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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 633, referente ao período de 20 a 26 de agosto de 2017. ***** Editor: Daslan Melo Lima ***** Timbaúba, Pernambuco, Brasil ***** Telefone: (81) 9.9612-0904 (Tim). ***** WhatsApp: +55 81 9.9612.0904 ***** E-mail: daslan@terra.com.br

sábado, 11 de junho de 2011

ARTE DE AMAR e outras crônicas de Daslan Melo Lima

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ARTE DE AMAR

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Daslan Melo Lima

                Um corpo com outro corpo pode se entender bem, muito bem, mas a relação pode chegar a um nível insuportável de convivência, quando as almas não se entendem.  De repente, você se cansa do dono ou da dona daquele corpo cuja alma não alcança sua sensibilidade. Você adoraria rever aquele filme favorito ou escutar aquela canção que adora ao lado da figura amada, mas essa pouco valoriza os seus sentimentos.    

                O poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968), no poema Arte de Amar, diz:

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
  A alma é que estraga o amor. 
Só em Deus ela pode encontrar satisfação. 
 Não noutra alma.
  Só em Deus - ou fora do mundo.
  As almas são incomunicáveis. 
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo 
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

               Na maior parte das vezes, deixamos nossos corpos se entenderem com outros corpos, só os corpos, e lamentamos a falta de sintonia existente entre as almas. Não poderia ser diferente. Só em Deus elas poderão encontrar satisfação. 

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 SÃO JOÃO DORMIU. SÃO JOÃO NÃO ACORDOU


Daslan Melo Lima
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               Ao redor da fogueira, nos meses de junho de outrora, grandes amizades nasciam nos singelos rituais onde as pessoas se tornavam compadres, comadres, padrinhos e madrinhasde São João”. Um costume que cada ano se torna mais raro.
               “São João dormiu. São João acordou. Você vai ser meu cumpade que São João mandou”. A partir daí estava selada informalmente uma consideração entre as partes que valia quase tanto como se tivesse se originado do batizado de um filho na Igreja Católica.
                “São João dormiu. São João acordou. Você vai ser meu padrinho que São João mandou”. “São João dormiu. São João acordou. Você vai ser minha madrinha que São João mandou”. Afilhado e afilhada poderiam escolher um padrinho ou uma madrinha diferentes da época de criancinhas, quando tal tarefa era responsabilidade dos pais. Diante da fogueira, as partes celebravam uma amizade quase tão importante como se o batizado tivesse ocorrido na Igreja Católica.
               Num dia frio de junho, Dona Secundina, minha avó paterna, perguntou se eu queria ter como madrinha de São João uma senhora idosa, viúva e endinheirada. Eu disse que sim e fui logo fantasiando que ganharia centenas de caixinhas de traques, estrelinhas, diabinhos e outros itens inofensivos que as crianças da minha geração soltavam nas noites juninas. Desilusão total. Minha madrinha de São João nunca me deu nada de presente.
               Se num passe de mágica o passado retornasse, eu diria a minha avó Secundina que queria o Senhor Tempo como padrinho de São João.  “São João dormiu. São João acordou. O Senhor Tempo vai ser meu padrinho que São João mandou”. Diante de uma fogueira, o menino que um dia eu fui receberia um presente fantástico que me acompanharia pelo resto da vida, bastaria entrar no Túnel do Tempo: centenas de caixinhas de traques, diabinhos e estrelinhas.  
               Que pena, Senhor Tempo ! O meu São João nunca mais acordou.  

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Timbaúba-PE, São João de 2011.
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 PARE, OLHE, ESCUTE

Daslan Melo Lima

              Na primavera da minha vida, uma estrada  de ferro cortava a cidadezinha alagoana  onde nasci. Trens de passageiros  passavam diariamente por São José da Laje, indo de Maceió para o Recife, vindo do Recife para Maceió. Das bandas do Sítio dos Cardoso até lá para as bandas de uma localidade chamada Cento e Dez, em pontos estratégicos, placas sinalizavam para que as pessoas tomassem cuidado ao atravessarem a linha do trem.  “Pare. Olhe. Escute”, diziam as placas. 
 


                   No outono da minha vida, uma estrada de ferro corta a cidade pernambucana onde vivo. Eventualmente, trens de cargas passam por Timbaúba, indo da Paraíba para o Recife, vindo do Recife para Timbaúba. Das bandas dos sítios de Queimadas até lá para as bandas da Fazenda Santa Cândida, em pontos estratégicos, placas sinalizam para que as pessoas tomem cuidado ao atravessarem a linha do trem. “Pare. Olhe. Escute”, dizem as placas. 
               Na primavera da minha vida, quando o outono ainda estava muito distante, eu nem me dava conta que um dia estaria a meditar sobre os mistérios da vida e da morte, diante de uma dessas placas. A qualquer momento , poderei embarcar em um Trem com destino a uma das moradas construídas pelo Arquiteto do Universo. Quando? Jamais saberei.  Enquanto isso, vou caminhando, de mãos dadas com o vento, aprendendo com o silêncio, observando com cuidado as placas do meu destino que assinalam: “Pare. Olhe. Escute”.
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Timbaúba-PE, noite de junho de 2011, entre os bairros de Jardim Guarani e Timbaubinha, após uma caminhada à margem da estrada de ferro.   

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Um comentário:

Ladorvane Cabral disse...

Observando bem,são inúmeras coisas em comum entre Laje e Timbaúba!
Cercadas de montes,o pontilhão, a estrada de ferro,construção de imóvel muito paracido com o do Sr. Benedito Luiz de França,Daslan...