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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 620, referente ao período de 21 a 27 de maio de 2017. ***** Editor: Daslan Melo Lima ***** Timbaúba, Pernambuco, Brasil ***** Telefones: (81) 99612.0904 (Tim) e (81) 99277.3630 (Claro) ***** WhatsApp: +55 81 99612.0904 ***** E-mail: daslan@terra.com.br

sábado, 15 de junho de 2013

CONSUELÁ

Daslan Melo Lima

       Era final de uma tarde de 1986, centro do Recife, imediações da Praça Maciel Pinheiro, esquina da Rua do Hospício com a Rua da Imperatriz. Uma pessoa passava por ali e o seu jeito de caminhar despertava a atenção de todos. Aquele rosto não me era estranho e lembrei-me que tinha visto sua foto naquele dia no jornal Diario de Pernambuco.  A pessoa nada mais era do que Consuelá, nome artístico de um rapaz de origem humilde do bairro da Boa Vista chamado Antônio Leal (o Toinho ou a Conca, para os íntimos), que as charadas indecifráveis da condição humana tinham feito dele um dos mais famosos travestis de Pernambuco. Graças ao maquiador e carnavalesco Múcio Catão (1923-1985), seu amigo e descobridor, alcançou uma impressionante visibilidade nas colunas sociais.  Carismático e tido como pessoa generosa, Consuelá era assediado pela imprensa quando vinha da Europa, onde morava, para fazer o que tanto adorava: desfilar e brilhar nos bailes carnavalescos. Antes da fama, conheceu momentos difíceis, sendo, inclusive, detido várias vezes no final dos anos 70, época em que a polícia eventualmente recolhia rapazes que ousavam circular pelo centro da cidade em trajes femininos.
Recorte do Diario de Pernambuco, 1º/02/1986, acervo de Daslan Melo Lima/Passarela Cultural.
      O pseudônimo Consuelo foi uma homenagem à atriz Consuelo Leandro (1932-1999). Depois de morar alguns anos na Rua Augusta, São Paulo, e de ter convivido com muita gente famosa do ambiente artístico, viajou a Paris, onde passou uma temporada e submeteu-se a intervenções plásticas que deixaram seu corpo com aparência mais feminina, embora tenha conservado a genitália masculina. Voltou ao Brasil como Consuelá, foi motivo de reportagem na  Manchete, uma dos maiores revistas brasileiras da epóca,  investiu parte da fortuna que ganhou na compra de imóveis no centro do Recife e foi morar em Hamburgo, Alemanha. Casou  por conveniência com uma mulher, a fim de adquirir a cidadania alemã, e divorciou-se depois de algum tempo.  

Consuelá e Múcio Catão, em um dos grandes bailes do carnaval pernambucano dos anos 70. Foto: Arquivo/blog do Fernando Machado.
      Consuelá morreu na sexta-feira, 07, aos 72 anos de idade, em Hamburgo, onde estava radicado há muito tempo, vítima de insuficiência respiratória.  Na semana passada, a notícia que surgiu era de que ele tinha sido assassinado. Neste sábado, 15, o jornalista Fernando Machado noticiou em seu blog que um amigo de Consuelá , o Ricardo Sobral, que vive na Alemanha, enviou um e-mail  contando a verdadeira causa da morte de Consuelá.  Ele andava bastante doente nos últimos meses, mas tinha  total assistência médica  e era acompanhado em casa periodicamente por um corpo de enfermagem do governo alemão. Faleceu na sua própria residência e foi encontrado  pelo enfermeiro no dia seguinte.
Consuelá no Baile dos Artistas, Recife, 2012.  (Foto: Zilton Antunes, imagem copiada do blog do Fernando Machado).

            Fui anteontem resolver um assunto nas imediações da Praça Maciel Pinheiro e, por um segundo, tive a impressão de que Consuelá passava pela Rua da Imperatriz. Se eu fosse um compositor teria tido inspiração para compor um frevo em sua homenagem, mas como sou apenas um aprendiz da caminhada e dos mistérios insondáveis da Vida e da Morte,  dei as minhas mãos ao Vento, entrei na Igreja Matriz da Boa Vista, fiquei de joelhos e, ao lado do Silêncio e de Anjos Invisíveis, rezei por sua alma.

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6 comentários:

Anônimo disse...

Daslan,

com a morte de Consuelo, ou Consuelá, acabou a era de ouro dos grandes desfilantes dos bailes de Carnaval do Recife. Porque ela foi de um tempo em que Recife havia descoberto o talento dos filhos da terra, a exemplo do maquiador Múcio Catão e do cabeleireiro Jaime Melo. Desse tempo só restou Almir da Paixão.

Alegre e brincalhona são as imagens que vou guardar da Consuelá, assim como a doçura de uma criatura que um dia me presenteou com uma caixa de chocolates suíços, ao se inscrever para participar de um dos bailes municipais da vida.

Que Deus a tenha no seu reino e parabéns pela sua homenagem a esse pernambucano do bairro da Boa Vista.

Muciolo Ferreira - jornalista pernambucano, ex-assessor de imprensa do Baile Municipal do Recife de 1988/2000.

Anônimo disse...


Daslan

Parabéns pela bela mátéria, pontilhada por detalhes, da trajetória de vida de Consuelá desde os seus tempos de jovem rapaz alegre ao estrelato, que atingiu com sua perseverança de se tonar uma "Estrêla" dos bailes de carnaval do Recife, tornando-se uma celebridade do mundo LGBT do Recife.
Ele já recebeu todas as homenagens que aqui podia receber pós-morte.Agora o que ele precisa é de orações para aceitar a sua nova morada.

Simplesmente
Wilton Condé

Anônimo disse...


Caro Jornalista:

Consuelá contribuiu muito na divulgação no exterior do principal baile de Carnaval do Recife. Suas fatasias primavam pelo requinte e o bom gosto graças aos materiais importados de Paris. Vai fazer muita falta aos holofotes da mídia.Que Deus a receba na sua nova morada. Parabéns pela singela homenagem dos tempos em que os bailes eram frequntados pelo melhor da sociedade pernambucana. Porque atualmente todos eles se transforamram em simples prévias sem o brilho e glamour dos anos 70 e 80. Abraços,
Patrícia Dantas

Anônimo disse...

CONSUELA, Unico travesti que realmente tinha bom gosto em tudo que usava, lembro dela nas boates do REcife sempre impecavel e muito luxuosa! Hoje em dia nao existe mais travestis assim, talvez o tempo de glamour e de muito luxo passou e infelizmente estamos vivendo uma era mais simples e com certeza mais violenta em todos os senso. Quem viveu aqueles momentos e conheceu a Consuela no alge do seu sucesso sabe que ela fazia a difença onde chegava.Bellissimas recordaçoes de LUXO E BOM GOSTO que ainda hoje nao consigo encontrar em nenhum travesti!

GibaRec disse...

Recife mais triste !!!

Conheci em uma noitada na antiga boate Misty em janeiro de 1984 e nos tornamos bons amigos, vai deixar saudades. Excelente reportagem da minha saudosa Conca !!!

Anônimo disse...

Conheci-o(a) numa das muitas temporadas prė e pós carnaval. Eu tinha um amigo, Paulo Ricardo, cabeleireiro, que era amigo dele(a). Acho até que estive num de seus apartamentos, na esquina da r do Riachuelo com a 7 de setembro. Bons tempos, aqueles anos 80.