultado seria o mesmo. Minha participação na vida, a mesma. Eu tenho um amigo muito feio. Porém fascinante. Fascinante pela sua maneira de pensar. Pela sua maneira de conversar. Pelo seu cavalheirismo. Depois de quinze minutos com ele, não há quem o ache feio. Aliás, em nossa roda de amigos ninguém o considera um homem feio. É um dos exemplos que conheço de personalidade que faz beleza. É uma receita que serve para homens e mulheres. Cultivem a personalidade que vocês serão mais belos...

Diferença de sexo não quer dizer superioridade de um sobre o outro

          Homem ou mulher, ambos são seres humanos. A resposta para seus problemas é a mesma. Infelizmente a mulher ainda está, socialmente falando, em posição de inferioridade. Mas isso é o resultado de uma organização econômico social que perdurou por séculos e que só agora se está extinguindo. A mulher de hoje recusa deixar-se “coisificar”. Quer ser reconhecida como o que é realmente é: gente. Não é o fato de ter que cozinhar e cuidar da casa que a diminuiu. Mas a sensação de existir no mundo só para isso.
          Nenhuma mulher deseja masculinizar-se. Muito menos deseja que os homens se tornem femininos. (Credo, já viu esses de mini saia no  Rio?) Elas querem simplesmente participar da vida, não como com concorrentes mas como colaboradoras e companheiras.
          Diferença de sexo não significa superioridade de um sobre o outro. É apenas uma diferença de especializações. É bem verdade que existem mulheres que só dão para a cozinha. É tudo uma questão de talento. Mas também é verdade que existem homens que nem para isso dão...

Os jovens estão querendo demonstrar algo que não possuem: liberdade

     A maior parte das pessoas que ainda me pedem autógrafo na rua é constituída por jovens. E, cada vez que um deles chega perto de mim, não posso deixar de pensar na diferença existente entre os jovens atuais e os de minha época. No meu tempo, o Rock era a última novidade. Porém a gente tinha um pouco de medo de participar dos novos ritmos da juventude. Minha geração é uma geração intermediária: não pertence nem àquela geração contida de antigamente nem a esta que se diz livre e que é a juventude nos dias de hoje.
          A gente sentia um grande desejo de se livrar da opressão dos mais velhos. Ao mesmo tempo tomávamos o maior cuidado para não demolir o mundo. Eu acho que a juventude de hoje armazenou um excesso de energia nesta revolta, e agora não sabe o que fazer dela. Em outras palavras: tem necessidade de liberdade mas não sabe gozá-la.. As demonstrações que existem por aí dizem exatamente isso - os jovens estão querendo demonstrar algo que não possuem: liberdade. Quando a gente fala muito de uma coisa, é porque essa coisa nos faz uma falta angustiosa. E é o que acontece com os jovens de hoje.  Usam e abusam da palavra liberdade. No Brasil, o problema de liberdade é ainda mais grave. Existem muitas normas burguesas. Se alguma moça, por exemplo, começa a trabalhar com quinze ou dezesseis anos, todo mundo começa a falar: “Acho eu as coisas vão mal...” Nos Estados Unidos, mesmo os jovens de famílias ricas trabalham ou procuram trabalhar. E é assim que procuram a sua liberdade  E é assim que adquirem o senso de responsabilidade. É uma liberdade bem diferente daquela que a gente vê no cinema. Ou lê nas revistas.

Se o Presidente Costa e Silva quisesse um autógrafo meu...

          O Presidente Costa e Silva nunca me pediu um autógrafo. Aliás, eu é que deveria procurar um autógrafo dele. Mas se por acaso ele me aparecesse e pedisse autógrafo em troca de três pedidos meus, eu pediria o seguinte: que não deixasse achatar ainda mais o salário dos trabalhadores, que não permitisse nova alta no custo de vida e que desse casas para todos morarem. Não precisava ser casa grande. Mas uma casa simples, decente. Só quem anda  nas  malocas é que pode avaliar o que passa aquela gente. De resto, não entendo nada de política. Acho engraçado a gente discutir sobre pessoas que nem conhece. E mais engraçado ainda é tentar resolver num pedaço de papel problemas tão graves, sem conhecer a verdade sobre eles. Por isso gostei muito da resposta do ex-presidente Kubitschek, quando lhe perguntaram, nos Estados Unidos, por que gastava tanto dinheiro na construção de Brasília: “Pelo mesmo motivo por que vocês gastam tanto dinheiro para mandar um foguete à Lua.” Acho que cada um deve cuidar do que é seu, e pronto.

Ser Miss Universo não foi a coisa mais importante da minha vida

          Foi muito bom ter sido Miss Universo. Mas não a coisa mais importante. Importante na verdade é viver,  por tudo que a vida nos oferece. E, falando do concurso em si,  não nego que seja uma promoção comercial, nem mesmo seus promotores negam. Mas daí a se dizer que existe uma grossa camada de imoralidade e que as moças estão sujeitas a toda espécie de perigos, isso não. Quem se respeita a si próprio  é respeitado pelos demais.
          Eu jamais sofri vexame de qualquer espécie, durante todo o transcorrer do concurso, e digo mais:  as candidatas são proibidas de sair a sós com rapazes para evitar  comentários.   Se minha filha desejar  participar de um desses concursos, permitirei com todo o prazer. Para mim foi uma experiência fascinante. O que não se pode é construir a felicidade sobre um só fato ou uma só pessoa. A gente para ser feliz tem que construir um mundo interior e participar com ele do mundo das outras pessoas. Importante é tudo. Importante é ter meus amigos. É ter meus pais como amigos. É ter José Carlos, gostar dele, ser amada por ele. Importante foi o dia 29 de março. Aí, na igreja, dei o autógrafo que passou a ser o mais importante de minha vida: Yeda Maria Vargas Athanasio.

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EPÍLOGO


          Christian Barnard (1922-2001) ficou famoso por ter sido o primeiro médico a realizar uma cirurgia de transplante de coração.
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          Ieda Maria Vargas tem dois filhos, está viúva de José Carlos Athanasio e mora atualmente em Gramado, RS.(Foto:  Sociedade/João Pulita, clicrbs.com.br/rs)
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          Entre as mais gratas recordações da minha vida, guardo o momento em que conheci  Ieda Maria Vargas pessoalmente, durante um evento no Clube Português do Recife, há 20 anos, ocasião onde pedi  que autografasse um dos meus álbuns de recortes.
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        Chove lá fora, pouco, mas chove. Chove lá fora e por isso, na minha fantasia, este pedaço do meu amado Nordeste está com clima do Rio Grande do Sul, berço de Ieda Maria Vargas, Miss Universo 1963.

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4 comentários:

DASLAN MELO LIMA disse...

Agradeço a todos por prestigiarem esta secção.
É uma satisfação compartilhar estas memórias, mas peço que, ao transcreverem o texto desta matéria, no todo ou em parte, não esqueçam de citar o que se segue:
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Fonte: Passarela Cultural, www.passarelacultural.blogspot.com.br

Anônimo disse...

Valeu, Daslan!

É sempre bom resgatar a memória das eternas misses brasileiras. E Ieda é uma delas. Porque mesmo depois de quatro décadas de eleita, continua amada, admirada e respeitada por todos os brasileiros. Isto pela sua bela história de vida irretocável.

A retidão sempre esteve presente no seu dia a dia. Nos grandes e pequenos gestos.

Uma ótima semana a todos.

Abraços.

Muciolo Ferreira
Recife-PE

Anônimo disse...

A algum tempo li em uma reportagem que quem fez o primeiro transplante de coração do mundo, na cidade do Cabo, no ano de 1967 não foi o Dr. Barnard; foi Hamilton Naki, um negro, semi analfabeto e que era auxiliar de laboratório da Faculdade de medicina do Cabo e, vendo os médicos fazendo experiencias com animais resolveu fazer suas experiencias com os animais (cachorros) que eram descartados. Com o sucesso da bem sucedida experiencia, Dr. Barnard lhe colocou na equipe como médico
clandestino e ensinado aos alunos brancos da Faculdade do Cabo tecnícas de cirurgia por mais de 15 anos. Morreu no ano de 2005, aos 78 anos, tendo, após o aparthaid recebido o Titulo de médico honorário da Faculdade e tendo o seu retrato na galeria dos grandes mestres. Viveu feliz, sem nunca reclamar de que sua descoberta que salvou e salva tantas vidas foi
dada a outra pessoa.
Ana Lygia

Evandro Silva disse...

Meu caro amigo DASLAN,
Excelente matéria, parabéns! Ieda Vargas além de bela tem muita lucidez, provando que uma Miss Universo não se elege apenas pela beleza física, Abraços